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Saúde da mulher


Preta Gil: "Pandemia escancara abusos diários sofridos pelas mulheres"

Do VivaBem, em São Paulo

27/08/2020 11h00

No Conexão VivaBem desta quinta-feira (27), Preta Gil disse que o primeiro momento da quarentena, quando as pessoas ficaram mais confinadas, trouxe à tona o esgotamento mental da mulher, os relacionamentos abusivos e a violência doméstica.

"Ela foi confinada com os filhos e o marido, que normalmente acorda de manhã, vai trabalhar e a deixa com a responsabilidade de cuidar da casa. A gente sabe muito bem que a massa vive essa realidade do homem que fica responsável por prover financeiramente a casa e a mulher fica com a parte da educação", disse. A cantora e empresária apontou que muitas vezes essas mulheres vivem relacionamentos abusivos e que, sem a pandemia, vai jogando a sujeira para baixo do tapete. "Mas na quarentena a violência doméstica aumentou, as pessoas confinadas não têm como escapar".

Preta disse que nem é preciso chegar às relações extremas de agressão física. Abusos diários que a mulher sofre e não percebe também aumentaram. "A violência é muito antes da agressão física, é a agressão psicológica, verbal. Você tira a autoestima dessa mulher diariamente, não apoia ela como mãe. Eu mesma já vivi isso, quando eu via estava triste porque o parceiro criticava minha risada, minha roupa, minha postura", disse. Segundo ela, pelo medo da solidão, principalmente da solidão da mulher preta, aceitam-se essas condições.

"De novo, por uma questão machista, a mulher foi criada para ter medo da solidão. Casamento é um status social, você estar casada, mesmo que seja com um traste, é melhor do que estar sozinha", disse.

Tipos de violências

A psicóloga Elânia Francisca disse que a violência sexual, por exemplo, no imaginário da população, só se resume à questão do estupro com um desconhecido, na rua. Mas o estupro conjugal é mais comum do que se imagina, só é mais difícil de se identificar, porque é cultural da sociedade dizer que as mulheres precisam estar à disposição de seus maridos para o sexo.

"Imagine uma mulher chegar em uma delegacia dizendo que foi vítima de estupro e explicando que estava na cama, seu marido chegou em casa, falou que ia transar com ela e a estuprou. É muito difícil esse relato ter um acolhimento. A gente tem avançado bastante com as delegacias da mulher, mas precisamos avançar mais no que diz respeito ao julgamento com relação às mulheres, ao acolhimento das denúncias", disse.

Francisca apontou que há uma culpabilização dessa mulher e que ela vai introjetando esse sentimento, a ponto de não precisar de mais ninguém para culpá-la, porque ela mesma faz esse trabalho. "Mas eu também não disse não, mas eu disse não e depois eu fiquei quieta", disse a psicóloga. Até quando uma criança é violentada, ela também passa por essa revitimização, já que estão constantemente julgando se ela quis ou não quis.

Segundo ela, isso é facilmente notado ao perceber que muito perguntam por que a criança foi violentada por tanto tempo e nunca contou para ninguém. "Com isso, a gente vai negando direitos, vai fragilizando a saúde mental e vai introduzindo na vítima o lugar de culpada. A pior expressão de fragilização da saúde mental é quando a vítima se sente culpada pela violência que ela sofreu. Vergonha quem tem que ter é o agressor. Responsabilização tem que ser para quem agrediu, não para quem foi agredida", disse.