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Infarto, queimadura e surdez: entenda os perigos dos fogos de artifício

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Imagem: iStock

Marcelo Testoni

Colaboração para VivaBem

28/12/2020 04h00

Em meio à pandemia de covid-19, vários países e cidades brasileiras suspenderam a queima de fogos de artifício no Réveillon. A tradição é um chamariz para que as pessoas saiam de casa para festejar e se aglomerem. Mas mesmo soltar rojões quando não se vive uma calamidade dessa é perigoso, além de ser uma prática sujeita a denúncias e punições legais.

"Há estudos que mostram que lesões cerebrais por hemorragia intracraniana, faciais e nas mãos costumam ser desproporcionalmente mais frequentes nos casos de queimaduras com morteiros", afirma Maira de Magalhães Mariano Astur, especialista em dermatologia pela SBD (Sociedade Brasileira de Dermatologia).

"A maior proporção de ferimentos em olhos e mãos que resulta em deficiência permanente advém do grupo de projéteis, morteiros, seguido por fogos caseiros. 70% dos pacientes com lesões oculares apresentaram perda permanente parcial ou total da visão. 37% dos com lesões nas mãos necessitaram de, pelo menos, uma amputação parcial ou total de dedo", acrescenta.

Combinação grave e dolorosa

A dermatologista explica que acidentes com fogos de artifício são frequentemente uma "combinação de queimaduras térmicas, perdas e lacerações de tecidos moles, luxações e lesões, que podem ser ósseas, de tendões e nervos, e fraturas".

Já a gravidade vai depender da profundidade, extensão e área afetada e o acidente geralmente ocorre de três maneiras:

Quando roupas pegam fogo: situação muito observada em crianças que brincam com fogos tipo faísca e que resulta em grandes queimaduras de espessura total.

Grandes chamas e explosões: mais comum de acometer adultos, principalmente sem habilidade para manusear fogos ou que trabalham com sua fabricação.

Calor: o dos fogos é intenso e causa queimaduras localizadas, sobretudo nas mãos.

A recuperação também é lenta e difícil, principalmente para as mãos. "Quanto mais tecidos são lesionados, maior é a formação de fibrose durante a cicatrização e consequentemente a limitação dos movimentos. Outro ponto importante é a sensibilidade nos dedos e nas palmas das mãos. Com a lesão da pele e dos nervos, pode não se recuperar satisfatoriamente", explica Fernando Penteado, ortopedista do Hospital Israelita Albert Einstein e do Instituto Cohen.

Acidentes com fogos são urgências. É preciso procurar imediatamente atendimento médico ou acionar o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) pelo 192. Não se deve remover tecidos grudados da pele e nem aplicar produto algum sobre ela. No máximo, lavar o local atingido com água corrente em temperatura ambiente ou soro para resfriar o queimado.

"Se houver mutilação ou fratura exposta de membro, enrole-o com um pano limpo e não tente fazer torniquete ou algo assim. Nossa recomendação é isolar a área e correr para o hospital", orienta Ricardo Kitamura, médico dermatologista e professor do Grupo Afya Educacional.

Barulho pode fazer mal ao coração

Explosões também podem matar por susto. Foi o que aconteceu em 2015 com uma menina de 8 anos de Alpinópolis (MG), que teve uma parada cardiorrespiratória e morreu.

Estão suscetíveis principalmente cardiopatas, que são pessoas com arritmias, obstrução nas artérias, insuficiência cardíaca e hipertensão arterial, ou pretensos cardiopatas não identificados, sujeitos predisponentes para ter doenças coronárias e com diabetes, colesterol alto, obesidade, sedentarismo e tabagismo.

"Um grande susto pode potencializar, ou até mesmo desencadear uma descompensação da condição preexistente. Se a pessoa tem uma obstrução nas artérias, tem uma placa de gordura, essa placa pode romper, gerando a formação de um coágulo e o infarto", informa Marcelo Sampaio, cardiologista da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo.

"Já em quem tem arritmias, o susto pode gerar, pela liberação da adrenalina, uma arritmia muito mais complexa, a fibrilação ventricular [alteração do ritmo cardíaco] e matar", diz.

Num susto com explosões fora de controle, devido a manifestações fisiológicas e metabólicas, com liberação de hormônios como cortisol e principalmente adrenalina, pode se apresentar ainda palidez e frieza da pele, dilatação das pupilas, aumento da pressão arterial e desmaios.

"Há também os traumas acústicos, que independem de idade e gênero, e que na maioria das vezes são irreversíveis. E em quem tem predisposição para ter danos no nervo auditivo, um mesmo ruído intenso pode provocar diferentes tipos de lesões neurais", alerta Cicero Matsuyama, otorrinolaringologista do Hospital Cema, em São Paulo.

Fumaça é tóxica e sufocante

Os médicos relatam que estando em uma área de grande soltura de fogos, ter reações alérgicas à queima dos compostos presentes neles também é possível. O contato com fumaça e fuligens, por exemplo, pode irritar olhos, mucosas respiratórias e desencadear sensação de tontura, porque ocorre alteração da vasodilatação e a pressão sanguínea cai.

Devido à combustão da pólvora, a pessoa também fica propensa a ter alucinações e dor de cabeça.

"Sofrem principalmente portadores de rinites alérgicas e asma, que podem ter processos inflamatórios leves, ou até mais graves, como fechamento da laringe com edema glótico [das pregas vocais] e crise intensa de broncoespasmos nos asmáticos", alerta Matsuyama.

Espasmos nos brônquios impedem a passagem do ar até os pulmões. Se estiver com covid-19 no início e com possibilidade de comprometimento pulmonar, a fumaça pode acelerar e agravar o quadro, ou ainda outras doenças respiratórias.

Com falta de ar, mesmo não tendo sido infectada pelo novo coronavírus, a pessoa então corre para o hospital e contribui para a sua lotação. Por isso é importante prevenir casos assim para diminuir demandas nas urgências.

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