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Em teste com animais, hemopressina reduz dor causada por artrite reumatoide

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Imagem: iStock

Do Jornal da USP

27/10/2020 20h03

"A artrite reumatoide é considerada a doença inflamatória sistêmica que mais acomete a população. De acordo com um estudo internacional, ela atinge 2% dos homens e 4% das mulheres, que tem pior evolução da doença, inclusive antes dos 50 anos", afirmam os professores Emer Ferro e Soraia Costa, do ICB, que realizaram a pesquisa. "Um número elevado de pacientes (60%) não respondem adequadamente às terapias existentes, ou apresentam sérios efeitos adversos.

Assim, a pesquisa com a hemopressina é uma nova abordagem para tratar a inflamação e dor crônica", destacam. Como se trata de um trabalho de pesquisa básica, os professores salientam que novas etapas serão necessárias para o medicamento chegar à clínica.

A hemopressina é um peptídeo (proteína de pequenas dimensões) derivado da hemoglobina, molécula presente nos glóbulos vermelhos do sangue, identificada no laboratório do professor Ferro em 2003. "O objetivo do estudo foi avaliar a ação farmacológica da hemopressina na artrite reumatoide, usando um modelo animal que se assemelha ao da doença em humanos", explicam os pesquisadores.

"Trata-se de um novo medicamento, ainda não utilizado pela indústria farmacêutica, apesar de já ter mostrado efeito analgésico, reduz a ingestão de alimentos (inibidor de apetite) e antiepiléptico, em camundongos e ratos, quando aplicado por via oral, e se injetado intravenoso, tem efeito anti-hipertensivo (reduz a pressão arterial) em ratos."

Na pesquisa, a artrite foi induzida por albumina de soro bovino metilada, aplicada nas articulações. "Em seguida, foram avaliados diversos parâmetros adotados na clínica, como dor espontânea durante a locomoção, edemas nos joelhos e marcadores de inflamação nas articulações e na medula espinhal", relatam os professores. "A artrite reumatoide comprometeu progressivamente o padrão normal de caminhada e prejudicou a mobilidade ao longo dos quatro dias seguintes."

O tratamento diário com hemopressina, numa dosagem proporcional à que seria usada em seres humanos, melhorou a mobilidade dos animais que havia sido prejudicada pela doença. "O medicamento também causou um efeito inibitório significativo sobre o inchaço nas articulações, além de reduzir os marcadores de inflamação no líquido sinovial dos joelhos", apontam os pesquisadores. "Esses resultados sugerem que a hemopressina melhorou o quadro geral dos animais com artrite."

Segundo os pesquisadores, o tratamento farmacológico com hemopressina, por via oral ou local, protegeu os animais da dor e do edema nas articulações decorrentes da inflamação. "Além de diminuir o inchaço no joelho, ela reduziu o comportamento relacionado à dor (nocicepção), as alterações nas articulações e a inflamação na cavidade articular do joelho", destacam. "Esses achados revelam pela primeira vez que a hemopressina pode representar uma opção complementar potencialmente nova para o tratamento farmacológico da artrite reumatoide."

"Depois dos estágios experimentais em modelos animais distintos, acontece a pesquisa clínica, que tem pelo menos quatro etapas. A verba para a pesquisa é o fator limitante para que esse processo da pesquisa básica para a clínica evolua de forma segura e rápida", afirma Soraia.

"O processo de tradução das descobertas científicas básicas em aplicações clínicas é chamado de pesquisa de bancada ao leito do paciente (B2B). Esse modelo é linear - começa com observações no laboratório ou mesmo na prática clínica, concluindo com sucesso ou não nos testes clínicos em pacientes", acrescenta Emer. As conclusões do trabalho são descritas no artigo The potential anti-inflammatory and anti-nociceptive effects of rat hemopressin (PVNFKFLSH) in experimental arthritis, publicado no European Journal of Pharmacology em 11 de outubro.

O estudo foi realizado pelos pesquisadores Livia Camargo, Alexandre Denadai-Souza, Lidia Yshii, Simone Teixeira, Anderson Cerqueira, Mayara Gewehr, Marcelo Muscará, Emer Ferro e Soraia Costa, do Departamento de Farmacologia do ICB, Carla Lima, do Instituto Butantan, André Shencka, da Unicamp, e Elizabeth Fernandes, do Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe, em Curitiba (Paraná). A pesquisa teve o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

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