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Em busca do autoconhecimento: será que há um limite de idade para isso?

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Imagem: iStock

Samantha Cerquetani

Colaboração para VivaBem

25/09/2020 04h00

"Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses". A frase usada desde a Grécia Antiga define de forma bastante abrangente a importância do autoconhecimento. Olhar para dentro, conhecer a si mesmo, realizar uma autoanálise dos hábitos e comportamentos são tarefas complexas que podem trazer paz de espírito e felicidade.

Mas será que há um limite de idade para isso? De acordo com os especialistas consultados por VivaBem, o autoconhecimento é importante para todas as faixas etárias.

"Durante a juventude, é comum faltar tempo para buscar se conhecer. É preciso trabalhar, cuidar dos filhos, ser produtivo. Na terceira idade, há a oportunidade para rever essa questão. Mas é importante se preparar para envelhecer e ser mais resiliente com as perdas inevitáveis da vida", afirma Alexandre Kalache, epidemiologista especializado em gerontologia.

Para Juliana Yokomizo, neuropsicóloga do Programa Terceira Idade do IPq (Instituto de Psiquiatria da USP), quanto mais sabemos sobre nós mesmos, mais recursos temos para lidar com as demandas da vida.

"Aumentar o autoconhecimento nos permite analisar nossos padrões de comportamento. Fica mais fácil identificar as emoções e sentimentos provocados por diversas situações e reagir de modo mais assertivo", afirma.

Mas os idosos podem ter mais dificuldade para chegar ao autoconhecimento. Isso ocorre porque os padrões de comportamentos foram alimentados por muitos anos, de acordo com diversas experiências e interações.

"O autoconhecimento é particularmente mais importante na terceira idade, dada a fragilidade dessa pessoa em aspectos físicos e, às vezes, até a eventos emocionais. Pode ser um momento vivenciado por frustrações, limitações, falecimentos e perdas. Nesse sentido, conhecer a si mesmo evita uma queda desnecessária, uma frustração além do limite", destaca Nikolas Heine, psiquiatra do Hospital 9 de Julho, em SP.

Atividades que contribuem com o autoconhecimento

Atualmente, os idosos são bastante ativos, têm acesso à internet e buscam atividades que proporcionam o bem-estar físico e mental. Essa autorreflexão contribui com o conhecimento corporal, seus limites e mudanças de comportamentos.

"A busca por uma identidade própria, livre de rótulos e se redescobrindo como pessoa atuante é cada vez maior entre os idosos. Se reconhecer como cidadão e pertencente ao meio social inclui atividades variadas de acordo com cada perfil. São muitas as opções e não temos mais uma atividade específica para o idoso. Ele pode e deve praticar tudo aquilo que lhe preencher", destaca Claudia Ajzen, coordenadora do curso da Universidade Aberta para Pessoas Idosas (UAPI) da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Para Kalache, todas as atividades voltadas para o bem-estar e autoconhecimento são válidas, desde que sejam genuínas. "O idoso não deve ser forçado a fazer qualquer atividade. Ele precisa ser ouvido, se sentir útil e motivado".

  • Meditação e ioga
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Imagem: iStock

Meditar e praticar ioga trazem diversos benefícios físicos e psicológicos para pessoas idosas. Contribui com o foco, ajuda a manter a calma, diminui o estresse e melhora a qualidade do sono.
Também faz com que o idoso tenha maior maturidade afetiva. Com a prática frequente, ele reconhece e aceita as suas emoções e melhora sua autoestima.

Ao se concentrar em seus pensamentos e sentimentos, além do foco na postura, alcança uma consciência maior de si mesmo. As atividades pregam ainda a importância do momento presente e a de estabelecer uma conexão com corpo, mente e respiração.

"A prática regular da meditação contribui muito para o desenvolvimento da autorrealização —o que está relacionado com o autoconhecimento. Quando uma pessoa está mais focada no seu interior, dá menos importância à opinião alheia, vive mais o presente e tem maior conhecimento sobre si mesma. Além disso, fica menos envolvida a eventos passados ou a inseguranças e medos com o futuro", explica Juliana Brescovici, instrutora de meditação transcendental e fundadora do Instituto Nacional de Meditação.

  • Estudar

Ter o hábito de ler, estudar e aprender algo novo durante toda a vida amplia os conhecimentos e permite a autoavaliação e até contribui com a busca por um propósito ou meta.

"É preciso aprender a aprender constantemente. Hoje há uma ressignificação da velhice e é possível receber informações e interagir por diferentes meios. Nunca devemos parar de adquirir novos conhecimentos e buscar uma atualização em diferentes áreas", completa Kalache.

  • Tai Chi Chuan
Tai Chi Chuan - Yoshikazu Tsuno/AFP - Yoshikazu Tsuno/AFP
Imagem: Yoshikazu Tsuno/AFP

A arte marcial chinesa é milenar e envolve movimentos lentos e respirações profundas. Por isso, proporciona benefícios físicos e emocionais. Pode ser indicada para idosos porque é uma atividade de baixo impacto e também por ajudar no equilíbrio emocional e no desenvolvimento pessoal. Além de melhorar a memória e prevenir quedas.

"Os movimentos são aprendidos por meio da repetição de forma lenta e consciente. A pessoa coloca toda a sua atenção no movimento de maneira plena. Assim, começa a perceber o que tem a melhorar como coordenação motora e foco. Trabalha-se muito a circulação e articulações de forma sistemática e de movimentos de rotação. Por ser uma atividade em grupo, contribui com a socialização e evita o isolamento do idoso", destaca Valéria Sanchez, instrutora de Tai Chi Chuan e diretora do Supremo Centro de Tai Chi Chuan & Cultura Oriental.

Não tenha medo do novo

Independentemente da atividade escolhida, vale ressaltar que começar algo novo traz mais uma vantagem, somada ao aspecto de bem-estar: a estimulação cognitiva. Se permitir fazer algo diferente, provoca o surgimento de novas conexões sinápticas, o que favorece o funcionamento cerebral.

"Receber informações de diferentes eixos possibilita agir, atuar, aumentar o respeito por si mesmo. Interagir nos diferentes meios, presencial e/ou virtualmente, permite que ao conhecer o mundo, conheçamos mais de nós mesmos. Nossos gostos, opiniões e ações se modificam ao longo da vida. Após os 60 anos não é diferente. Sempre podemos conhecer mais e com essas informações sermos seres em processo de construção eterna", afirma Ajzen.

Terapia comportamental é útil nesse processo?

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Não há limite de idade para fazer psicoterapia e os idosos podem se beneficiar bastante. Há diversas abordagens que visam analisar comportamentos, o que inclui pensamentos e sentimentos. Geralmente, é o momento que o idoso olha para si e encara diversas situações —conscientes e inconscientes.

Nessa fase da vida, ainda há muitas mudanças e desafios —perdas de familiares, saída dos filhos de casa, aposentadoria, doenças— e tudo isso pode causar depressão, mexer com a autoestima e com o bem-estar do idoso.

Ao buscar um terapeuta, há a possibilidade de falar sobre os seus medos e adquirir conhecimentos sobre a sua experiência de vida. Além de avaliar o que aconteceu para que ele se tornasse a pessoa de hoje.

"Em suma, psicoterapia promove autoconhecimento e, por isso, quando bem conduzida, é benéfica. Cada pessoa idosa é um ser diferente. Mais ainda, ela carrega muitas décadas de experiências e escolhas únicas. Dessa forma, é fundamental buscar um terapeuta bem preparado para lidar com essas questões e conduzir a terapia de forma eficiente", acrescenta Yokomizo.

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