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Já mandou mensagem enquanto dormia? Transtorno é reflexo do mundo digital

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Imagem: iStock

Alexandre Raith

Colaboração para VivaBem

22/03/2021 04h00

Imagine terminar o namoro pelo celular e só perceber o engano no dia seguinte, após a leitura do histórico de mensagem de um aplicativo de conversa. Ou que tal comprar diversos edredons e descobrir a aquisição dos produtos pela fatura do cartão de crédito? Ou ainda enviar mensagens pelo celular com textos sem sentido.

Tais relatos são apenas alguns dos ouvidos em consultório pela neurologista Rosa Hasan, coordenadora do Laboratório e Ambulatório do Sono do IPq/HC-FMUSP (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo). Detalhe: tudo isso foi feito enquanto as pessoas dormiam, e elas não se lembram de nada.

"É variável a série de coisas que as pessoas podem fazer dormindo. Eu mesma já recebi mensagem de madrugada por uma rede social com texto desconexo. Só descobrem quando veem no histórico do aplicativo ou no cartão de crédito", relata a neurologista.

A prática de enviar mensagens pelo celular enquanto dorme e não se recordar no dia seguinte, como mencionado por Hasan, é conhecida como sleep texting. Trata-se de uma parassonia, ou seja, um transtorno do sono que se caracteriza por comportamentos anormais durante o dormir e ao despertar.

A pessoa, dormindo, desbloqueia o aparelho e escreve mensagens geralmente sem sentido. O estado é semelhante ao sonambulismo e ocorre, geralmente, por predisposição genética para o transtorno noturno ou outros tipos de distúrbio de sono, que são intensificados pelo uso exagerado de computadores e celulares.

"Existe consciência mesmo durante o sono, mas o estágio é diferente. Tal comportamento noturno é um despertar confusional. Acontece com mais frequência com quem toma remédio indutor do sono. Com adolescentes, pode acontecer mesmo sem o uso de medicamento hipnótico, por serem muito ligados a redes sociais e celular", explica Hasan.

Dependência de celular

Sono celular - iStock - iStock
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O uso exagerado do dispositivo eletrônico está associado a comportamentos relacionados à má qualidade do sono. O costume de dar uma olhadinha nas redes sociais, ler notícias na internet ou trocar mensagens —deitado na cama se preparando para dormir— pode estimular o surgimento de distúrbios de sono.

Isso ocorre porque a luz emitida pelo aparelho atrasa a produção de melatonina —conhecido como o hormônio do sono. Entre os efeitos estão a demora para conseguir dormir, a redução da duração do sono e a insônia. E, consequentemente, cansaço, dificuldade de concentração e irritabilidade no dia seguinte.

Seria, então, o transtorno de enviar mensagem pelo celular enquanto dorme um reflexo dos novos hábitos do mundo digital? "Com certeza. Deve ser mais comum do que pensamos. É automático mexer no celular. Há uma falta de controle e o impulso. É uma geração de zumbis", afirma a coordenadora do Laboratório e Ambulatório do Sono do IPq.

"Digitar está sendo automático e acaba virando um comportamento consolidado no cérebro. Temos aí uma confusão mental. Estímulos, como a vibração do aparelho quando chega uma mensagem ou a luz da tela, fazem com que a pessoa acorde espontaneamente, mas não completamente. Aí ela pega o celular, mexe e não se lembra", esclarece a neurologista Dalva Poyares, pesquisadora do Instituto do Sono.

Segundo a instituição, estudos apontam que até 60% das pessoas podem ser dependentes do celular, e alguns hábitos podem demonstrar essa dependência:

  • Leva menos de cinco minutos para usar o celular pela primeira vez ao acordar;
  • Desbloqueia o celular mais de 30 vezes durante o dia;
  • Usa o aparelho mesmo em lugares em que isso não é adequado, como em sala de aula ou palestra;
  • Utiliza o dispositivo em condições que trazem algum risco, como ao dirigir ou atravessar a rua;
  • Já ouviu de alguém que está passando tempo demais no celular.

Sonambulismo digital

sonambulismo - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Poyares afirma que o transtorno de enviar mensagem enquanto dorme está mais relacionado à predisposição para o sonambulismo e ao costume exagerado de usar o celular do que a condições genéticas.

De acordo com a neurologista, até 40% das crianças podem ter tido um evento de sonambulismo na vida. É mais comum na infância porque o cérebro está em desenvolvimento e tem uma fase de sono mais consolidado. Porém, ela tem notado um crescimento de diagnósticos de sleep texting em jovens e adultos.

"Nos últimos anos, tenho percebido um aumento do número de casos de sonambulismo digital dentro das parassonias, com a popularização dos aplicativos e das redes sociais. Por isso, o ideal é desligar o celular ou deixar completamente mudo e virado para baixo, para não haver estímulo", relata a pesquisadora do Instituto do Sono.

"Problemas para respirar à noite e bruxismo, por exemplo, também são fatores que podem desencadear o sonambulismo digital, porque eles superficializam o sono. E, com o estímulo do celular, a pessoa fica no estado de transição entre a vigília e o sono. O estímulo da mensagem recebida inicia o da resposta", explica Poyares.

Como evitar o sleep texting?

Não temos como negar. Vivemos em um mundo e em uma sociedade digitais que se comunicam, trabalham e se relacionam pelo celular. O segredo, então, para ter um sono mais tranquilo e duradouro está em adotar medidas que minimizem o uso descontrolado.

O primeiro passo é admitir que você precisa se desconectar. Comece por evitar mexer no aparelho durante reuniões, aulas e encontros pessoais, que demandam uma atenção —e respeito— ao outro.

Outra dica é reduzir o número de vezes que consulta a caixa de e-mail, as redes sociais ou aplicativos de mensagem. No início, pode ser um difícil exercício, mas o controle da ansiedade e do impulso tem de virar hábito.

Luz do celular atrapalha a produção do hormônio do sono - iStock - iStock
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Atenção, pais! Tais recomendações valem também para as crianças. Para Márcia Assis, neurologista e diretora da ABS (Associação Brasileira do Sono), o uso exagerado e errado do aparelho está roubando as horas de sono dos pequenos.

"A restrição de uso de telas entre crianças já é uma preocupação médica, sendo que atualmente existe recomendação de número limite de horas. O sleep texting tem sido cada vez mais relatado em crianças, adolescentes e jovens, especialmente naqueles que têm um hábito compulsivo e que mantêm o celular ligado à noite. Alguns até dormem com o aparelho embaixo do travesseiro", alerta Assis.

No período noturno, restrinja ainda mais o acesso ao celular. Para garantir uma boa noite de sono, esqueça dele pelo menos uma hora antes de dormir e jamais o leve para a cama. A neurologista e diretora da ABS listou algumas dicas para evitar o desenvolvimento ou diminuir a ocorrência do sonambulismo digital.

  • Mantenha o celular desligado ou no modo silencioso enquanto dorme;
  • Caso não seja possível pelo trabalho ou uma situação especial, deixe o celular longe da cama e do travesseiro. Caso uma notificação ocorra, será necessário levantar para alcançá-lo, e isso pode garantir um maior estado de alerta;
  • Coloque senha para liberação do aparelho;
  • Evite responder a mensagens imediatamente;
  • Tenha horários regulares de sono;
  • Respeite o número adequado de horas de sono, conforme a sua necessidade.

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