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Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


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À procura do grande amor da vida? Talvez seja seu amigo, e não seu namorado

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Imagem: iStock

Bruna Alves

Do VivaBem, em São Paulo

24/11/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Segundo especialistas, sim, os amigos podem ser os grandes amores da nossa vida
  • Eles ajudam na formação da nossa personalidade, a compreender quem somos e para onde queremos ir
  • Há quem valorize tanto uma amizade que até priorize-a frente a relacionamentos amorosos
  • Os especialistas alertam que o equilíbrio é importante em qualquer relação, inclusive na amizade

A lembrança não deixa dúvidas. Desde que começamos a ter um convívio social, ainda lá na primeira infância, os amigos estavam presentes. Algumas crianças eram rodeadas por muitos, outras, mais reservadas, por poucos, mas é difícil encontrar quem não tenha tido um amigo nessa fase.

Com o passar dos tempos, os laços se fortificam e há quem preserve amizades desde o ensino fundamental. Mas algumas pessoas, além de valorizar os amigos, ainda os priorizam frente a relacionamentos amorosos. Elas acreditam que os companheiros românticos não são os grandes amores da vida —esse crédito é exclusivo dos amigos.

Sérgio Kodato, psicólogo social e professor do Departamento de Psicologia da FFCLRP-USP (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo) explica que os amigos, de fato, podem ser os grandes amores da nossa vida, pois as amizades incluem os vínculos mais significativos, duradouros e prazerosos, além de desempenhar um papel importante no desenvolvimento psicossocial.

"Na infância, os amigos cumprem o papel de socialização. Na adolescência, a identificação com o grupo de pares contribui com o desenvolvimento da identidade, personalidade e imagem de si. Na fase adulta, os amigos são importantes para cooperação, solidariedade, trabalho em conjunto e, na velhice, para combater a solidão, porque idosos isolados tendem a ter mais doenças e mortes precoce", diz Kodato.

Essa relação pode ser explicada pelo chamado sistema da recompensa do cérebro, responsável por liberar substâncias, como a oxitocina, hormônio que gera uma sensação de prazer e bem-estar. "Acredita-se que quando amamos alguém, essa pessoa faz com que a gente libere essas substâncias. Em termos de amizade é muito parecido, porque geralmente um amigo dá um certo tipo de segurança, por exemplo. Isso vai fazer com que essa mesma área do cérebro seja ativada quando você pensa em um amigo e em tudo que ele traz", explica André Souza, neurocientista pela Universidade do Texas (EUA).

Karina Barbosa da Silva, que está tirando a selfie, com as amigas - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Karina Barbosa da Silva, que está tirando a selfie, com as amigas
Imagem: Arquivo pessoal

Uma pesquisa feita pela Brigham Young University (EUA) mostrou que idosos que têm amigos e fazem atividades conjuntas apresentam 50% mais chances de sobrevida, em comparação aos isolados. A análise descreve também que os efeitos da falta de amigos são similares aos da obesidade, tabagismo e etilismo, ou seja, danifica a saúde e leva à morte precoce.

"Não são todas as pessoas que querem ter um relacionamento amoroso, mas todas as pessoas precisam ter relacionamentos interpessoais. A gente se desenvolve a partir da relação com outras pessoas", complementa Sabine Heumann do Amaral, psicóloga clínica e professora da Uninassau (Centro Universitário Maurício de Nassau), em Maceió (AL).

Amigos são prioridades

Há quem afirme que a amizade tem mais leveza, cumplicidade, lealdade, sinceridade. Esses, entre outros, são alguns dos motivos que fazem com que a jovem jornalista, Karina Barbosa da Silva, 23, priorize os amigos ao namorado, com quem está há dois anos e sete meses.

"A amizade é importante para mim, principalmente porque eu abordo assuntos que o meu namorado não entenderia. Por exemplo, o meu ciclo social é voltado para memes, fofoca de famosos e ele não se interessa muito. Com os meus amigos eu fofoco, discuto sobre maquiagem, roupas. Eu tenho poucos, mas eles valem por 100", conta Silva.

A jovem ainda relata que com eles há brincadeiras, descontração e liberdade de falar o que pensa em todos os momentos, coisas que não faz com o namorado. Ela acredita que o namoro pode acabar um dia, mas a amizade verdadeira, não.

"Os meus amigos estão comigo há muito mais tempo, então, a preferência é deles. Se eu estiver passando um perrengue, sei que eles vão me amparar a qualquer hora ou dia, não vai ter tempo ruim", diz a jornalista, destacando que na amizade geralmente não há tantas cobranças como em um relacionamento amoroso. "Com os meus amigos eu não fico perguntando todo dia onde você está, se chegou, se já comeu", diz.

Há também quem sempre priorizou os relacionamentos amorosos, mas depois de sofrer desilusões, virou a página e hoje garante que os amigos são os verdadeiros amores. É o caso do empresário Alexandre Tirso, 39. Ele conta que foi casado por 11 anos e durante esse tempo priorizava, exclusivamente, o marido. Hoje, ele se arrepende e adotou uma nova postura nos relacionamentos seguintes.

Alexandre Tirso, ao meio, com os dois melhores amigos - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Alexandre Tirso, ao meio, com os dois melhores amigos
Imagem: Arquivo pessoal

"Hoje eu priorizo os meus amigos em qualquer relacionamento que eu tenha. Uma das causas do meu último término foi isso, ele não entendia que eu priorizava os meus amigos para depois priorizá-lo", diz.

Tirso avalia que os amigos acrescentam muito mais em sua vida que os namorados, com os quais ele nunca conseguiu ser quem realmente gostaria. "No relacionamento tem aquele negócio de ceder, entender, tem família, compromisso, ciúmes. Eu não encontro isso nas amizades. A amizade é leve, divertida, os meus amigos me aceitam do jeito que eu sou e, com eles, eu consigo ser 100% eu", diz.

A relações públicas Camila Conde, 39, começou a valorizar ainda mais as amizades com o passar dos anos. Ela diz que a maturidade abriu seus olhos para quem realmente sempre esteve ao seu lado: seus poucos, bons e fiéis amigos.

"Hoje em dia eu não namoro, mas mesmo namorando, sempre priorizei meus amigos. Minha concepção era que um relacionamento poderia acabar, mas laços de amizade beiram laços de irmão", diz. Ela também revela não sentir falta de um namorado, pois as lacunas são preenchidas pela filha pequena e pelos amigos de longa data. "Eu me sinto muito feliz sem um relacionamento, porque sei que não estou sozinha, eu tenho meus amigos sempre comigo. E como sou prioridade, também ofereço prioridade".

Amizade ajuda a entender quem somos

A definição da nossa personalidade se baseia especialmente nos grupos que estamos incluídos. Quando, por algum motivo, não estamos inseridos em nenhum grupo, a tendência é que surjam problemas psicológicos. Quem nunca passou um recreio triste na escola quando brigou com o amigo e acabou ficando sozinho?

Essa tristeza, na verdade, justifica-se pela necessidade de estarmos acompanhados —e por que não com amigos? Segundo Kodato, a "terapaia da amizade" tem grande potencial para tratar pessoas com distúrbios psicológicos, além de remédios, quando necessários. "Afeto e amor, em termos de dar e receber, são fundamentais para a saúde mental. Para os existencialistas, os amigos são o sentido da vida, porque são eles que legitimam nossa existência".

Camilla Conde, de blusa cinza, com os amigos - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Camilla Conde, de blusa cinza, com os amigos
Imagem: Arquivo pessoal

Os amigos se reúnem para conversar, desabafar, rir, celebrar, mas sem criar tantas expectativas. Eles não são cobrados pela sociedade, por exemplo, para se casar e constituir família, comprar casa e carro juntos, como em relacionamentos amorosos.

No entanto, não há regra: uns priorizam os amigos, outros um casamento, família, carreira. E não há certo ou errado. "O que é esperado é que a gente conserve e desenvolva relacionamentos próximos, isso é muito importante", diz Amaral.

Rita Khater, psicóloga, pedagoga e professora de psicologia da PUC-Campinas (Pontifícia Universidade Católica de Campinas) avalia que o papel de melhor amigo pode ser desempenhado por qualquer pessoa, inclusive da mesma família, como irmãos, por exemplo, desde que partilhem dos momentos mais importantes. "O grande amor da minha vida é aquele que é empático com os meus sentimentos, que me apoia, me ampara, me entende. A amizade é um porto seguro".

Excesso pode indicar problema

Não é comum preferir amigos a relacionamentos amorosos, mas acontece. Entretanto é preciso ficar atento: se isso ocorrer devido à insatisfação com o namoro ou casamento, não é preferir os amigos, mas sim o reflexo de uma relação fragilizada. Uma busca por refúgio. "Nesses casos, pode haver um certo consolo: já que eu não consigo me relacionar por inteiro, o melhor amigo é uma coisa boa, porque ele me entende, me compreende", exemplifica Kodato.

Khater destaca, ainda, que a amizade deveria fazer parte de qualquer relacionamento amoroso. Esse seria o cenário ideal. "Quando você não tem em seu companheiro um vínculo de amizade, você vai procurar em outro lugar. E se for em um casamento, isso vai conflitar", alerta.

A amizade tende a ser mais isenta, e isso faz toda a diferença. Claro que também há casos de amigos possessivos e ciumentos, mas, segundo os especialistas, são a minoria. Aqui, vale um alerta: priorizar é uma coisa, depender, é outra. O ideal é tentar manter um equilíbrio e priorizar aquilo que realmente faz bem. "Eu também não posso venerar e idolatrar o meu amigo. Isso gera uma dependência afetiva e a pessoa não consegue fazer nada sem o apoio do amigo. Isso não é uma amizade saudável, é uma amizade doentia. Existe um limite para tudo", diz Khater.

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