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"Odeio Réveillon", diz sobrevivente de Bateau Mouche; veja efeito de trauma

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

André Aram

Colaboração para o VivaBem

31/12/2020 04h00

A noite de chuva fina e mar agitado do dia 31 de dezembro de 1988 dificilmente será esquecida por muitos brasileiros, principalmente para Renata Fiszman, 50, uma das sobreviventes do trágico naufrágio do Bateau Mouche. O passeio de barco para ver a queima de fogos na praia de Copacabana incluía ceia e música ao vivo, com saída prevista às 21h do restaurante Sol & Mar, na enseada de Botafogo. O total de pessoas embarcadas naquela noite ainda é uma incógnita, mas estima-se 142, pois não havia uma lista de passageiros, mas estava muito além de sua capacidade, de apenas 62 pessoas.

Fiszman tinha 18 anos na época, estava acompanhada do namorado, dos pais, irmão, irmã e cunhado. "Nós chegamos no Sol & Mar e ficamos na fila. Veio o Bateau Mouche III, podíamos ter ido nele, mas achamos mal conservado, então meu pai disse para irmos no próximo, que seria o IV. Fomos os primeiros a entrar na embarcação", disse.

Ela lembra que começou a chuviscar e seu pai queria ficar na parte de baixo, que era como um aquário envidraçado com sofás e mesas fixas, e onde o buffet seria servido. Mas sua irmã insistiu para irem para a parte de cima (deque), para ver melhor os fogos. Os pais acompanharam a contra gosto, sem suspeitar que aquela decisão seria crucial para a sobrevivência da família.

Fiszman lembra que durante o trajeto o barco foi interceptado pela Marinha duas a três vezes: "Sabíamos que havia algo, mas não notamos porque estávamos na festa, com música, comendo e conversando".

Quando a embarcação saiu da Baía de Guanabara e começou a entrar em mar aberto, o barco começou a balançar bastante, dando saltos no ar: "Eu e as pessoas a minha volta começamos a ficar com medo. Muitos haviam bebido bastante, mas muita gente estava assustada, achando que estava balançando demais, e aí ele começou a adernar. Copos e bebidas estavam caindo sobre nós na mesa. As ondas aumentaram, o barco estava torto, mesas e cadeiras que eram soltas escorregavam para um lado. A gente já não tinha mais equilíbrio, a banda parou de tocar".

Naquele momento, ela ouviu alguém dizer para darem as mãos, fazendo assim uma corrente humana para manter o equilíbrio. Ninguém sabia como estava na parte de baixo (salão principal), mas era nítida para quem estava no convés superior a sensação que o barco estava tombando.

24.jan.1989 -  Técnicos trabalham na perícia do barco Bateau Mouche, retirado do mar após ter naufragado no réveillon de 1988 - ARQUIVO/ESTADÃO CONTEÚDO/ - ARQUIVO/ESTADÃO CONTEÚDO/
24.jan.1989 - Técnicos trabalham na perícia do barco Bateau Mouche, retirado do mar após ter naufragado no réveillon de 1988
Imagem: ARQUIVO/ESTADÃO CONTEÚDO/

"Pula na água, pula que vai virar"

O namorado (hoje marido) de Fiszman era militar na época e tinha noções de sobrevivência e salvamento. Foi ele que previu a tragédia momentos antes de ela acontecer, no trecho entre a Ilha de Cotunduba e o Morro da Urca, em frente a Praia Vermelha: "Ele gritou pra mim: 'Pula na água, pula que vai virar'. Eu estava de mãos dadas com os meus pais, mas meu instinto de sobrevivência me fez pular. Acredito que eu tenha sido a primeira a saltar no mar. Mergulhei e, quando voltei à tona, o barco já tinha virado. Devia ser 10 minutos para meia-noite. As mesas e cadeiras estavam boiando, estava escuro, bateu o desespero e fiquei procurando a minha mãe, porque lembrei que ela não sabia nadar".

A família também havia pulado no mar. A irmã segurou a mãe e o irmão, o pai. Desesperada, Fiszman procurava incansavelmente a mãe, mas quando já estava exausta, foi em direção ao marido, que gritava seu nome. "Como o barco ficou de cabeça para baixo, ele tinha subido no casco. Então me puxou e a gente sentou. Eu estava muito cansada, nesse momento começou a queima de fogos em Copacabana".

O cunhado dela também estava sobre o casco, pedia para os outros barcos pararem, mas o ruído dos fogos abafou os pedidos de socorro. Sem vê-las, várias embarcações passaram por cima das pessoas, não havia iluminação. Fiszman lembra dos momentos de pânico quando o casco começou a afundar: "A gente sentiu a água nos pés, naquele instante meu marido disse para eu nadar para longe, ou seríamos sugados pelo vácuo do casco, que ia sumindo na água. Felizmente o iate Casablanca estava passando naquele instante e eles nos viram".

Fiszman e algumas pessoas foram resgatadas pelo iate, incluindo um menino de aproximadamente 11 anos de idade, que acabou não resistindo. Exausta, ela desmaiou no interior do barco, acordando minutos depois com as pessoas fazendo massagem cardíaca na criança. Em estado de choque e tremendo de frio, ela ouviu o barulho do motor do iate partindo do local. Ela mencionou que a família ainda estava no mar e escutou alguém dizer que tinha que salvar quem estava no barco, porque quem estava no mar já havia morrido. Ela não fazia ideia que a sua família havia sido salva por uma traineira de pescadores, enquanto o Casablanca se dirigia para o Iate Clube. Horas depois, a família se reencontrou —estavam todos salvos. Cinquenta e cinco pessoas morreram no naufrágio.

Traumas de uma tragédia

Atualmente vivendo em Portugal, Fiszman se formou em psicologia, sendo especialista em traumas diversos (abusos, acidentes, luto). Ela tem duas filhas com o marido que a salvou na época da tragédia —eles se casaram dois anos depois. Questionada como se sente com a proximidade do Ano-Novo, ela é categórica: "Eu odeio Réveillon desde então, todo mundo que me conhece, sabe. Não gosto e não vou a festas, não gosto de aglomeração, não gosto de tumulto nesta data, para mim acabou desde 1988. Para mim o Réveillon é uma data triste, é um dia que eu não fico bem, não é uma energia que eu goste".

Fiszman se recorda nitidamente como estava física e emocionalmente após ter reencontrado sua família: "Quando eu vi meus irmãos, estava completamente em estado de choque. Perguntava se alguém havia morrido, mesmo tendo sido levada para a enfermaria do Iate Clube, onde os corpos chegavam a todo momento. Eu tinha visto muita gente morta e ainda assim perguntava se alguém morreu".

No primeiro dia do ano de 1989, Renata teve que ir ao hospital passar por um check-up e tomar injeção antitetânica. "Eu fiquei uns 15 dias sem saber quem eu era, meus amigos iam me visitar e eu não os reconhecia, estava desorientada mesmo, foi muito traumático. Eu não pensava 'que bom, graças a Deus estou viva, todo mundo sobreviveu'. Eu estava em choque".

Olavo Sant'Anna Filho, psicólogo clínico com 36 anos de experiência de atuação em emergências e desastres e consultor da Cruz Vermelha, diz que, no caso do Bateau Mouche, foi um desastre de origem humana causado pelo ser humano, mas há outros tipos de traumas associados a eventos naturais ou sociais, como terremotos, inundações, acidentes, abusos físicos e sexuais, guerras e genocídios.

Renata Fiszman - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Renata Fiszman tinha 18 anos na época do naufrágio
Imagem: Arquivo pessoal

Para ele, todos esses eventos relatados por Fiszman causam angústia e rupturas insuportáveis ao indivíduo, justamente por ser algo inesperado. "Nosso cérebro não está preparado para eventos desse tipo, essa é uma experiência que felizmente não é uma rotina na nossa vida".

O primeiro efeito que uma pessoa submetida a um desastre sofre seria cognitivo. Ela pode ter confusão mental, desorientação temporal, dificuldade de concentração e tomada de decisão, dificuldade de expressar pensamentos, pesadelos e preocupações exageradas. Os próximos efeitos são os emocionais: ansiedade, pânico, apreensão, raiva, culpa, tristeza, sentir-se desamparado, sentir desesperança, desespero, negar tudo o que ocorreu.

Por fim, há os efeitos físicos: a pessoa submetida a um trauma, dependendo da intensidade, pode fazer abuso de álcool e outras drogas, podem ter alterações cardiovasculares, fadiga, fraqueza, insônia, alteração do apetite e problemas de saúde. "Esses problemas de saúde em geral são as somatizações", diz ele.

Transtorno do estresse pós-traumático

A dificuldade de recuperação após a vivência ou testemunho de um acontecimento assustador pode gerar o TEPT (transtorno do estresse pós-traumático). Segundo Sant'Anna, ele acontece de três a seis meses após o evento (trauma) e ocorre em pessoas que não tiveram um manejo precoce, isto é, que não foram atendidas precocemente.

"O TEPT não necessariamente ocorre em todas as pessoas, sendo caracterizado pelo surgimento de sintomas específicos após a exposição a um evento traumático, como falar constantemente sobre isso ou se esquivar de estímulos que relembrem o evento traumático", diz. Quem passa por algo do tipo também pode sofrer um distanciamento afetivo ou uma hiperestimulação automática, ou seja, ela constantemente vivencia o trauma.

O TEPT pode durar um mês ou a vida toda, dependendo de como foi vivenciado pela pessoa. Mas no geral é possível superar traumas do passado, segundo o psicólogo. "Um profissional que estude o comportamento humano em tragédias pode propor técnicas que auxiliem a pessoa a superar o trauma, como uma forma de terapia chamada EMDR (dessensibilização e reprocessamento por meio dos movimentos oculares), ou o psicodrama".

Durante sete anos, Fiszman fez terapia e também EMDR, mas relata que às vezes ainda se depara com os traumas daquele fatídico Ano-Novo de 1988: "Posso dizer que nesses mais de 30 anos ainda esbarro em momentos do trauma do naufrágio nas análises. Sempre fica uma marca na gente. O cérebro registrou essa tragédia. Foi uma experiência muito forte, eu podia ter morrido ou perdido toda a minha família, e isso é devastador para a nossa experiência humana".

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