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"Comer transtornado": quando comportamento relacionado à comida faz mal

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Roseane Santos

Colaboração para o VivaBem

05/12/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Apesar de não classificado como um transtorno mental, o "comer transtornado" pode ser um sinal de alerta
  • Ele gera culpa e faz com que a pessoa tenha atitudes compensatórias para atingir o corpo perfeito
  • O tratamento para o "comer transtornado" é muito parecido com o do transtorno alimentar e podem ser necessárias consultas com psicólogo

A empresária Thaiz Barde, 32, sempre teve problemas para controlar o peso. Considerada "gordinha" quando criança, ela lembra de ter cometido algo perigoso à saúde com o objetivo de emagrecer na adolescência. "Eu queria entrar em um vestido para ir ao aniversário de 15 anos da minha amiga e passei a semana inteira tomando laxante. Quando vi que não tinha atingido o peso que queria, tomei uma dose maior e parei no hospital".

Esse tipo de atitude é mais comum do que se imagina, principalmente entre as mulheres que sempre foram cobradas para exibir um padrão de beleza. A psicóloga Graziela Dassoler, do Programa de Transtornos Alimentares do IPq-HCFMUSP (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), explica que existem alguns comportamentos alimentares que podem até não representar um padrão habitual, mas se eles não estão associados a nada negativo, tudo bem. Só que quando esse tipo de atitude começa a causar sofrimento, o alerta deve ser ligado.

Barde revela que depois desse episódio do laxante, tiveram vários outros, sempre voltados para algum evento ou por culpa de ter comido a mais. "Eram dietas restritivas de três dias para ir à praia ou quando ia a um rodízio. Também colocava o dedo na garganta e vomitava", recorda. Dassoler diz que o sentimento de culpa que faz alguém se punir ou realizar algo compensatório frequentemente depois de ingerir alimentos faz parte do chamado "comer transtornado".

Mesmo sem estar incluído DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), esse desequilíbrio também causa danos físicos e emocionais. "Quando falamos em 'comer transtornado', já fazemos uma relação negativa da pessoa com a alimentação. Existe uma culpa na hora ou depois de comer ou um arrependimento. Isso gera uma série de atitudes inadequadas, como ficar se alimentando só de líquido no dia seguinte a uma festa", explica Dassoler.

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O excesso de atenção para o próprio peso é sinal de que há algo de errado
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Ideia fixa no peso

De acordo com o psiquiatra Guilherme Messas, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, o "comer transtornado" já é o primeiro passo para transtornos alimentares (os mais conhecidos são bulimia, anorexia e compulsão). "Ele pode facilmente se tornar um transtorno, caso tome tal proporção na vida da pessoa que se transforme em uma ideia fixa, ou no caso em que a pessoa, por causa dele, se coloque em risco físico, como provocando vômitos com frequência".

Ele coloca também como exemplo o excesso de atenção para o próprio peso, como no caso de pessoas que ingerem uma maçã e vão se pesar ou usam fita métrica para ver se o diâmetro dos membros ou da barriga mudou. "A culpa extrema depois de qualquer refeição, a ponto de não mais conseguir ter prazer com a alimentação ou ter a necessidade de aumentar o gasto energético, fazendo exercícios físicos de modo ilimitado, já é um sinal vermelho e é necessário ter uma avaliação clínica", diz o psiquiatra.

Sem proibições

Barde recorreu à cirurgia bariátrica para ter uma vida mais saudável. Ela perdeu 42 quilos e resolveu abrir uma loja de alimentos naturais também com a tentativa de regular mais a sua alimentação. "Hoje eu como de tudo, até chocolate e fritura, mas de forma balanceada. Sei que posso voltar a ganhar peso, mesmo depois da operação e não quero que isso aconteça", diz.

A nutricionista Clarissa Tamie Hiwatashi Fujiwara, coordenadora de nutrição da Liga de Obesidade Infantil do HCFMUSP, considera que uma dieta restritiva, quase sempre praticada por quem tem o "comer transtornado", pode ser um dos gatilhos para quem tem uma predisposição genética para ter um transtorno alimentar. "É importante entender que esse comportamento traz muito sofrimento. Ele tem crenças distorcidas relacionadas a ter que comer sem prazer".

Fujiwara diz que é um desafio mostrar para quem tem esse problema que a comida não precisa ser "sem graça" para ser saudável. "A reeducação alimentar só vai ter proibições caso tenha indicações clínicas, como restrição do açúcar para os diabéticos. Só que podemos substituir por outros elementos que trarão prazer ao comer. A alimentação não pode ser vista como um castigo".

O tratamento para o "comer transtornado" é muito parecido com o do transtorno alimentar. A pessoa precisa voltar a normalizar a alimentação, nada pode ser proibido, deve evitar produtos voltados ao emagrecimento e ter horários rígidos. É indicada também a ida a um nutricionista, que irá adequar o cardápio de forma balanceada e saudável.

Com o auxílio de um psicólogo —e em alguns casos também de um psiquiatra —, a pessoa poderá identificar melhor os sinais de fome e saciedade, além dos fatores emocionais que a levam a comer (por tédio, ansiedade, alegria).

"Esse problema já é quase um transtorno alimentar, por isso ele precisa de muita atenção, para não se transformar numa patologia. Em muitas pessoas, faz sentido que se usem medicações para reduzir a intensidade do apetite ou aumentar a rapidez da saciedade. Os medicamentos a ser escolhidos dependem de cada caso clínico", diz Messas.

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