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Existe personalidade forte? Como lidar com temperamentos explosivos

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Imagem: Getty Images

Diego Garcia

Colaboração para o VivaBem

26/01/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Certos padrões de conduta são considerados fatores de personalidade forte, mas não existe definição na literatura da psicologia ou da psiquiatria
  • Se canalizadas, porém, essas condutas podem ser positivas e trazer benefícios como foco, garra e determinação
  • Reações explosivas podem ser consideradas parte de alguém com personalidade forte, mas isso por esconder problemas ou dificuldades psíquicas

Têm um temperamento explosivo, falam o que pensam, sem filtrar muito as palavras e, não muito raro, colecionam inimizades. Essas são algumas características atribuídas a pessoas de personalidade forte. Mas isso existe mesmo? Cientificamente, não.

É o que explica a psicóloga e psicanalista Anne Lise Di Moisè Scappaticci, professora da Sociedade Brasileira de Psicanálise, doutora em saúde mental pelo Departamento de Psiquiatria da EPM-Unifesp (Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo) e pós-doutoranda pela psicologia da USP (Universidade de São Paulo). "Não existe uma classificação científica, o que fazemos é uma observação do psíquico. Em determinados momentos entendemos que existem padrões, como não tolerar frustrações e a não satisfação imediata, por exemplo".

De acordo com ela, o que chamamos de personalidade forte pode significar várias coisas. Na psicanálise existe a função de vida, que são os resultados positivos, e função de morte, que são os resultados negativos. Se a agressividade for bem canalizada, pode deixar a pessoa focada, com garra, vontade e persistência de viver. Nesse sentido, ter personalidade forte pode não ser algo negativo. Já se a pessoa é explosiva, por não tolerar frustrações ou não aceitar a não satisfação imediata, tem a ver com repetição e com o instinto de morte, o que pode trazer consequências negativas.

Pesquisas sobre o tema começaram a.C

Essa ideia de personalidade forte é muito antiga. Segundo o psicólogo, psicanalista e professor da UFMS (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul), Tiago Ravanello, ela é baseada na intuição de Hipócrates (460 a.C.-377 a.C.), o "pai" da medicina no mundo grego. A teria era de que os líquidos corporais deveriam compor um equilíbrio para a constituição da saúde, ou ainda que o seu desequilíbrio levaria à formação das principais doenças e sintomas.

"Séculos mais tarde, Galeno (129 d.C.-201 d.C.) adaptou a concepção de temperança e harmonia de Hipócrates, cuja terapêutica visava uma restauração do equilíbrio para a constituição de tipos de personalidades de acordo com o temperamento, ou seja, com a maior presença de um dos humores (ou líquidos corporais) em cada indivíduo", diz. Dessa tipologia surgiram, portanto, quatro diferentes tipos de humores: o colérico, o sanguíneo, o fleumático e o melancólico.

transtorno explosivo - Fernanda Garcia/UOL VivaBem - Fernanda Garcia/UOL VivaBem
Imagem: Fernanda Garcia/UOL VivaBem

Se para a medicina antiga uma maior quantidade de bile amarela no organismo levaria um sujeito a ter uma personalidade colérica e, por consequência, emoções prioritariamente intensas, irritadiças e impulsivas, todo tratamento possível desses afetos se daria pela produção de um novo equilíbrio orgânico, incentivando a produção dos outros três líquidos corporais ou diminuindo a produção deste.

O que não é levado em consideração numa leitura como essa é justamente a nossa implicação enquanto sujeito em relação a nossos afetos e as formas de vivência das experiências sociais, de acordo com Ravanello. "O que está em jogo nas chamadas 'personalidades fortes' tem muito mais a ver com os modos de distribuição do poder nas relações humanas do que com o nosso funcionamento orgânico".

Comportamento semelhante pode ser transtorno psíquico

Para o psiquiatra Henrique Bottura, diretor clínico do Instituto de Psiquiatria Paulista e colaborador do ambulatório de impulsividade do Hospital das Clínicas de São Paulo, o que convencionamos chamar de personalidade forte está relacionado com pessoas que apresentam o mesmo padrão comportamental sempre. Já os indivíduos que "explodem" e que possuem variações de humor podem estar com algum problema psiquiátrico e precisa fazer acompanhamento.

Existe um quadro específico chamado transtorno explosivo intermitente, também conhecido como síndrome do pavio curto ou síndrome do Hulk. São pessoas que em geral são tranquilas, no entanto, em algumas circunstâncias, elas têm uma reação muito desproporcional ao evento ocorrido. "É como um indivíduo que vez ou outra, quando é fechado no trânsito, sai atrás do carro, persegue e intimida o outro motorista, mas depois cai na real, se arrepende e sofre. Fica angustiado porque se envergonha do corrido. Muita gente perde relacionamentos afetivos ou de amizade e trabalho em função deste tipo de reação", diz.

Como lidar com pessoas com "personalidade forte"

Se o caso não for de um transtorno mental, mas sim de indivíduos reativos, Scappaticci afirma que a melhor maneira para lidar com pessoas assim é não confrontar, ou seja, não criar embates. Indivíduos considerados de personalidade forte nem sempre agem de forma consciente. Para ela, é importante entender que essas reações não definem a pessoa, é apenas uma parte dela. Pode ser, por exemplo, que no fundo essa pessoa se sinta tão frágil que ela se autoboicota, não promove o diálogo, ao contrário, age de forma que os outros a temam e fiquem longe.

"Precisa ter muita paciência e tentar não provocar a explosão, tentar ponderar e conversar sem entrar em embate. Às vezes não temos escolha, pois essa pessoa é seu pai, seu chefe, seu filho adolescente, seu marido, é uma pessoa do seu convívio. Então é interessante saber quais aspectos nossos que fazem com que a gente provoque o outro, onde a gente entra nisso", diz a psicóloga.

Bottura orienta que, quando se convive com alguém que tem esse perfil, a questão não é o controle da outra pessoa, e sim o controle de si mesmo. "Como é que eu me posiciono em relação a isso, por exemplo? Uma mulher que tem o marido agressivo tem que se defender, se cuidar. O ponto essencial é a autoproteção, como eu me protejo e depois como eu posso ajudá-lo", complementa.

Casal irritado - Getty Images - Getty Images
Imagem: Getty Images

Relações devem ter limites

Mas é necessário traçar uma linha visível entre o que é ou não aceitável dentro de uma relação. É muito comum que uma série de comportamentos abusivos ou situações de agressividade explícita ou de imposição à força tentem ser justificados pela lógica do temperamento ou da personalidade forte.

Isso naturaliza um jogo de forças que tende sempre ao mesmo lado. Uma parcela muito significativa do que desculpamos rapidamente por se tratar de "questões de temperamento" tem a ver com um modo de tentar se impor nas diferentes tomadas de decisões que necessitam de acordo mútuo ou, ainda, em formas infantilizadas de lidar com as próprias frustrações.

De acordo com Ravanello, não é difícil notar traços de infantilismo no comportamento de pessoas tidas como aquelas de personalidade forte nos momentos em que elas são contrariadas, quando seus interesses são frustrados ou quando não estão no centro das atenções. "Em um primeiro momento, deve-se definir o que é aceitável, em segundo, faz-se necessário assumir uma postura de defesa de seus direitos e dizer 'não' ou 'basta'. Por último, o enfrentamento desse tipo de situação vem na sequência e de forma inevitável: renegociar uma dinâmica de poder que não permita a ascensão de uma tirania afetiva", orienta.

Mas é importante saber que a gente não muda o outro, diz Scappaticci. "A gente não tem esse controle, de mudar uma personalidade que é explosiva. Podemos melhorar o ambiente, convocar menos essa explosão. Se ela é explosiva, ela vai continuar sendo, o outro só muda se ele quiser. Então tem que ver se ele quer procurar ajuda".

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