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Comportamentos compulsivos podem aumentar na quarentena: como reconhecer

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Imagem: iStock

Fernanda Toyomoto

Colaboração para o VivaBem

27/08/2020 04h00

O cenário da pandemia lançou luz sobre comportamentos compulsivos como uma tentativa de lidar com a privação, solidão e ansiedade. É o caso da bancária Priscila Marques, de 25 anos, cuja compulsão por compras está sendo prejudicial. "Logo eu vou a falência: comprei compulsivamente, descontei minha frustração e gastei todo o dinheiro das minhas férias com compras que não tinham nenhuma necessidade", diz Priscila Marques, 25, bancária.

Priscila Marques, 25 anos, bancária, compulsão por compras - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Priscila Marques costumava exagerar nas compras durante a madrugada, quando estava mais sozinha
Imagem: Arquivo pessoal

Apenas durante a quarentena ela já comprou: cadeiras, escova de cabelo elétrica, 8 esmaltes, 24 esponjas de maquiagem, vários kits de shampoos, 2 clubes de assinaturas, sapatos e roupas. Nesse caso, o prazer em consumir é maior que a necessidade de ter aquela mercadoria. O consumo é emocional e não racional, uma gratificação momentânea. "Eu compro para ocupar meu tempo, é como se eu o preenchesse para aliviar o tédio: pesquisando, gerando boletos e comprando. Na maioria das vezes acontece de madrugada, quando meu marido está dormindo", relata Priscila.

Após o comportamento compulsivo, geralmente, há um sentimento de culpa, derivado do arrependimento, seguido da promessa de não efetuar outras atitudes dessa natureza, mas que costuma titubear. "O comprar não é tão bom, é mais a expectativa de receber e abrir o produto. Entre o tempo de compra e o recebimento bate um arrependimento e culpa, porque são coisas fúteis que eu não preciso", afirma a bancária.

Esse tipo de excesso, geralmente, esconde uma sensação de falta que pode ser causada por vazio interior, estresse, ansiedade, incertezas e/ou preocupações. "No cotidiano antes do isolamento social a gente ficava mais anestesiado pelos eventos do dia a dia. Já no isolamento existe uma privação de estímulos, o que nos obriga a entrar nesse lugar de vazio. Pelo desespero, as compulsões surgem para aliviar, momentaneamente, esse mal-estar", diz Paulo Henrique Curi Dias, psicanalista, mestre e doutor em psicologia clínica pela USP (Universidade de São Paulo).

Não são só compras...

Priscila Freitas, 27 anos, publicitária, compulsão alimentar - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Priscila Freitas parou de reconhecer os gatilhos que a levavam a comer durante a quarentena
Imagem: Arquivo pessoal

O comportamento compulsivo também pode se manifestar com o excesso de comida, álcool, entre outros. É o caso da publicitária Priscila Freitas, de 27 anos, que já sofria com a compulsão alimentar antes da pandemia e sentiu o quadro piorar. "A quarentena tem sido uma montanha russa de emoções, antes eu tinha gatilhos, sabia se estava comendo porque estava triste ou se tinha brigado com alguém. No isolamento tudo se juntou e eu não sabia mais o motivo de estar comendo tanto. Parece que gatilho era viver, eu comia o dia inteiro", relata.

Os excessos também podem estar vinculados a uma maneira de tirar a pessoa desse estado de incerteza e instabilidade. "As compulsões acabam sendo um remédio frente ao vazio de sentimentos, mas como ela não atinge as causas, há o risco da pessoa entrar num processo de alienação profunda de si mesma", afirma Curi.

No entanto, há uma diferença entre o comportamento impulsivo e compulsivo. O primeiro engloba quem age por desejo, mas, ao tomar consciência do ato, consegue controlar. Já o outro envolve quem sente que é praticamente impossível frear o ímpeto, mesmo sabendo que não deve cometer aquele excesso. Priscila Freitas mesmo já se pegou comendo macarrão cru, apenas porque precisava comer algo, mesmo que não fosse gostoso.

Como superar o problema?

Nos comportamentos compulsivos, percebe-se uma alienação, um desejo insaciável como uma tentativa de anestesiar o sentimento. Durante o episódio compulsivo, há uma nítida perda de controle, seguida por uma enorme angústia. Por isso, uma forma importante de combater esse tipo de comportamento no cenário atual é compará-lo com a forma que você agia antes do isolamento. " A compulsão é quando você faz algo exagerado e isso te traz sofrimento e culpa", diz Lucila Fernandes de Oliveira, psicóloga do Hospital Geral de Pirajussara em Taboão da Serra (SP).

Isso ajudou Priscila Marques, por exemplo. "Eu tinha muitos códigos de rastreio e várias compras para receber ao mesmo tempo, foi nesse momento que vi que estava caminhando para a compulsão por compras", relata a bancária.

O primeiro passo é reconhecer o problema, o vazio que há por trás dessa compulsão, e então tentar se comunicar com a angústia. Aqui, a psicoterapia pode ajudar, ajudando a resgatar o vínculo que a pessoa tem consigo mesma, como pontua Curi.

Às vezes é necessário também aliar o tratamento psicológico ao acompanhamento com o psiquiatra, que pode indicar medicações para ajudar nesse momento. "Criar uma rede de apoio com amigos e família também é essencial para o tratamento, assim como evitar o excesso de notícias, buscar informações em fontes seguras e introduzir novas rotinas", aponta Fernandes.

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