PUBLICIDADE

Topo

Equilíbrio

Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


Equilíbrio

O que motiva as pessoas a traírem? É possível perdoar "pulada de cerca"?

Getty Images/Vetta
Imagem: Getty Images/Vetta

Priscila Carvalho

Colaboração para o VivaBem

18/01/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Pessoas podem trair por estarem em um relacionamento falido e até por outras questões, como alguém que o extorquiu, gerou prejuízos financeiros
  • A traição pode ocorrer em diversos relacionamentos, entre pais e filhos, amigos e até no trabalho
  • No quesito amoroso, a traição pode estar ligada a questões de gênero e machismo

"O que os olhos não veem, o coração não sente". Essa é uma das frases mais antigas ditas por pessoas que já traíram ou foram traídas. Mas apesar de comum, ela pode despertar dor, sofrimento e decepção.

Antes de investigar o que está por trás do ato em si, é preciso definir o que de fato é a traição. Vanessa Karam, psicóloga da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo, diz que, para considerar que alguém traiu, deve-se ocorrer uma mudança muito grande de comportamento no outro e gerar um impacto emocional em quem foi traído. Segundo ela, a traição pode ocorrer em diversos relacionamentos, como entre pais e filhos, amigos e até no trabalho. Porém, é mais comum associarmos a casos extraconjugais.

Há quem diga ainda que a palavra não deveria estar relacionada à infidelidade. Para Regina Navarro, psicanalista e escritora, a traição não tem nada a ver com sexualidade. "Todas as pessoas recebem estímulos e têm vontade de se relacionar com outras ao longo da vida. A monogamia é um imperativo".

A especialista reforça ainda que o termo é muito mais amplo do que limitar a vida sexual fora do casamento. "É uma palavra totalmente inadequada. Traição deveria ser considerada alguém que te extorquiu, gerou prejuízos financeiros ou outros."

Por que as pessoas traem?

De acordo com uma pesquisa publicada no periódico Evolution and Human Behavior e feita por pesquisadores da Universidade de Queensland, na Austrália, a infidelidade pode ter relação até com variações genéticas.

Os cientistas descobriram que essas alterações agem nos genes que produzem a vasopressina, um hormônio que atua na regulação do comportamento social como empatia, confiança e vínculo sexual. Feito com sete mil pessoas, o estudo mostrou que 63% das variações comportamentais consideradas promíscuas nos homens puderam ser atribuídas aos genes. Já nas mulheres, esse número chegou a 40%.

Karam reforça ainda que as pessoas podem trair por estarem em um relacionamento falido e até por outras questões. Se você somente pensar em alguém que não é seu companheiro e considerar isso traição, a psicóloga alerta que essa opinião deveria ser revista. "É normal se sentir atraído por outras pessoas. Tem libido e hormônios envolvidos. O que difere é o ato em si. Uma coisa é você pensar, outra coisa é você ir de fato fazer aquilo", ressalta.

O que deve ser levado em consideração nesses casos é quão recorrente são esses pensamentos e por que isso está acontecendo. "Talvez o sentimento tenha acabado mesmo e o relacionamento não é mais saudável."

Para Navarro, trair não tem nada a ver com mau-caratismo e está mais ligada a questões de gênero e machismo. "Exclusividade sexual nunca foi cobrada do homem", afirma. Um estudo publicado em 2016 pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), em parceria com a Pfizer, mostrou que os homens traem mais do que as mulheres.

mulher traição celular - iStock - iStock
Imagem: iStock

Os pesquisadores ouviram três mil brasileiros e os resultados mostraram que 50,5% dos homens admitiram que já "pularam a cerca" ao longo dos relacionamentos. Já para sexo feminino, o número foi de 30,2%.

Tema deve ser discutido entre o casal

Falar abertamente sobre traição ainda é tabu entre os próprios casais, segundo as especialistas. Por isso é fundamental discutir para tentar enxergar até que ponto vai o limite do outro. "É preciso alinhar as expectativas em relação ao namoro ou casamento. Às vezes para uma pessoa funciona a monogamia. Já para a outra, não", reforça a psicóloga da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo.

Porém, para Navarro, o tema deveria ser levado de maneira mais leve e sem obrigações. "As pessoas são obcecadas pela traição. Ninguém controla ninguém. É uma ilusão. Ninguém deveria se preocupar se o amado ou a amada se relaciona com outro", afirma a psicanalista.

Como perdoar uma traição?

Se a pessoa se sentiu ou foi traída, perdoar ou não é uma decisão muito individual. O fundamental é reconhecer o que houve e organizar os sentimentos. Karam reforça que perguntas como "qual a minha meta nesse relacionamento?", "como validar o que estou sentindo?" e "tenho que me vingar?" ajudam a entender e melhorar os efeitos depois de descobrir uma traição.

Se optar por seguir na relação, é fundamental não projetar, elaborar pensamentos fantasiosos e achar que o parceiro (a) está traindo novamente. Essas ações só pioram e desgastam a convivência.

Já se a decisão for pelo término, o melhor é seguir em frente e ver o quanto aquela traição o prejudicou e tentar não levar as frustrações para os próximos relacionamentos. "Pode gerar muitos traumas e até mexer com autoestima. Por isso é fundamental procurar ajuda, caso sinta-se fragilizado", diz.

Tente se abrir com pessoas próximas a você e que, de preferência, não o julgue. Além disso, se os efeitos estiverem muito nocivos, o ideal é fazer um acompanhamento com um psicoterapeuta.

Equilíbrio