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Sintomas, prevenção e tratamentos para uma vida melhor


Lesão por água-viva é envenenamento: conheça mitos e verdades por trás

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Alexandre Raith

Colaboração para VivaBem

04/01/2021 04h00

Com a chegada do verão e das férias, as praias do litoral brasileiro ficam lotadas e, por isso, aumentam os casos de lesão por água-viva —ou caravelas, aí vai depender da região do país— e as possibilidades de ser ferido enquanto caminha pela areia ou se banha no mar. E, apesar da pandemia de coronavírus, esta temporada não deve ser diferente.

Primeiramente, vale esclarecer que o ferimento causado por água-viva não é uma queimadura, e sim um envenenamento da pele provocado pelas toxinas liberadas pelos tentáculos do animal marinho.

Após a água-viva injetar as toxinas, é comum o local ficar avermelhado ou escurecido, inchado e com edema, com surgimento de placas tipo urticária e pápulas (bolinhas) vermelhas. Além disso, a pessoa ferida sente dor intensa e ardência. Em alguns casos raros, podem surgir bolhas. Tais efeitos são uma reação tóxica e alérgica ao veneno que age na pele.

Já os sintomas mais graves são dificuldade para respirar e engolir, dor no peito, cefaleia, câimbra, náusea e vômito. Ou até arritmia, edema de glote e choque anafilático.

As manifestações clínicas podem ser graves em crianças e idosos, que costumam apresentar maior sensibilidade aos efeitos tóxicos da água-viva e, portanto, ter reação inflamatória intensa. Além disso, a pele das pessoas dessas faixas etárias costuma ser mais fina e, por isso, absorve rapidamente o veneno liberado pelo animal marinho.

"Idosos, pela queda natural de imunidade, por ocasionais problemas como hipertensão arterial, diabetes e outras doenças. Já as crianças têm o mesmo problema de resistência, que é imatura e, principalmente, a pequena área corporal, que as expõe a contatos maciços com inoculação de grandes quantidades de veneno", explica Vidal Haddad, dermatologista da SBD (Sociedade Brasileira de Dermatologia).

Condições de risco

Caravela portuguesa no litoral de São Paulo - Rodrigo Nattan Guimarães /UOL - Rodrigo Nattan Guimarães /UOL
Caravela portuguesa no litoral de São Paulo
Imagem: Rodrigo Nattan Guimarães /UOL

A gravidade da lesão depende de diversos fatores: quantidade de veneno liberada, número de águas-vivas que encostaram na pele, espécie envolvida no ataque, além da idade e hipersensibilidade do sistema imunitário da pessoa ferida. Este último definirá a intensidade da reação alérgica.

"Além da ação do veneno, tenho visto muitos casos de alergia, nunca no primeiro acidente. Pode haver espirros, tosse, pulmões congestos e até choque anafilático. Hoje em dia, estamos considerando o risco de alergia como grande, lembrando picadas de abelha. No Brasil, onde mais de 99% dos envenenamentos são leves e moderados, este risco adicional deve ser considerado", afirma Haddad.

Ele adiciona que outro efeito da lesão por água-viva é a intoxicação dos músculos, que causa uma dor semelhante a câimbras, e que envenenamentos graves (raros no Brasil) podem comprometer o coração e causar a morte.

Em caso de efeitos graves —dor, vermelhidão e inchaço muito intensos, dificuldade de respirar e engolir ou progressão do quadro sem melhora espontânea—, Leonardo Abrúcio, dermatologista da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo, sugere que a pessoa lesionada procure socorro médico.

"Se apresentar febre, é melhor ingerir maior quantidade de líquido. Fora isso, nenhuma modificação importante na alimentação. Se a reação à lesão for muito intensa na pele e com processo inflamatório severo, em caso de ser alérgico a frutos do mar, por exemplo, deve-se evitar o alimento", completa. No entanto, não há comprovação científica, na condução de casos leves, relacionada à necessidade de restrição alimentar.

Já Rosiane Boabaid, dermatologista do HCor, recomenda que a pessoa lesionada procure atendimento médico quando existem áreas extensas acometidas pelos ferimentos e as lesões persistirem por mais de 48 horas, considerando o período de fase alérgica da toxina na pele.

Fui envenenado. O que fazer?

Os cuidados imediatos depois de uma lesão por água-viva são importantes para evitar um maior estímulo do processo inflamatório. A recomendação é lavar a região afetada com água salgada e, sobretudo, gelada, pois a temperatura controla a dor.

Além disso, após os cuidados iniciais, deve-se manter a região ferida por água-viva limpa e longe do sol, pois a radiação estimula uma inflamação mais intensa no local lesionado. A proteção solar também evita o aparecimento de manchas residuais, e deve ser aplicada a cada duas horas.

Já nos dias seguintes ao envenenamento, a indicação é fazer compressas com vinagre, soro fisiológico ou água termal, sempre na temperatura gelada, para aliviar o ardor e os sintomas.

Dependendo da intensidade do processo inflamatório, será prescrito analgésico, corticoide ou antibiótico. Para isso, o tratamento das manifestações na pele decorrentes do acidente por água-viva deve ser orientado por um dermatologista.

Aprenda a cuidar da lesão

Os especialistas ouvidos por VivaBem prepararam uma lista para desvendar os mitos e as verdades relacionadas aos procedimentos que devem ser tomados após uma lesão por água-viva.

O recomendável é apertar a pele com a unha para retirar os tentáculos? Álcool desinfeta a região envenenada? Urina bloqueia o efeito da toxina? Devo esfregar com sabonete para retirar o veneno? Tire as suas dúvidas com as orientações abaixo.

  • Mitos

Limão - iStock - iStock
Nem pense em usar limão no local da lesão
Imagem: iStock

Lavar com água doce: piora o envenenamento por estimular a liberação das toxinas dos tentáculos da água-viva

Urinar no local lesionado: tem ação irritante e agrava os sintomas de irritação e inchaço na pele

Limpar com sabonete: promove a saída do veneno que pode estar retido nas células dos tentáculos

Usar limão: aumenta a irritação local e provoca mais inchaço e vermelhidão

Desinfetar com álcool: é um agente irritante que piora a dor

Higienizar com água quente ou morna: amplia a vermelhidão e o inchaço

Esfregar para tirar o veneno: irrita ainda mais o local lesionado por aumentar a vasodilatação

Apertar a pele com a unha para retirar os tentáculos da pele: impulsiona a liberação das toxinas

Tomar sol à vontade após a lesão: prejudicial porque o local está inflamado e dolorido

  • Verdades

    Vinagre de maçã - iStock - iStock
    Já usar vinagre no local afetado pode ser uma boa pedida por causa do ácido acético
    Imagem: iStock

Lavar com água do mar gelada: tem efeito anestésico

Limpar com soro fisiológico gelado: ajuda a aliviar a dor

Remover os tentáculos com pinça: delicadamente, sem apertar a pele

Banhar com vinagre: o ácido acético neutraliza a ação das toxinas e tem efeito calmante

Fazer compressa com água gelada: depois de remover o veneno, para atenuar o efeito dolorido

Passar protetor solar na região lesionada: após limpeza, a fim de evitar que a radiação intensifique o processo inflamatório

Evitar o uso de perfumes: pode irritar ainda mais a pele