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Saúde da mulher


Preta Gil: "Fui estudar para me entender e renasci mais preta que nunca"

Do VivaBem, em São Paulo

27/08/2020 15h00

No Conexão VivaBem desta quinta-feira (27), Preta Gil disse que, ao apontar para atitudes racistas e machistas, não se considera "acima do bem e do mal", mas que segue também em um processo de aprendizado e desconstrução.

Ela lembrou de um episódio, em 2016, quando "cometeu duas gafes" em uma palestra sobre empoderamento da mulher negra, em Salvador. "Primeiro, me referi, com a maior naturalidade do mundo, como mulata e veio uma vaia do fundo do teatro, que eu tomei um susto, achei que tinha caído um refletor, que tinha acontecido alguma coisa, nunca imaginei que aquela vaia para mim", disse.

Então, uma grande amiga explicou que a palavra é racista e está enraizada dentro do vocabulário. "Mulatos eram os filhos das mulas, escravas que eram abusadas, estupradas pelos seus donos. Eu fiquei em choque. Isso é mais um exemplo de como o racismo é perverso e como a branquitude foi apagando todos os rastros na nossa nossa vivência como povo preto e foi abafando isso tudo. Na escola não se estuda isso, nunca foi de interesse da branquitude trazer essa desconstrução", disse. "Mas fiquei extremamente envergonhada de não saber aquilo".

Na sequência, Preta usou a palavra "denegrir". "Dessa vez, a vaia veio maior. E é outra palavra extremamente racista, que está dentro do nosso vocabulário e a gente está contestando isso agora. Foi uma ruptura para mim, foi um momento que eu entendi que queria estudar, conhecer mulheres pretas que me ajudassem nessa minha busca pela minha identidade, por entender tudo isso", disse.

A cantora e empresária afirmou que sentiu que era importante falar desse processo e por isso escreveu sua peça Mais Preta que Nunca, que ficou em cartaz no ano passado. "Nessa minha busca eu fui entender sobre o colorismo, sobre a miscigenação no Brasil, que é mais um projeto perverso da branquitude para embranquecer a população brasileira. E aí, quando fui entendendo tudo isso, eu fui me entendendo como mulher mestiça que sou, preta, sim, e e renascida disso tudo mais preta que nunca".

Sem culpa para falar e aprender

A psicóloga Elânia Francisca disse que apontar expressões racistas e machistas deve ser feito sem culpa. Falar e trazer visibilidade para essas questões é importante para evoluir. "Todos nós somos educadores. Não existe essa figura de alguém que vai me educar e eu estou aqui, passivamente, sendo educada. Aprendemos de todos os lados. A música nos educa, a ciência, as relações familiares".

Entretanto, não se deve obrigar alguém ou se sentir obrigado a ensinar, cobrança que recai muito sobre a população negra e sobre as mulheres. "Existem algumas relações educativas que eu não dou conta de estar e que está tudo bem. Outra mulher, outra mulher preta, outra mulher preta de periferia pode querer estar nesse processo de educação. Mas eu não quero, então é importante nós mulheres também tirarmos das nossas costas esse peso de achar que a gente tem que educar todo mundo o tempo inteiro".

Segundo ela, é possível dizer "não estou a fim de educar nenhum homem, não é do meu interesse". "Está tudo bem, existem outras pessoas que podem fazer isso. Você não precisa exercer um papel só porque socialmente aprendemos que devemos fazê-lo", disse.