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"Você já me disse isso": contar sempre a mesma história é sinal de doença?

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Imagem: iStock

Marcelo Testoni

Colaboração para o VivaBem

20/01/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Há vários motivos que envolvem a repetição de uma mesma história
  • Pode ser que a pessoa tenha muita dificuldade de escuta, ocupando todos os espaços com as próprias falas e histórias
  • Causa também pode ser uma doença, como TDAH (transtorno do déficit de atenção com hiperatividade) ou até mesmo TOC (transtorno obsessivo-compulsivo)

Você conhece alguém repetitivo? É aquela pessoa que sempre diz e pergunta as mesmas coisas, e isso às vezes após um intervalo de poucos dias ou até durante a própria conversa. Se você estiver em "dívida" com essa pessoa, é até compreensível a insistência para reforçar a pendência. Porém, se não forem casos típicos de "mãe, já vou lavar a louça, não precisa me cobrar", existem outras inúmeras hipóteses.

Há pessoas que repetem as mesmas narrativas porque não se sentem ouvidas ou não foram mesmo ouvidas. Há também outras que entendem que precisam repetir o que dizem porque acham que não foram suficientemente claras ou porque possuem pouco repertório e acabam valorizando determinados assuntos que julgam serem relevantes. "Ou porque essas pessoas têm muita dificuldade de escuta, aí ocupam todos os espaços com as próprias falas e histórias", diz Carla Guth, psicóloga especializada em neuropsicologia pela FCMSC-SP (Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo).

Quem fala bastante e com diversas pessoas e faz muita alusão ao passado também pode acabar repetindo as mesmas histórias várias vezes, sem se dar conta, porque nem se lembra mais para quem já as contou, acrescenta a psicóloga. Mas há causas mais sérias.

Insistir no mesmo assunto também pode estar relacionado a problemas, como TDAH (transtorno do déficit de atenção com hiperatividade), insegurança constante (o assunto não sai da cabeça), personalidade obsessiva (a pessoa é repetitiva por querer corrigir os outros, que considera estarem errados) ou até mesmo TOC (transtorno obsessivo-compulsivo), que quando não é tratado pode levar à depressão, a vícios e tiques.

"Afetado afetivamente ou cognitivamente, o indivíduo também não retém na memória que já falou sobre um assunto e então o repete. Pode ter a ver com uma perda cognitiva temporária, como um transtorno depressivo ou ansioso, ou definitiva, relacionada a alguma lesão cerebral, tumor, trauma, AVC, quadros demenciais ou doenças como Parkinson e Síndrome de Tourette", explica Luiz Scocca, psiquiatra pelo HC-FMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) e membro da APA (Associação Americana de Psiquiatria).

Nos idosos é mais recorrente

Embora "bater na mesma tecla" seja um fenômeno observado em várias idades e por vários motivos —em crianças também, principalmente quando estão aprendendo a falar e por isso repetem sons —, é na terceira idade que a repetição costuma ser prevalente. Mas não somente em idosos com idade avançada: os que estão na faixa dos 60 anos também estão suscetíveis.

"Quando um idoso fica mais repetitivo, pode indicar desatenção, que com o envelhecimento aumenta no sentido da atenção dividida, ou seja, a pessoa já não consegue realizar tão bem duas coisas ao mesmo tempo", diz Natan Chehter, geriatra pela SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia) e da BP - A Beneficência Portuguesa, de São Paulo.

Mas também há presença de doenças nessa faixa etária que estão relacionadas à repetição. São desde as do espectro da depressão e da ansiedade até síndromes demenciais, como Alzheimer e outros tipos que podem começar dessa forma.

O geriatra complementa que não é tão comum o Alzheimer se manifestar como desatenção, mas que essa alteração e, consequentemente, as repetições podem se relacionar com a doença, pois acompanham os sintomas observados nela, como ansiedade e depressão. Mas há outros sinais para ficar de olho. Além da desatenção e das falas e perguntas repetitivas, é preciso observar se a pessoa esquece fatos importantes, apresenta dificuldades para se relacionar com ambientes e pessoas e tem desaprendido coisas e esquecido objetos pela casa.

Como lidar com um falante repetitivo?

A resposta vai depender do que está por trás do comportamento dele. Se for algum problema de saúde ou uma questão que tem comprometido seus relacionamentos e repercutido em dificuldades rotineiras, é preciso antes investigar a causa para tratá-la com acompanhamento de psicólogo, psiquiatra e, em se tratando dos idosos, geriatra. Somente esses profissionais estão aptos para fazer um diagnóstico do que está restringindo o universo da comunicação.

"Havendo prejuízo, tem que passar por uma avaliação médica, exames de laboratório e, eventualmente, de imagem. Não pode passar desapercebido", informa Chehter. Segundo ele, é muito comum a tolerância da família e amigos em ouvir as mesmas histórias, porém é importante que ajudem a identificar o que está havendo e orientem o outro a buscar ajuda.

"E que tenham paciência e não briguem, porque a pessoa não percebe. Nos idosos, tentamos diferenciar doenças degenerativas, como Alzheimer de outras demências, como a vascular, causada por vários pequenos infartos por todo o cérebro ou em uma região específica que altera a memória, a dos corpos de Lewy e as reversíveis, de causas tumorais e metabólicas, em que há alterações nos níveis de sódio, cálcio, vitamina B12, glicose", esclarece Scocca.

Ainda se faz necessário rever hábitos para melhorar a qualidade de vida, o que inclui exercitar o físico e a mente, dormir bem, manter uma dieta saudável e deixar de lado álcool, cigarro e drogas.

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