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Da saúde da pele à imunidade: como estresse e ansiedade podem afetar corpo

Embora sejam emoções diferenciadas, estresse e ansiedade costumam estar bastante atreladas - iStock
Embora sejam emoções diferenciadas, estresse e ansiedade costumam estar bastante atreladas Imagem: iStock

Simone Cunha

Colaboração para VivaBem

07/10/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Um estímulo contínuo, como o estresse crônico e a ansiedade, mantém a hiperativação do organismo, sobrecarregando-o e prejudicando a saúde
  • Além do sistema imune, pele, cabelo e órgãos do corpo são afetados pela continuidade do estado de alerta
  • Quando os níveis de estresse e ansiedade aumentam, até o comportamento alimentar pode ser influenciado

Ao contrário do que muitos pensam, o estresse e a ansiedade, em princípio, não são emoções negativas. Ambas são necessárias como mecanismos de defesa. Quando está diante de uma situação que gera estresse agudo, por exemplo, o corpo fica em estado de alerta e se prepara para "fugir ou lutar". Já a ansiedade é a fragilidade diante de uma incerteza que tende a agravar o estresse.

O problema ocorre quando esses estímulos passam a ser contínuos, provocando uma hiperativação do organismo. Em excesso, essas emoções podem afetar não só pele e cabelos como também o apetite e o sistema imunológico.

Quando o estresse se torna crônico

Não importa se o estresse é gerado pelo ataque de um animal feroz ou pelo chefe cobrando a entrega de um relatório. Diante de qualquer situação estressora, o organismo libera as substâncias noradrenalina e dopamina, que elevam a sensação de alerta. O sistema imune também é ativado, para que os mecanismos de defesas estejam prontos caso você sofra um ferimento (que pode causar infecções, por exemplo), explica o psiquiatra Rafael Pinheiro Calzada, preceptor de psiquiatria no Hospital Universitário de Brasília e na Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal.

Nesse processo, aumentam os batimentos cardíacos, as pupilas dilatam, a musculatura fica mais tensa e contraída. Embora esses efeitos durem segundos em uma situação de risco, em um diagnóstico de estresse crônico, um estímulo contínuo mantém essa hiperativação, sobrecarregando o organismo e fazendo mal a ele.

"Há um estresse oxidativo que gera lesões nas próprias células", diz Calzada. O sistema imune também enfraquece —pois fica "esgotado" de tanto trabalhar esperando uma agressão física que nunca acontece. Então, a imunidade cai e qualquer doença tende a transitar de maneira mais fácil no corpo.

Estresse pandemia - iStock - iStock
Um estresse contínuo gera lesões nas próprias células e enfraquece o sistema imune
Imagem: iStock

E não pense que essa supressão do sistema imune dura pouco tempo. De acordo com Ana Maria Rossi, doutora em psicologia clínica e presidente da ISMA-BR (International Stress Management Association no Brasil), a imunidade pode ser afetada até 24 meses após um evento estressor negativo, facilitando até mesmo a criação de células cancerígenas.

Rossi diz que isso acontece porque no organismo as células se renovam o tempo todo e o sistema imune ativado está sempre vigiando para defender e, se necessário, destruir alguma célula errada. Se ele estiver esgotado, pode falhar nessa manutenção e não combater a célula cancerígena. "Por isso, o estresse crônico afeta as defesas celulares, dificultando o combate às infecções e aos tumores", diz ela.

Impacto nos órgãos

Segundo Calzada, alguns órgãos reagem mais diretamente ao estresse crônico. São eles:

  • Coração: o aumento nos batimentos cardíacos mantém as coronárias mais contraídas. Isso faz com que a reserva cardíaca seja limitada, diminuindo o controle das placas de gordura nas artérias e elevando ainda mais o risco de infarto ou AVC (Acidente Vascular Cerebral).
  • Estômago: a hiperativação diminui sua funcionalidade, aumentando a liberação de suco gástrico. Esse líquido, em excesso e sem o seu estímulo natural (alimento), corrói o próprio estômago, favorecendo o aparecimento de uma gastrite ou até mesmo de uma úlcera gástrica.
  • Cérebro: estressado, o organismo também libera cortisol, um hormônio que hiperativa o corpo. Se suas taxas não normalizam, o organismo continua desregulado, o que pode provocar ansiedade, alterações no sono e até atrapalhar a cognição (causando problemas de memória e concentração).

Pele e cabelos sob a mira do estresse

A relação entre a pele e o cérebro é um campo de pesquisa que tem crescido de forma rápida. Sabe-se, por exemplo, que a pele possui receptores para os hormônios liberados em situações estressantes, como o cortisol e a adrenalina. Existem também doenças desencadeadas (ou que apresentam piora no quadro) pelo estresse crônico, entre elas: acne, vitiligo, dermatite atópica, psoríase e urticária crônica.

Neste caso, o estresse parece funcionar como um dos agentes com potencial para ativar a dermatose em indivíduos geneticamente predispostos. "Ainda não se sabe os motivos, mas estudos sugerem que o cortisol, a adrenalina e outras substâncias comprometem a composição lipídica e o equilíbrio dos micro-organismos da pele, favorecendo a inflamação", diz Clarissa Prati, dermatologista mestre e doutora em ciências da saúde, pós-doutoranda pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e especialista pela Sociedade Brasileira de Dermatologia.

O mesmo problema pode ocorrer com os fios de cabelo, como em casos de alopecia areata (condição caracterizada pela perda de cabelo ou de pelos em partes do corpo, como cílios, sobrancelhas e barba). "Os mecanismos inflamatórios possivelmente atuam da mesma forma como na pele, tendo como alvo as células dos folículos pilosos (raízes dos cabelos e pelos)", diz Prati.

Comer hambúrguer - iStock - iStock
Para aliviar os sintomas dessas emoções, são consumidos alimentos saborosos, densamente calóricos e ricos em açúcar e gordura
Imagem: iStock

De olho no prato

Segundo Rossi, o estresse também costuma afetar o apetite. "Ele provoca uma pequena perda do olfato, fazendo com que a pessoa busque alimentos mais condimentados e gordurosos".

Para a nutricionista Natasha Fonseca, mestre em neurociências pela UFRGS e pesquisadora pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre, altos níveis de estresse e ansiedade podem influenciar o comportamento alimentar. Para aliviar os sintomas dessas emoções, são consumidos alimentos saborosos, densamente calóricos e ricos em açúcar e gordura, como forma de conforto e "automedicação" —as chamadas comfort foods, que parecem regular e melhorar a resposta ao estresse.

Em relação à ansiedade, não são todos os pacientes que descontam a emoção na comida. "Aqueles que possuem um maior 'comer emocional' (tendência de se alimentar em resposta aos estímulos emocionais, geralmente negativos), usam esses alimentos saborosos como uma forma de evitar a frustração ou o desconforto", diz Fonseca.

É importante lembrar que os alimentos hiperpalatáveis (ricos em gordura, sal ou açúcar) não são vilões, mas o excesso associado a um consumo desregulado gera um impacto negativo na saúde, contribuindo para o sobrepeso e a obesidade. Tais opções geram resposta rápida, sem resolver o problema causador do estresse e da ansiedade e sem melhorar as habilidades para lidar com essas questões.

Além disso, o sistema imune exige uma alimentação equilibrada, com minerais, fibras e proteínas, para se manter ativado e funcional. Isso porque o estresse também vai interferir na absorção de vitaminas importantes, como as do complexo B. "Pessoas com estresse crônico geralmente têm carência de vitaminas B5 (que fortalece o sistema imune) e B12 (que ajuda na memória e concentração)", diz Rossi.

Saúde mental em jogo

Estresse e ansiedade mal gerenciados podem virar uma bola de neve, interferindo na saúde mental. Ao potencializar estímulos de corpo e mente, todo o desequilíbrio provocado pela hiperativação do organismo vai influenciar diretamente nas emoções. Essa sobrecarga gera um esgotamento, e toda aquela força inicial estressante vai sendo substituída por desânimo, sonolência, indisposição e falta de atenção.

"Pensamentos de derrota, desesperança, dúvida sobre o próprio rendimento podem acabar corroborando para uma queda até levar à depressão", alerta Calzada.

Além disso, o estresse pode agravar a irritabilidade e a agressividade, interferindo de forma nociva nas relações interpessoais. E por conta de todo esse desequilíbrio, o sono acaba sendo comprometido com um descanso picotado, agitado, possibilidade de pesadelos, despertar prematuro e podendo evoluir para crises de insônia.

Todo o desequilíbrio atrapalha ainda a ativação dos hormônios que promovem a sensação de alegria e bem-estar, como serotonina, endorfina, dopamina e oxitocina. Por isso, segundo a psicóloga Rosa Maria Martins de Almeida, professora associada da UFRGS, gerenciar as emoções é fundamental para manter o equilíbrio. Nessa lista estão: boa alimentação, sono adequado, atividade física e algum tipo de relaxamento. "Ao ser reequilibrado, o organismo vai restaurando suas funções", garante. Até uma caminhada já ajuda o organismo a recuperar sua estabilidade, atingindo o estado de homeostase (um equilíbrio interno).

7 dicas para um bom gerenciamento

Além da caminhada, os especialistas enumeram mais sete dicas que podem ser essenciais no gerenciamento de estresse e ansiedade:

  1. Respiração lenta e abdominal;
  2. Conscientização muscular, para relaxar os ombros, soltar as mãos e aliviar o maxilar;
  3. Meditação, para se manter no momento presente e evitar se angustiar com o futuro;
  4. Supervisão da alimentação e do sono;
  5. Praticar o otimismo e tirar algum aprendizado de todas as situações;
  6. Buscar atividades que dão prazer e, se nada estiver agradando, adotar um bichinho de estimação;
  7. Desconectar um pouco, mas sempre mantendo relações interpessoais.

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