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Estresse pós-traumático: "Tinha pesadelos com o acidente e chorava de medo"

Arquivo pessoalArquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoalArquivo pessoal

Bárbara Therrie

Colaboração para o VivaBem

03/04/2021 04h00

Mais do que feridas físicas, o acidente de trânsito que Rayssa Gomes, 25, sofreu deixou profundas marcas emocionais. A técnica de enfermagem desenvolveu o transtorno do estresse pós-traumático (TEPT) após a ambulância em que ela estava bater em um caminhão. Devido ao trauma, está afastada do trabalho há quase dois anos. A seguir, Rayssa conta as dificuldades que enfrentou:

"Como técnica de enfermagem, eu tinha uma jornada dupla de trabalho. Durante o dia trabalhava com home care e à noite no Hospital Regional Ruy de Barros Correia, em Arcoverde (PE), no pronto-socorro e na transferência de pacientes para hospitais de outras cidades.

No dia 29 de março de 2019, assumi meu plantão no hospital às 19h. Uma hora depois, precisei fazer a remoção de duas gestantes em estado grave. No caminho, senti uma sensação estranha no peito, algo que dizia que não era para eu estar naquela ambulância. Mas ouvi a razão e segui cumprindo meu dever.

Fizemos a transferência das gestantes para hospitais diferentes em Recife e só fomos liberados às 4h30, teríamos mais quatros horas de viagem para voltar a Arcoverde. Durante o trajeto, percebi que o motorista estava sonolento, bastante cansado. Alertei várias vezes que deveríamos parar em algum posto de combustível, descansar e continuar a viagem com mais segurança. Mas ele não me ouviu, disse que estava preocupado o plantão que tinha em outro hospital. Fiquei nervosa, mas tive de aceitar a decisão dele.

O acidente que mudou minha vida

Acidente, Rayssa Gomes, técnica de enfermagem - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Eram 6h da manhã quando a ambulância bateu na traseira de um caminhão. A pancada foi forte, ouvi um estrondo, mas não senti dor na hora. Só me lembro dos meus olhos cheios de vidro e do nariz e da boca sangrando muito. Pensei: "Não quero morrer, mas vou morrer".

Alguém me colocou num carro e me levou para um hospital. Até hoje não sei quem me socorreu, mas foi um anjo enviado por Deus.

Tive uma sutura na boca e levei quatro pontos, até hoje não sinto uma parte da boca devido ao rompimento dos ligamentos do nervo facial. Fui transferida para outro hospital e recebi alta no dia seguinte, mas fiquei muito abalada psicologicamente. Os primeiros dias foram de muita angústia, tinha fortes dores de cabeça e no corpo, palpitação, tremores, sensação de medo constante, crises de choro, de ansiedade e pânico.

Sem falar do pesadelos: nos sonhos, revivia tudo o que havia acontecido, me via na ambulância sofrendo o acidente, acordava chorando, suada, desesperada e gritando.

Tinha muito medo de dormir porque sabia que as cenas iam se repetir na minha cabeça

Também tinha flashbacks do acidente quando estava acordada. Não queria receber a visita de amigos e familiares porque eles ficavam me perguntando sobre a batida. Só de lembrar, sentia um nó na garganta, transpirava, tremia e chorava.

Percebi que aquilo não era normal e decidi procurar um psiquiatra, mas só consegui marcar consulta para dali um mês.

Tentativa de voltar ao trabalho e a descoberta do TEPT

Rayssa Gomes, técnica de enfermagem - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Rayssa com o uniforme do trabalho, antes de sofrer o acidente
Imagem: Arquivo pessoal

Assim que sofri o acidente, voltei a morar temporariamente com meus pais e retornei ao trabalho após 15 dias afastada.

No hospital, tinha vários gatilhos (ações ou pensamentos que desencadeiam sentimentos negativos) e já saia de casa chorando para ir trabalhar. Chegando lá, não me reconhecia na minha função, era como se não tivesse a mínima noção do que estava fazendo ali. Fui transferida para a sala amarela, no setor de emergências. Quando ia atender a um paciente, passava mal e sentia dor de cabeça, palpitação, tremores. Era uma pressão psicológica muito grande.

Enfrentei esses sintomas no trabalho por 15 dias, até conseguir me consultar com um psiquiatra em maio. O médico disse que tive um quadro inicial de estresse agudo, que resultou no transtorno do estresse pós-traumático. Já tinha ouvido falar do problema por causa da Lady Gaga, mas não sabia detalhes.

O psiquiatra me receitou três medicações: uma para dormir, uma para controlar a ansiedade e um antidepressivo. Também solicitou que eu ficasse três meses afastada do trabalho.

Ele explicou que ter uma doença mental não é fácil e pode demorar anos para a pessoa ficar bem, mas é possível superá-la.

Além do acompanhamento com psiquiatra, comecei a fazer terapia uma vez por semana e a ocupar meu dia com coisas que gostava, como costurar e pintar.

Rayssa Gomes, técnica de enfermagem - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
O acidente deixou marcas físicas e emocionais em Rayssa
Imagem: Arquivo pessoal

O problema é que os gatilhos ainda eram constantes. Por exemplo, tive que parar de costurar porque o barulho da máquina me fazia lembrar o estrondo da batida, revivia a cena e tinha as mesmas sensações de sempre. Tudo na minha vida girava em torno do acidente.

No começo de 2020, tive depressão. Para piorar, veio a pandemia do coronavírus e me senti ainda mais vulnerável com as medidas de isolamento. Tive altos e baixos. Aos poucos, fui conquistando pequenas coisas, como conseguir ir ao supermercado, falar sobre o acidente, morar sozinha novamente. Mesmo com medo, sempre tive a esperança de que venceria o transtorno. Sei que não vou voltar a ser quem eu era, mas estou trabalhando para curar cada ferida emocional.

Ainda tenho os sintomas do transtorno, mas procuro manter o autocontrole quando revivo as memórias. Continuo afastada do hospital, ainda não me sinto preparada para voltar, mas acredito que é questão de tempo. Sigo em tratamento, já melhorei bastante e possivelmente pararei com as medicações esse ano. Quero ficar bem e redescobrir o amor pela minha profissão."

O que é o TEPT?

O transtorno de estresse pós-traumático é caracterizado por um aumento importante da ansiedade após a exposição a um evento traumático, como presenciar ou estar envolvido em um acidente ou crime violento, sofrer agressão, situações de desastre natural e até a tensão sofrida após perdas econômica ou discussões sobre política.

Segundo Rodrigo Menezes Machado, psiquiatra colaborador do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso (PRO-AMITI) do Instituto de Psiquiatria do Hospital de Clínicas da USP (Universidade de São Paulo), a pessoa reage à experiência com medo e impotência, revivendo recorrentemente o acontecido, por meio de sonhos, pensamentos ou flashbacks —uma experiência lúcida, na qual o indivíduo sente como se o evento estivesse ocorrendo novamente.

"Apesar de realizar esforços repetitivos para evitar reviver a situação traumática, quando exposto a situações ou pensamentos que remetam ao ocorrido, o paciente é tomado por uma reação ansiosa exacerbada e incapacitante", explica o médico.

O diagnóstico é realizado quando os sintomas são identificados clinicamente por um profissional e duram por, pelo menos, um mês após o evento que gerou o transtorno.

Sintomas

Arianne Costa, psicóloga clínica, que atua com mapeamento e técnicas para dessensibilização de traumas infantil e adulto, lista os principais sintomas:

- Reviver as reações fisiológicas que ocorreram no ato do trauma: coração acelerado, sudorese, tremor, falta de concentração, sensação de fraqueza/tontura, tensão constante, mal-estar repentino sem saber identificar o porquê destas manifestações, vômitos.

- Flashbacks do trauma, pesadelo, pensamentos assustadores. A pessoa evita lugares, objetos, pessoas ou palavras que, de alguma forma, remetem à lembrança do evento.

- Constante e súbita alteração de humor, sentir medo facilmente sem uma ameaça real, explosões de raiva, alteração no sono, compulsão alimentar ou perda de apetite, nível de estresse alto, irritação.

- Ter pensamentos negativos sobre si mesmo ou o mundo, sentimentos distorcidos como culpa ou vergonha, perda de interesse em atividades agradáveis.

Como tratar

A base do tratamento é o acompanhamento com um psiquiatra e terapia com psicólogo, que geralmente utiliza técnicas específicas para dessensibilização de traumas. Pode ser necessário o uso de medicamentos para amenizar os sintomas e melhorar a qualidade de vida do paciente.

O apoio da família e amigos é fundamental na recuperação. Oferecer apoio emocional, compreensão, paciência e encorajamento são bem-vindos.

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