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Mulher perdeu bebê no parto e depois descobriu trombofilia: "Me culpava"

Bárbara Therrie

Colaboração para VivaBem

08/11/2020 04h00

Aline Vieira, 33, zootecnista e digital influencer, estava na 40ª semana de gestação, em trabalho de parto ativo, quando sentiu um soluço na barriga. Ao ser examinada pelo enfermeiro obstetra, ele não conseguiu ouvir os batimentos cardíacos do bebê, e ela foi encaminhada para uma cesárea de emergência. Ao acordar da cirurgia, ela ouviu do médico que a filha tinha nascido sem vida, que era uma fatalidade e que não havia explicação. Aline foi em busca de respostas e um ano depois engravidou do Hugo, o seu bebê arco-íris.

"Descobrir a gravidez da Nina foi uma surpresa maravilhosa, sempre quis ser mãe. Fiz meu pré-natal certinho e não tive nenhum problema de saúde ao longo da gestação. Queria ter um parto normal, mas também estava preparada caso tivesse de fazer uma cesárea. O importante era minha filha nascer com saúde.

Com 39 semanas, fiz o último ultrassom. A Nina estava encaixada e a médica disse que era só esperar. Quando completei 40 semanas, no dia 24 de junho de 2018, entrei em trabalho de parto. Fui ao hospital, a enfermeira obstetra ouviu os batimentos cardíacos da Nina, estava tudo certo. Ela fez o exame de toque, eu estava com 1 dedo de dilatação. Ela falou que a bebê ainda ia demorar para nascer e explicou que o protocolo do hospital era internar só com 4 cm, e me mandou de volta para casa.

Voltei para casa com o meu marido, o Tiago, e liguei para a minha doula. Ela me ajudou a fazer os exercícios na bola de pilates, fez massagem, tomei banho, ouvi música. Dei uma última arrumada na casa e na mala da maternidade. Minha mãe e minha irmã chegaram, estava um clima super alegre, todos na expectativa da chegada da Nina.

Passadas algumas horas, as contrações evoluíram. Eu, meu marido e a doula fomos para o hospital. A enfermeira ouviu os batimentos cardíacos da Nina e fez o exame de toque mais uma vez. Eu estava com 2 para 3 cm. Me mandaram de volta para casa.

De madrugada, minha bolsa estourou e as contrações ficaram mais fortes. Fomos mais uma vez para a maternidade, dessa vez me internaram, estava com 4 cm. Ficamos em um quarto e um enfermeiro obstetra ficava passando para fazer o exame de toque e ouvir o coração da bebê. Ele estava atendendo mais outras quatro gestantes.

Senti um soluço na barriga, acho que foi a hora que a Nina morreu

Aline Vieira perdeu bebê no parto - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

De repente, senti um soluço na barriga, uma tremida forte, uma sensação estranha. Pedi para chamar o enfermeiro. Ele me examinou, pegou o celular, mandou mensagem para alguém e disse: 'Você está com 7 cm, mas vai fazer uma cesárea de emergência agora. Não estou conseguindo escutar os batimentos cardíacos da bebê'.

Chegou uma enfermeira com uma cadeira de rodas e me levou para o centro cirúrgico. Só repetia para os médicos: 'Salva minha filha, salva minha filha'.

Eles me deram anestesia, mas como estava muito nervosa, acho que me deram algum calmante e eu apaguei. Lembro de ter acordado com a enfermeira me levando para a sala de pós-parto. Só perguntava da Nina sem parar, mas ninguém falava nada até que uma enfermeira balançou a cabeça fazendo sinal de negativo, mas não entendi.

Meu marido chegou na sala, pegou na minha mão e o médico se aproximou para falar conosco. Ele disse: 'Infelizmente, a filha de vocês nasceu sem vida, nós tentamos reanimá-la, mas ela não reagiu. Foi uma fatalidade o que aconteceu, não tem explicação'.

Comecei a chorar e a dizer que eu era culpada pela morte dela. Peguei toda a dor e transformei em culpa, me responsabilizava pelo que tinha acontecido.

Pedi para o meu marido tirar uma foto dela, mas depois pensei melhor e disse que queria vê-la pessoalmente, saber como ela era. Ela estava enrolada em uma mantinha e com a primeira troca de roupa que tinha escolhido para ela usar quando a visse. Eu a segurei no colo, fiquei admirando cada detalhe dela. Ela era linda, parecia que estava dormindo.

Ouvia o choro dos outros bebês e procurava pela minha filha

Naquela mesma noite, não consegui dormir direito. Ouvia o chorinho dos bebês nos outros quartos e procurava pela minha filha. Tentava entender o porquê de tudo aquilo.

No dia seguinte, recebi alta e insisti em conversar com o médico para saber o que tinha acontecido. Ele voltou a dizer que era uma fatalidade, que não tinha explicação.

Ele disse que a única coisa que havia chamado a atenção dele era que a minha placenta era muito pequena. No atestado de óbito, ele colocou que a Nina teve restrição de crescimento e sofrimento fetal. Ele me encorajou a investigar o motivo, perguntou se eu e meu marido queríamos que fosse realizada uma autópsia. Nós falamos que não. Tínhamos passado por um processo de luto recente com a morte do meu cunhado e não queríamos, de certa forma, reviver tudo de novo.

Antes de ir embora, vi a Nina pela última vez. Peguei-a no colo e fiquei passando a mão nela. Não cheguei a me despedir porque imaginei que fosse vê-la no velório, mas não foi o que aconteceu. Fui para casa muito debilitada por causa da cesárea, estava com dor e não conseguia ficar em pé. Meus familiares me aconselharam a não ir ao enterro devido às minhas condições físicas e emocionais.

Concordei com eles que era a melhor decisão e não fui. Me deram um suco com calmante e dormi.

Deixei o quarto da Nina fechado por 30 dias. Quando consegui entrar, empacotei tudo, guardei as roupinhas e falei para ela que um dia um irmão ou irmã dela iria usar tudo o que tinha comprado para ela. Durante três meses, vivi um luto intenso, não saía de casa e chorava todos os dias. Me culpava pela morte da minha filha.

Só não entrei em uma depressão profunda porque passei a pesquisar tudo sobre insuficiência placentária. Estava determinada a descobrir o motivo do falecimento da Nina.

Fiz um plano de saúde, passei em vários médicos, contava da minha perda gestacional. Eles diziam que não tinha nada, que era normal perder filho, que era só tentar engravidar depois de seis meses.

Descobri que tenho trombofilia

Aline Vieira perdeu bebê no parto - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Aline plantou uma árvore em homenagem a filha
Imagem: Arquivo pessoal

Não aceitava não ter uma resposta, não iria engravidar novamente sem saber o que tinha acontecido, tinha medo de perder mais um bebê. Após alguns meses, encontrei uma médica que deu atenção ao meu caso e me pediu uma bateria de exames.

Um dos exames constatou que eu tinha trombofilia. Ela pediu para repeti-lo e veio a confirmação do diagnóstico. Muito provavelmente as complicações da trombofilia causaram a morte da Nina. Foi um alívio, já não me culpava e não me responsabilizava mais pela perda dela.

A partir daí, passei a participar de grupos no Facebook, a escrever sobre perda gestacional e trombofilia no meu site, no meu canal no YouTube, no meu Instagram (@resenhasdaaline), a conversar com várias mães que se identificavam com o mesmo problema que o meu. Criamos o grupo 'Movimento Humaniza Luto'.

Na semana em que a Nina completaria um ano de vida, eu e meu marido plantamos uma muda de árvore em homenagem a ela. Nessa mesma semana descobrimos que estava grávida do Hugo. Foi uma emoção que me trouxe muita alegria, mas também muito medo.

Minha gestação era considerada de risco por causa da trombofilia. Fazia acompanhamento pré-natal com duas médicas a cada duas semanas e tomava medicação todos os dias.

Durante a gravidez, tinha momentos de medo. Nessas horas meditava, orava, ouvia louvores. Buscava me fortalecer física e espiritualmente. Tinha fé, pedia a Deus para ele cumprir a promessa de ter um filho vivo nos braços e de poder exercer a maternidade. Já era mãe, a mãe da Nina, a mãe de um anjo.

No dia 24 de fevereiro de 2020, entrei em trabalho de parto com 39 semanas de gestação. Apesar de estar com 3 dedos de dilatação, não quis esperar pelo parto normal. O problema não era o parto normal, mas, sim, a assistência. Depois do que passei, só aguardaria se eu tivesse uma equipe o tempo todo comigo. Não me senti segura para esperar e fui para a cesárea.

Meu bebê arco-íris veio para colorir a minha vida

Aline Vieira perdeu bebê no parto - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Chorava de emoção. A médica me abraçou e disse: 'Agora é o seu momento, pode chorar que seu filho vai nascer com vida'. Ela enxugou minhas lágrimas e fez o parto. Ao ouvir o choro do Hugo, só agradeci a Deus.

A sensação de pegá-lo no colo foi inexplicável. Uma parte de mim voltou a sorrir de verdade.

Nunca vou esquecer a Nina e deixar de falar dela. Ela será para sempre a minha primeira filha. Depois de muita luta, tive o Hugo, o meu bebê arco-íris, forma carinhosa que chamamos um bebê que vem depois de uma perda gestacional. Após a tempestade vem o arco-íris. O Hugo veio para colorir de novo a minha vida e me dar um novo recomeço".

Saiba mais sobre trombofilia

A trombofilia é uma doença que propicia a formação de coágulos —o acúmulo de sangue que pode entupir os vasos— causando também o maior risco de ter trombose. A trombose é um coágulo que obstrui a circulação, e que acontecer na circulação arterial ou venosa.

As causas da trombofilia podem ser genéticas ou adquiridas. O uso de terapia de reposição hormonal, viagens aéreas prolongadas (por causa da pressão), cirurgias, imobilização e a gravidez podem aumentar o risco das portadoras de trombofilias evoluírem para trombose. É importante esclarecer, no entanto, que ter trombofilia não necessariamente quer dizer que a paciente terá trombose ou um evento trombótico.

Em relação aos sintomas, muitas vezes essa condição é assintomática, mas um dos sinais é o inchaço repentino. O diagnóstico, geralmente, é detectado por exame de sangue laboratorial.

A trombofilia pode trazer algumas complicações na gravidez. Em casos mais leves, pode ocorrer a diminuição de crescimento do bebê e também de líquido devido ao maior risco de formação de coágulos. Há a diminuição da vascularização placentária e, com isso, a nutrição fetal, como consequência, menor crescimento e produção de líquido.

Já em casos mais graves, a paciente pode ter desconforto respiratório ou até um descolamento de placenta. Outra situação é a trombose placentária, que acontece quando um coágulo se forma nas veias ou artérias da placenta, prejudicando a quantidade de sangue que passa para o feto.

A trombofilia é uma das principais causas de aborto recorrente. Portanto, deve ser pesquisada em pacientes com histórico. Além disso, da metade da gestação para frente pode ocorrer a diminuição do crescimento do feto, diminuição de líquido e o aumento precoce da pressão (pré-eclâmpsia). A morte é mais frequente ao longo da gravidez, mas geralmente não é súbita, existem sinais anteriores como os citados acima.

O tratamento da trombofilia durante a gestação vai depender da fase e do tipo de alteração que a mulher apresentar. As gestantes precisam usar meia elástica de média compressão em casos de repouso prolongado ou viagens para prevenir o edema devido ao tempo prolongado sentado sem movimentar as pernas.

O uso das meias é indicado em decorrência da compressão sobre as veias pélvicas do conjunto placenta e feto. Se o risco for alto, é usado um anticoagulante injetável que deve ser aplicado ao longo de toda a gravidez. O anticoagulante serve para não ocorrer a formação de novos coágulos e ajuda a evitar a trombose.

Fonte: Thaís Domingues, ginecologista e especialista em reprodução humana da Huntington Medicina Reprodutiva.

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