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Covid: dexametasona reduz tempo de ventilação mecânica em pacientes graves

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Imagem: iStock

Frederico Cursino

Da Agência Einstein

02/09/2020 11h29

O anti-inflamatório dexametasona ajuda a reduzir o período de ventilação mecânica em pacientes graves internados com covid-19. A descoberta consta de um novo estudo da Coalizão Covid-19 Brasil, publicado hoje (2) pelo periódico científico Jama (Journal of the American Medical Association).

De acordo com o estudo, intitulado Coalizão III, portadores do novo coronavírus com síndrome respiratória aguda grave passaram, em média, 6,6 dias fora dos respiradores, quando tratados com o corticoide. Já os pacientes com o mesmo quadro clínico, mas que não utilizaram o medicamento, ficaram quatro dias, em média, sem precisar da ventilação.

Para os autores da pesquisa, os resultados trazem importantes avanços na corrida para a liberação de leitos de Unidades de Terapia Intensiva (UTIs).

"A retirada mais precoce do respirador artificial pode se associar ao menor risco de complicações decorrentes da permanência na UTI, alta mais precoce da terapia intensiva com liberação de leitos e economia de recursos humanos e financeiros, mormente num cenário de escassez como o da atual pandemia", afirmou, em nota, a coalizão formada por oito organizações de saúde (Hospital Israelita Albert Einstein, HCor, Hospital Sírio-Libanês, Hospital Moinhos de Vento, Hospital Alemão Oswaldo Cruz, BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo, BRCI - Brazilian Clinical Research Institute, e BRICNet - Rede Brasileira de Pesquisa em Terapia Intensiva).

O Coalizão III foi o primeiro estudo brasileiro voltado para o uso de corticoides no tratamento da covid-19. O trabalho contou com apoio da farmacêutica Aché, que forneceu os medicamentos, e foi aprovado pela Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa) e pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Segundo a cardiologista Viviane Cordeiro Veiga, coordenadora de UTI da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo e coautora do estudo, a análise contribui para uma revisão realizada pela OMS (Organização Mundial da Saúde), que compilou os dados do Coalizão III e das demais pesquisas que utilizaram corticoides em covid-19, com divulgação também nesta quarta-feira. Os resultados dessa meta-análise demonstraram que a administração de corticoides reduz a mortalidade em pacientes graves.

"Além do bom resultado de menos dias no ventilador, não tivemos impacto negativo, o que é uma preocupação com o uso dos corticoides. Na dosagem aplicada em nossa análise, não houve aumento de infecção secundária nem alterações de glicemia de forma significativa", destaca Veiga.

Como foram feitos os testes

O Coalizão III teve início no dia 17 de abril, com inclusão do último paciente em 23 de junho, e seguimento clínico finalizado em 21 de julho. Foram incluídos 299 pacientes com síndrome respiratória aguda grave submetidos a ventilação mecânica (respiração artificial) em 41 UTIs brasileiras. Os pacientes analisados tinham idade média de 61 anos e cerca de 60% deles eram do sexo masculino.

Por meio de randomização (sorteio), os pacientes receberam dexametasona mais suporte clínico padrão (151 pacientes) ou apenas suporte clínico padrão (grupo controle, 148 pacientes). A dexametasona foi usada por via endovenosa na dose de 20 mg durante 5 dias e 10 mg durante 5 dias, com suporte clínico de acordo com a equipe médica que assistia os pacientes. A avaliação do efeito do tratamento com dexametasona considerou como resultado principal o número de dias que o paciente permaneceu fora do respirador artificial em até 28 dias.

"Estamos vivendo um momento único na ciência brasileira, ajudando a trazer informações científicas que podem demonstrar a eficácia de tratamentos no combate à covid-19, como os corticoides, e trabalhando diretamente no impacto da pandemia aqui e no mundo, a partir das novas diretrizes da OMS", afirma Luciano Cesar Pontes Azevedo, superintendente de ensino no Hospital Sírio-Libanês, coautor do Coalizão III.

O cardiologista Álvaro Avezum, diretor do Centro Internacional de Pesquisa do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e integrante do Coalizão Covid-19 Brasil, destaca a contribuição do estudo para as novas diretrizes da OMS.

"A Coalizão Covid-19 Brasil, importante aliança entre pesquisadores brasileiros, vem conduzindo diversos estudos clínicos randomizados e gerando conhecimento útil para a prática clínica da covid-19. O estudo Coalizão III, demonstra o benefício da utilização de corticoide em pacientes com formas graves da doença, permitindo que os pacientes ficassem menos tempo no respirador artificial. Meta-análise da OMS utilizando dados de vários estudos, incluindo o Coalizão III, demostra que a utilização de corticoide reduz a mortalidade nestes pacientes. Esses resultados, publicados em importante periódico científico reforçam a importância de estudos randomizados robustos neste cenário. Desta maneira, torna-se possível a prática médica baseada em evidências por meio de respostas confiáveis às questões científicas envolvendo a covid-19", ressalta Avezum.

De acordo com os autores, o estudo não foi idealizado para avaliar diferenças de mortalidade entre os grupos. Os pesquisadores ainda ressaltaram que os resultados não são aplicáveis a outras populações, como pacientes ambulatoriais com formas mais leves e iniciais de covid-19, ou mesmo pacientes hospitalizados com covid-19 que não estejam em respiração artificial.

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