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"Num dia, o paciente estava bem; no outro, intubado e, depois, morreu"

Maria Aparecida Marques Pereira é enfermeira de hospital em SP - Arquivo pessoal
Maria Aparecida Marques Pereira é enfermeira de hospital em SP Imagem: Arquivo pessoal

Luiza Vidal

Do VivaBem, em São Paulo

30/03/2021 11h00

Maria Aparecida Marques Pereira é enfermeira de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do Hospital Salvalus (SP) e está atuando com pacientes de covid-19. A profissional de saúde conta que, desde o começo da pandemia em 2020, nunca viu uma situação parecida. Segundo a enfermeira, o cenário está muito pior, com pacientes mais jovens e mais graves. Confira o relato concedido a VivaBem:

"Sou enfermeira de UTI cardíaca, mas agora voltei a operar no setor de covid-19. Começou tudo de novo, reduzimos os leitos de uma forma geral para focar nos pacientes de covid e temos remanejamento todos os dias. O que mais temos, agora, é UTI covid. Nenhum dos profissionais esperava um caos desse.

Apesar de eu ser enfermeira nesta área que amo de paixão, sinto medo do desconhecido. É uma luta diária. Eu trabalho com UTI de adultos e estou acostumada a conviver com as grandes perdas, presenciando a morte das pessoas, mas não desta forma, neste ambiente que estamos vendo ultimamente.

Estávamos conseguindo respirar, mas hoje em dia está muito pior. Parece que de uma forma mais avassaladora, com mais mortes. As UTIs estão lotadas e sempre pensamos 'até quando vamos conseguir providenciar leitos para os pacientes?'. O número de adoecidos é muito grande.

Há casos que são difíceis de esquecer

Presencio histórias marcantes o tempo todo. É aquilo que falo, nós nunca seremos frios, mesmo acostumados a conviver com a morte diariamente.

Cuidei de um rapaz de 42 anos, muito jovem, e ele disse que gostaria de falar com a esposa dele, pois o médico tinha dito sobre a intubação por conta da piora gradativa do sistema respiratório —comum em pacientes de covid-19.

Ele me olhou e disse que não queria ser intubado porque sabia que tinha riscos de não sobreviver. Você fica sem saber o que falar, tenta dizer que existem outras possibilidades. Aí fui embora para casa, com ele intubado e, no dia seguinte, ele não estava mais lá.

Isso é muito comum com os pacientes de covid e é a parte mais triste: você conversa com o paciente, vai embora e, quando volta, ele está intubado. No próximo dia, vem a óbito. É uma sensação que estamos enxugando gelo.

É muito desanimador ver locais com aglomeração

Atendemos outra paciente de 21 anos que disse ter pego covid em um bar, dividindo narguilé com os amigos. São coisas que marcam a gente. Isso é o mais triste: pessoas que não colaboram e favorecem para que o vírus siga sendo propagado por aí.

Eles não têm noção o quão sofrido é estar em um leito de UTI para pessoas com covid, você não sabe o amanhã. Apesar de todos os cuidados médicos, não sabemos como aquele paciente vai evoluir. É tudo muito incerto.

No hospital em que trabalho, ainda temos leito de UTI, além do plano de contingência acionado há muito tempo. Mas não é simplesmente montar mais leitos, é pensar na doença e nas pessoas que estão sofrendo com isso. É muito desanimador sair do trabalho e ver os locais com aglomeração de pessoas.

A gente faz o que gosta, todo dia me sinto renovada para chegar no hospital e fazer meu trabalho, mas é também um desgaste contínuo. Os profissionais de saúde estão sofrendo pelo cansaço e pela angústia de ver, cada vez mais, pessoas adoecendo. Não sabemos até quando vamos conseguir oferecer esses cuidados.

Desgaste, incerteza e angústia

Sobre a saúde mental, cada um reage de uma forma, mas o desgaste, a tristeza e a angústia vêm. Você observa o ambiente hospitalar, com a demanda triplicada, e nota a sobrecarga de trabalho. Temos muitas pessoas afastadas e doentes, mesmo com o hospital oferecendo acompanhamento. A demanda é muito maior do que a quantidade de profissionais disponíveis, por mais que contratem pessoas de forma emergencial.

Por isso eu sempre penso na religião, na fé, seja ela qual for. Acredito em Deus e só essa esperança faz com que eu enfrente o outro dia, é o que me dá gás para trabalhar. Fico desejando que os dias sejam melhores e que os profissionais de saúde não adoeçam.

Eu que sustento minha família. Tenho medo de adoecer e falecer, mesmo já tomando as duas doses de vacina. É uma insegurança constante.

Moro com meus filhos e tenho outra filha. Não tem jeito, você acaba trazendo a vivência do hospital para a casa. Quando você chega, é a continuidade de toda loucura que estamos vendo, crianças sem escolas, isolamento social e o medo de oferecer riscos na saúde.

Amanhã pode ser você procurando um leito de UTI

Não sei o que será dos profissionais de saúde, sabemos que isso vai longe. Já perdemos muitos colegas e não sabemos até onde vai esse caos, mas desejo muita força para todos nós, profissionais da linha de frente.

Escolhemos estar lá cuidando das pessoas, dando carinho e lutando por eles. Gosto do que faço, a enfermagem é a junção do amor com a ciência. Mas fico triste pelas pessoas que não estão se cuidando. Sempre falo: usem máscara, façam a higiene das mãos e, se puder, fiquem em casa. Amanhã pode ser você procurando um leito de UTI e sem saber se vai conseguir encontrar".

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