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Brasil pode aproveitar queda de casos e mortes e fazer isolamento vertical?

Mais de 6.000 cientistas e médicos assinaram uma carta aberta pedindo que se estimule a ideia de resguardar apenas idosos e doentes e permita a circulação de jovens acima de 18 anos para espalhar o novo coronavírus e elevar a imunidade - iStock
Mais de 6.000 cientistas e médicos assinaram uma carta aberta pedindo que se estimule a ideia de resguardar apenas idosos e doentes e permita a circulação de jovens acima de 18 anos para espalhar o novo coronavírus e elevar a imunidade Imagem: iStock

Carlos Madeiro

Colaboração para VivaBem, em Maceió

23/10/2020 04h00

No último dia 7, mais de 6.000 cientistas e médicos assinaram uma carta aberta pedindo que os governos do Reino Unido e dos Estados Unidos estimulem a ideia de resguardar apenas idosos e doentes e permitam a circulação de jovens acima de 18 anos para espalhar o novo coronavírus e elevar a imunidade na população.

Com a redução na média móvel de casos e mortes pela covid-19 no Brasil, essa teoria defendida na carta dos cientistas pode alimentar o debate sobre as formas de isolamento social por aqui. Estaríamos caminhando para uma possibilidade de liberar jovens adultos para uma vida "normal", para adquirirmos a chamada imunidade de rebanho?

VivaBem ouviu especialistas sobre o tema, que veem com preocupação a ideia ser adotada como política pública no Brasil e apontam questões a serem levadas em conta no país.

Brasil pode liberar jovens?

Benilton de Sá Carvalho, professor que coordena a frente de modelagem e epidemiologia da força-tarefa contra a covid-19 da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), afirma que é necessária muita cautela para definir formas de isolamento pelos gestores públicos.

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Imagem: reklamlar/Getty Images

"Verdade que a gente conhece muito mais da doença, de como ela age agora, mas sobre a imunidade gente não sabe tanto. Ficam perguntas: por quanto tempo essa imunidade dura? Se ela é permanente, como existem casos de reinfecção no mundo? Se são apenas 14 dias de infecção, como muita gente acredita ser, por que a gente teve casos como no Rio de Janeiro de indivíduos contaminados e testando positivo por mais de 150 dias?", questiona.

Uma das questões levantadas pelo pesquisador é que, mesmo que as taxas de morte em jovens adultos sejam menores do que em idosos, eles também morrem de covid-19. "Pegando os números você vai ver que eles também são vítimas. Uma outra problemática que se esquece de discutir é a questão das sequelas nesses jovens adultos. São sequelas reais, que acontecem entre pacientes que a gente acompanha", lembra.

Segundo dados de segunda-feira (19) do portal de Transparência da Arpen Brasil (Associação dos Cartórios de Registro Civil do Brasil), 34 mil pessoas que morreram de covid-19 até aqui tinham menos de 60 anos.

Outro ponto citado por Carvalho é que o debate da imunidade de rebanho pode ser feito com base em um grande número de mortes. "Para você criar essa imunidade por exposição, 60% a 75% da população precisa ser exposta. E a que custo você vai produzir essa imunidade de rebanho? Quando você expõe para alcançar esse percentual, quantos óbitos você provoca?"

Vertical, só com teste

Para Fernando Maia, infectologista, professor e pesquisador da Ufal (Universidade Federal de Alagoas), a proposta de isolamento vertical é conhecido entre os especialistas e funciona em países onde há testagem em massa.

"Esse tipo de isolamento é muito bom como estratégia de saúde pública e funciona: você deixa as pessoas mais vulneráveis, os idosos em casa, e os jovens saem para trabalhar. Agora, para isso, precisa testar todo mundo! Quem tiver positivo, vai para casa. Infelizmente aqui no Brasil a gente não consegue implementar uma coisa dessas porque não há como testar todo mundo, o governo não tem perna para isso", diz.

Teste PCR - Okan Celik/Istock  - Okan Celik/Istock
Imagem: Okan Celik/Istock

Sobre a realidade brasileira, ele diz que em locais onde o R (taxa de retransmissão) esteja baixo, a estratégia é arriscada porque os dados podem estar sendo mascarados pela falta de testes.

Segundo o projeto Covid Analytics, da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católico do Rio de Janeiro), o R no Brasil está em 0,9 (ou seja, cada 10 pessoas passam a doença para outras 9). Índices abaixo de 1 indicam retração da epidemia.

"Poucos países no mundo conseguiram essa estratégia, posso citar três: Japão, Coreia do Sul e Nova Zelândia não precisaram fazer isolamento rigoroso, como foi feito em outros lugares, e controlaram a doença com testagem em massa", completa.

Desigualdades prejudicam

José Luiz de Lima Filho, diretor do LIKA (Laboratório de Imunopatologia Keizo Asami) da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), afirma que os números alcançados pelo país permitem que algumas atividades sejam retomadas com cautela.

"Mas a volta à normalidade [de jovens adultos] se justificaria no caso de não termos mais vírus circulante, ou seja, uma situação normal —o que não temos ainda".

Para ele, o isolamento vertical seria um desafio incontornável com as desigualdades sociais. "Em nosso país isso não é possível. Temos que ter um pouco mais de paciência e ir voltando às atividades com muito cuidado, para evitar uma segunda onda maior do que a primeira. Em alguns países estamos na segunda onda, e em alguns casos o número de pessoas infectadas é maior que na primeira onda", afirma.

Ele cita que a Europa deve servir como exemplo para entender o comportamento da epidemia. "A Irlanda do Norte está fechando novamente por 30 dias, ou seja, a situação não está normal, não temos vacinas ainda, deveremos voltar às atividades com todas as cautelas, como manter o distanciamento social, usar máscaras, higienizar as mãos, entre outras", pontua.

O QUE É

Isolamento vertical: é aquele no qual somente a parcela da população com maior risco de desenvolver a doença ou complicações dela é isolada. Isso significaria isolar somente as pessoas que pertencem aos grupos de risco para a covid-19, como idosos, imunocomprometidos, obesos, diabéticos e portadores de doenças pulmonares (como a asma), cardiovasculares, hepáticas ou aqueles com doenças renais crônicas.

Assim, durante o isolamento vertical, pessoas que não pertencem ao grupo de risco continuam exercendo suas atividades de vida normalmente. Esse modelo é menos eficiente do que o isolamento horizontal quanto à capacidade de conter a velocidade de transmissão da doença. Além disso, vale ressaltar que a identificação dos grupos de risco é um desafio no cumprimento desta forma de isolamento.

Isolamento horizontal: é aquele no qual o maior número possível de pessoas deve permanecer dentro de casa, independentemente de apresentarem fatores de risco ou não. O distanciamento horizontal pode ser feito em diferentes níveis de rigidez. O mais rígido é chamado de lockdown, em que somente as atividades consideradas essenciais (como farmácias e supermercados) são mantidas em funcionamento normal. Pode, inclusive, haver um monitoramento das ruas pela polícia.

No Brasil, o isolamento horizontal já vem caindo semana após semana —o que é natural com a flexibilização da quarentena em várias cidades e cada vez mais atividades liberadas. Segundo dados da startup In Loco, o índice de isolamento no país aos domingos, por exemplo, não registra 45% de pessoas em casa desde 13 de setembro. O recorde aos domingos foi alcançado em 22 de março, quando essa média foi de 62,2%. Desde lá, só essa taxa só cai em dias úteis e fins de semana.

Fonte: Cartilha da Secretaria de Saúde de MG e UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais)

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