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Médica está sem olfato há 5 meses por causa da covid-19: "É uma mutilação"

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Abinoan Santiago

Colaboração para VivaBem

24/08/2020 04h00

Médica neurologista e professora da UFPR (Universidade Federal do Paraná), Viviane Flumignan Zétola, 54, testou positivo para o novo coronavírus em 17 de março, quando a pandemia no Brasil ainda nem contabilizava 30 dias após o primeiro caso confirmado.

Cinco meses depois, ela ainda sente sequelas da covid-19 e teme não conseguir mais recuperar totalmente o olfato e o paladar, atingidos pela infecção.

"A perda de um sentido é algo bastante agravante. Por mais que não chame tanta atenção, é algo muito importante para a gente. Não tive internação e falta de ar, mas levar isso para sempre, é como se fosse uma mutilação", analisa.

Nada de sentir cheiro ou gosto

O que Viviane sentiu é chamado de anosmia —perda total do olfato. Isso resultou na ageusia, que é a falta completa de sensibilidade do paladar. Tudo ocorreu de maneira repentina, enquanto a médica tratava da febre e da tosse, sintomas que apareceram três dias depois de chegar de um evento internacional de medicina no Rio de Janeiro, antecedido por uma viagem aos Estados Unidos.

"Isso veio no quarto dia, quando já estava resolvendo a questão da febre. Era um sábado, quando tive a anosmia ao assistir um filme e não conseguia sentir o cheiro da pipoca. Vi que o paladar também mudou muito abruptamente", relata a médica.

"Como isso não estava sendo falado, me chamou atenção. Fui atrás das publicações médicas e vi que se concentrava nos casos mais graves, mas isso porque a maioria dos trabalhos eram de resultados de pesquisas em hospitais e não na comunidade. A literatura melhorou bastante e agora já é considerado um sintoma da covid-19", acrescenta.

De fato, um dos primeiros estudos que associou a perda de olfato à covid-19 foi publicado somente abril, quando a pandemia já atingia severamente a Europa e Estados Unidos. A pesquisa analisou 417 pacientes infectados (263 mulheres e 154 homens) com o novo coronavírus e mostrou que 86% apresentaram anosmia e 88% distúrbios do paladar.

O estudo ainda indicou que quase metade dos indivíduos (44%) recupera a função olfatória em um período bastante curto de 15 dias e "outros pacientes devem manter a esperança" de recuperar o olfato "dentro de 12 meses". Atualmente, a anosmia e ageusia já são consideradas sequelas da covid-19 ao lado de demais problemas de saúde que persistem em pacientes recém-recuperados.

No caso de Viviane, 20 dias depois do início da doença, ela notou uma leve percepção de sabores, sobretudo nos condimentados, significando a progressão do quadro para a disgeusia, perda parcial da gustação. O olfato, contudo, ainda permanecia completamente insensível.

A médica esperou por mais dez dias, quando decidiu realizar o teste de Sniffin Sticks. Ela se submeteu a um exame que busca identificar vários cheiros. Nele, se produz um score de acertos e erros. O resultado dela apontou que já estava com hiposmia, perda parcial da capacidade olfatória.

A hiposmia foi um avanço no quadro clínico de Viviane, mas essa permanência do sintoma no olfato chamou atenção e causa preocupação, pois os demais sintomas estão curados e exames imunológicos apresentam bons resultados de anticorpos ao novo coronavírus. Atualmente, a médica estima que ainda não conseguiu chegar a 50% da capacidade olfatória.

"Comecei a ter uma discreta melhora, mas não chegava nem a 50%, tendo capacidade de sentir o cheiro de apenas essências marcantes, como o café e alho, por exemplo. O paladar melhorou um pouco. Já consigo definir o que é salgado ou doce, mas não o que estou comendo. Como uma mousse, por exemplo, mas não sei se é de limão ou maracujá", conta.

A longevidade da perda do olfato e paladar de Viviane parece ser a mais longa registrada após a infecção por novo coronavírus, pelo menos publicado. O seu autorrelato está na revista internacional Crimson Publishers.

Qualidade de vida afetada

Os sintomas que ainda atingem Viviane causaram pequenas mudanças em sua vida. Ela mora em Curitiba com as filhas, de 19 e 20 anos, e o marido, com quem está casada há 27. Sem conseguir sentir essências, os dois pets das filhas estão se dando bem.

"A minha convivência com os cachorros não era muito boa, preferia que ficassem fora de casa por causa do cheiro, mas hoje, mesmo estando muito próxima deles, não sinto nada mais. Minhas filhas até brincam para eu nunca mais melhorar só para os cachorros continuarem dentro de casa", se diverte.

Viviane Zétola 2 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Viviane Zétola publicou um relato do seu caso em uma revista científica
Imagem: Arquivo pessoal

Viviane não tem o hábito de cozinhar, o que não virou um problema na cozinha. Por outro lado, a ânsia para retornar o paladar, a fez comer mais logo no início. "A minha reação era de experimentar mais coisas que me minha memória lembrasse. Comia e não sentia o gosto, então acabava me alimentando mais para saber se não sentiria o sabor mesmo", lembra.

Como não sentia o gosto nem o cheiro, Viviane recorda que passou por situações curiosas, como ter provado sem querer o que sempre teve aversão: comida apimentada. "Minhas filhas certa vez brincaram comigo. Tenho um paladar e olfato muito forte. Funcionavam muito bem. Quando comia algo, sentia logo se havia pimenta ou não. Uma vez elas me deram uma comida muito apimentada. Só senti que ardeu minha garganta ao engolir. Achei estranho. Pedi mais um pedaço e deu ardência de novo. As meninas começaram a rir porque na verdade era pimenta", recorda a médica.

O lado ruim de perder o olfato, segundo avalia, é não sentir o cheiro das filhas e do marido. "Mudou a relação com os perfumes, por ser algo que estimula muito, como a sexualidade e a libido. Tenho medo [de perder o olfato para sempre]. Sinto muito a falta de sentir o perfume da pele do meu marido, aquilo nos aproxima. Acho que o resto não importa", lamenta.

Como o coronavírus pode causar a perda do olfato

Para entender como o novo coronavírus afeta a sensibilidade olfatória, primeiro é preciso compreender como o sistema funciona. Existem dentro da mucosa nasal neurônios do sistema nervoso responsáveis por captar diversos tipos de essências e levá-las ao cérebro para identificá-las como um cheiro previamente já armazenado na memória.

Como o novo coronavírus está dentro da gama de infecções respiratórias, é capaz de apresentar um neurotropismo, habilidade de atingir o sistema nervoso. Somado a isso, por ser um vírus que pode penetrar por vias aéreas, a mucosa do nariz tende a sofrer lesões em seus nervos olfatórios.

A anosmia de forma mais leve também acontece quando a gripe é diagnosticada, mas no caso do coronavírus, o sintoma ocorre mesmo sem o comprometimento respiratório, congestão nasal ou coriza.

"O mecanismo pelo qual a anosmia acontece ainda não está tão claro. Existem algumas teorias. A mais forte é a de que o coronavírus afeta as células de sustentação do neurônio olfatório, que ajudam a transformar esse sinal químico em informação para o cérebro. A principal teoria é de que a lesão afeta essas células, em grau mais intenso ou menos intenso", explica Fabrizio Romano, otorrinolaringologista e presidente da Academia Brasileira de Rinologia.

O ataque do coronavírus aos nervos responsáveis, segundo a otorrinolaringologista Carla Rogenski, é chamado de tropismo viral —propensão de um vírus de infectar uma célula. "Os vírus, de maneira geral, gostam dos nervos, o que se chama de tropismo. São atraídos para os nervos, especial os respiratórios porque os filetes do nervo olfatório ficam na própria mucosa nasal, no topo de cavidade, que tem compartimentos e o topo é destinada ao olfato. Ali, todo o revestimento é especializado na captura das partículas e apresentação ao neurônio para que seja reconhecido e armazenado. Quando o vírus penetra a cavidade, ele tem diversas possibilidades de lesão", esclareceu a médica, que assina com Viviane a publicação sobre o caso da colega.

Um estudo da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, publicado na revista científica European Respiratory Journal, ajuda a compreender esse processo. A pesquisa se debruçou em analisar tecidos da parte de trás do nariz e conseguiu identificar níveis altos de uma enzima no elemento responsável pela captação do cheiro.

Chamada de ACE-2, a enzima é considerada "ponto de entrada" para o vírus infectar uma célula. "Essas células [olfatórias] tem os receptores, a ACE-2. Isso seria o elo mais vulnerável ao olfato", corrobora a médica Carla Rogenski.

Anosmia - info - Arte UOL/iStock - Arte UOL/iStock
Imagem: Arte UOL/iStock

E o paladar, como é afetado?

O gosto dos alimentos depende de dois elementos: da gustação e do cheiro. Em razão disso, especialistas apontam que a ageusia (perda completa do paladar) ou disgeugia (perda parcial) são consequência da inexistência da sensibilidade olfatória.

"Temos doce, salgado, amargo, azedo e umami. Todo o resto do sabor é dado pelo olfato. Por isso quando as pessoas perdem o olfato, acreditam que também perderam a gustação, mas, na verdade, não. O coronavírus tem uma característica, na maioria dos pacientes, a lesão é apenas olfatória, apesar de alguns casos raros que afetam os dois", afirma Romano.

Recuperação lenta

Na maioria dos casos de infectados por um vírus, a recuperação do olfato acontece de maneira gradual ao sumiço de demais sintomas e, dependendo do grau da lesão nas células olfatórias, o retorno pode durar semanas.

Uma característica da anosmia é o retorno gradual. Apesar de atingir o paciente de forma abrupta, a recuperação não ocorre de uma hora para outra. Nos recuperados da covid-19, esse processo apresenta uma demora e o paladar é recuperado paralelamente e proporcionalmente à volta do olfato.

"Estamos vendo outros casos sem melhora por meses. Imaginamos que essa lesão foi tão intensa que acabou danificando o neurônio de forma mais abrupta", comenta Romano sobre o caso da médica Viviane Zétola.

O médico explicou que a melhor maneira de acelerar a recuperação é procurar um especialista para receber prescrição de medicamentos e exercícios que estimulem a habilidade do olfato: "Não podemos garantir que volte ou não, mas há tratamentos que auxiliam neste processo. Há medicamentos desinflamatórios e antioxidantes e treinamentos olfatórios. É quase como uma terapia, mais a longo prazo. Aos poucos vai melhorando", explica.

Se o olfato não aparecer após a cura dos demais sintomas da covid-19, o tratamento especificamente com remédios dura entre três e nove meses. Já o exercício diário dos sentidos olfatórios busca sentir o cheiro de essências que já estão armazenadas na memória.

"Há chances de retornar porque a recuperação dos nervos é lenta mesmo. Em geral, com três meses se recupera o olfato. Quando isso não acontece, precisamos investigar outras possibilidades. Em um ano e meio, seria o prazo para sabermos [se recupera ou não]. É um vírus novo ainda. Não temos muita informação sobre este aspecto", aponta Rogenski.

Enquanto o olfato não é recuperado, especialistas alertam para os cuidados com a segurança da pessoa sem a sensibilidade de identificar cheiros, como instalação de dispositivos de vazamento de gás de cozinha e atenção para etiquetar alimentos para saber se ainda estão na validade, o que reforça a preocupação com a covid-19 mesmo após a cura viral.

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