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Assistente virtual rastreia sinais de autismo para otimizar diagnóstico

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Imagem: iStock

Bárbara Therrie

Colaboração para VivaBem

19/04/2021 04h00

Quem tem algum familiar com TEA (transtorno do espectro do autismo) sabe a dificuldade que pode ser conseguir um diagnóstico rápido. O atraso no início do tratamento pode comprometer não só o desenvolvimento e as habilidades, bem com a qualidade de vida do indivíduo e das pessoas ao redor.

Visando entender as dificuldades globais do autismo e em como ajudar uma parcela de autistas que permanecem na invisibilidade, a psicóloga Andressa Roveda e o empreendedor Leandro Mattos, da startup catarinense CogniSigns, criaram uma ferramenta de rastreio que ajuda a identificar sinais do TEA em crianças, adolescentes e adultos.

"É importante destacar que não fazemos diagnósticos para o TEA, a ferramenta apenas realiza uma triagem digital rápida, inteligente e de baixo custo, capaz de alertar o usuário caso exista a presença de possíveis comportamentos indicadores para TEA. Com esse alerta, a pessoa passa a ter consciência de que precisa buscar ajuda de um profissional de saúde habilitado. Os dados levantados pela triagem podem servir como ferramenta de apoio para médicos durante o diagnóstico e tratamento", explica Roveda.

Como funciona?

A primeira etapa, gratuita, é realizada pela assistente virtual V.E.R.A. (Virtual Empathic Robot Assistant), na qual quem está sendo analisado e o cuidador responsável conversam com a assistente como em uma rede social, respondendo a um questionário por meio de um smartphone, tablet ou computador.

As questões feitas são sobre a insistência em manter rotina, interação quando a pessoa examinada é chamada pelo nome, possível insensibilidade a dor, imitações de reações de adultos e reações quando desejos e expectativas não se cumprem.

Segundo Roveda, as perguntas fazem parte de protocolos de saúde aplicados pela comunidade médica global e recomendados pelo SUS (Sistema Único de Saúde) e pela SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria).

Na sequência é oferecida uma segunda etapa, que tem um custo que pode variar de acordo com o cliente (pessoa física ou jurídica). "Nessa fase, a V.E.R.A. utiliza a chamada visão computacional, que atua em captura, classificação e compreensão de imagens, convertendo-as em dados e viabilizando uma série de possibilidades de uso", detalha Mattos.

Na prática, basta posicionar a pessoa a ser analisada em frente a um computador, tablet ou smartphone com câmera, clicar no botão iniciar e assistir a um vídeo. Enquanto ela assiste é feito um rastreamento ocular. Essa função seria a mesma que se o paciente estivesse sendo observado pelo profissional de saúde durante uma consulta.

Mãe levou 12 anos para ter diagnóstico da filha

Mayara com a filha Ana - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Mayara com a filha Ana
Imagem: Arquivo pessoal

Mesmo percebendo que Ana Carolina, 13, tinha algo de estranho e algum tipo de atraso desde os primeiros meses de vida, a funcionária pública Mayara Andrade Filha, 37, demorou 12 anos para descobrir que a filha é autista.

"Ela demorou para sentar, engatinhar e andar. Era uma bebê paradona e quieta, não interagia com as outras crianças e brincava sempre com o mesmo brinquedo".

Ana tinha 2 anos quando a mãe a levou ao neurologista pela primeira vez, mas o médico disse que era cedo para dar um diagnóstico. Quando Ana fez 5 anos, Mayara a levou a outro neurologista, que a acompanhou até os 10 e fez um laudo atestando que a menina tinha um atraso mental sem fechar um diagnóstico.

"O tratamento foi no posto de saúde, levava a minha filha 2 vezes ao ano. A médica dizia que a Ana precisava fazer um teste, com um profissional específico, para avaliar a capacidade intelectual dela. Aguardei esse teste por 5 anos, mas ele nunca chegou".

A falta de diagnóstico gerou alguns problemas para a família. Mayara conta que quando elas iam visitar alguns parentes, Ana não cumprimentava, não abraçava, não conversava e não gostava de barulho. "Minha família dizia que ela não tinha nenhuma doença, que eu a criava numa redoma e não ensinava bons modos e uma boa educação", conta a mãe.

Angustiada, Mayara queria uma explicação para saber o que a filha tinha para poder entendê-la e ajudá-la: "Via o sofrimento dela, ela chorava". A funcionária pública levou o laudo da neurologista para a diretora da escola onde a filha estudava.

Ana passou a ser acompanhada por um atendimento de educação especial após as aulas regulares. A professora que acompanhava Ana desconfiava que ela tivesse autismo e sugeriu à Mayara que elas usassem a V.E.R.A.. Mayara concordou, elas passaram pelas etapas e a ferramenta apontou que a menina tinha fortes sinais do transtorno.

Mayara levou o resultado da triagem para uma terceira neurologista, que juntamente com exame clínico e análise de exames anteriores confirmou o grau moderado de autismo da Ana Carolina. "Minha primeira reação foi chorar e me culpar, mas depois fiquei aliviada".

Ao demorar 12 anos para conseguir o diagnóstico da filha, Mayara afirma que a ferramenta de rastreio foi um divisor de águas, pois foi o caminho que a levou na direção certa para descobrir o que a filha tinha. Ana iniciou o tratamento e já apresenta melhoras no quadro, participa mais das atividades na escola e interage um pouco mais com as pessoas.

O que dizem outros profissionais de saúde

A pedido de VivaBem, duas especialistas que não acessaram a ferramenta, mas tiveram acesso às informações sobre ela, comentam o método.

Luciana Garcia, neuropsicóloga, doutoranda em autismo, coautora do livro "Autismo: um olhar por inteiro" e diretora da Clínica Sinapses (SP) diz que achou a iniciativa muito interessante levando em conta que muitos diagnósticos deixam de ser realizados por falta de recursos ou de profissionais especializados, atrasando, às vezes, em alguns anos, o diagnóstico e, consequentemente, o início das intervenções.

"Penso que esse recurso pode ser usado em clínicas de pediatras, UPAs, por outros profissionais e podem ser aplicados obrigatoriamente como rastreio de possíveis atrasos no desenvolvimento do TEA, levando a um encaminhamento precoce para diagnóstico", analisa.

Adriana Mandia Martirani, neuropediatra do Hospital Sírio-Libanês e do Hospital de Julho (SP), segue a mesma linha. "Entendendo que se trata de um método de triagem para identificar possíveis sinais do TEA e que não é um método que faz diagnóstico, considero uma ferramenta válida no sentido de o paciente poder buscar ajuda médica e intervenção precoce. Porém sempre deve estar muito claro que esse método não confirma e também não descarta possíveis diagnósticos do TEA. Caso haja dúvida se o paciente pode ou não ter características de autismo considero fundamental e insubstituível a avaliação médica".

Garcia diz que o eye tracking (rastreio visual) é um bom indicador do transtorno. O rastreio visual permite observar, durante um vídeo com pessoas conversando, por exemplo, qual o objeto de foco da pessoa que está sendo testada.

"Normalmente, ao conversarmos com alguém, mantemos olhos nos olhos na maior parte do tempo, já o autista busca outros focos, como boca, cabelos e orelhas e não os olhos durante a conversa. Sendo assim, acredito que trazer essa tecnologia para o Brasil e permitir que o eye tracking torne-se mais acessível ajudando no rastreio do autismo será importante para os profissionais envolvidos no processo, assim como para quem está em busca desse diagnóstico".

A neuropediatra também considera positivo o uso do eye tracking como instrumento, porém ela afirma que é preciso ter cautela e entender que a inteligência artificial de maneira isolada não é o suficiente para se fechar o diagnóstico do TEA e nem substitui a avaliação do médico e dos especialistas da área.

Como é o diagnóstico de autismo

Atualmente o diagnóstico do TEA é realizado a partir de observação clínica e baseado nas características descritas pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Doenças Mentais.

1) Déficits persistentes na comunicação e interação social (não há reciprocidade, não imita, contato visual fraco, atraso ou alteração de linguagem, déficit na comunicação não-verbal, ausência de atenção compartilhada).

2) Restrição ou repetição de comportamentos, interesses e atividades (estereotipias motoras, ecolalia, repetição de sons monótonos, comportamento metódico, apego a objetos incomuns, hipo ou hiper-reatividade a estímulos sensoriais).

Além da anamnese completa e minuciosa, o exame físico, exame neurológico, avaliação neuropsicológica e comunicação com profissionais que acompanham o paciente também podem auxiliar no processo.

O diagnóstico no Brasil é dado por médicos neurologistas ou psiquiatras, mas a avaliação pode ser realizada por equipe multiprofissional: neuropsicólogos, psicólogos, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais.

Startup quer versão para saúde mental

Participante da atual edição do programa de aceleração da Samsung, Creative Startups, a CogniSigns está contando com a ajuda e recursos da empresa de eletroeletrônicos para aprimorar a V.E.R.A. para detecção facial.

Atuando na identificação de comportamentos indicadores do TEA e também de superdotação, Andressa Roveda afirma que o objetivo é avançar para outros campos.

"Em breve, disponibilizaremos uma nova versão para saúde mental (estresse, ansiedade e depressão). Também estamos ampliando nossos estudos para aplicação em dislexia, transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), entre outros. Precisamos fazer mais rápido, para mais regiões e, principalmente, para os que mais precisam", afirma.

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