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SP: hospital público permite visitas de despedida a pacientes com covid-19

Morsa Images/IStock
Imagem: Morsa Images/IStock

Cristiane Bomfim

Da Agência Einstein

18/08/2020 10h39

Desde fevereiro a covid-19 tem adoecido milhares de brasileiros. Pelo alto risco de contágio, muitas vezes seu tratamento e recuperação são solitários. É quase regra nos hospitais que pacientes com diagnóstico positivo para a doença não recebam visitas durante a internação. O controle é ainda mais rígido nas Unidades de Terapia Intensiva (UTI) e não é incomum a morte sem que familiares possam se despedir.

Para minimizar a angústia dos parentes mais próximos e facilitar o processo de luto, o Hospital M'Boi Mirim - Dr. Moysés Deutsch, hospital público referência no tratamento de pacientes com covid-19 no município de São Paulo, tem facilitado as visitas a estes doentes.

A iniciativa surgiu logo no início da pandemia como resposta ao drama do distanciamento social no contexto de vida e morte. "Começamos a pensar em como oferecer assistência digna e um suporte adequado nesse momento. Definimos algumas medidas, como as vídeo-chamadas para as famílias conseguirem ver os pacientes e, quando fosse possível, trazer alguns parentes para cá", explica a psicóloga Amanda Caroliny Santos, de 26 anos.

As visitas presenciais para despedida são liberadas aos familiares mais próximos e que não estejam no grupo de risco (idosos, pessoas com doenças crônicas, pacientes em tratamento oncológico).

"A gente senta com a família e com a equipe médica para explicar um pouco da evolução do quadro e falar do possível desfecho", diz a psicóloga do M'Boi Mirim. A chegada ao leito requer preparo e uso dos Equipamentos de Proteção Individual (EPI's): antes da visita, os familiares se paramentam com máscara, avental, luvas, gorro e óculos de proteção.

Nos casos mais graves, os pacientes estão intubados, inconscientes e sedados. "Tivemos casos de filhos adolescentes que queriam ver o pai ou a mãe para se despedir e dizer alguma coisa importante para eles. E quando ligamos para eles para comunicar o óbito, eles agradecem por terem tido a chance de verem seus pais pela última vez. Então tem sido muito positivo, apesar de difícil", diz a psicóloga.

Até o início de agosto, o hospital atendeu mais de 3.000 pacientes com suspeita clínica ou confirmada de covid-19. Diariamente, eles são avaliados quanto a elegibilidade para acompanhamento por uma equipe multidisciplinar de cuidados paliativos - que consiste em um conjunto de práticas para prevenir e tratar o sofrimento de pacientes em situações em que existe uma doença que ameace a vida.

São cerca de 20 profissionais entre médicos, enfermeiras, psicólogas, fisioterapeutas e assistentes sociais que trabalham juntos para oferecer conforto aos pacientes e seus familiares.

É o caso da enfermeira Andrea Carneiro, de 50 anos. Originalmente colaboradora da unidade Morumbi do Hospital Israelita Albert Einstein, pediu transferência temporária para o M'Boi Mirim.

"Eu queria contribuir de uma forma efetiva. Somos treinados para salvar vidas. Mas não estamos preparados para lidar com o momento em que percebemos que o paciente não vai se beneficiar do tratamento. Como cuidar do paciente de uma forma ótima e com compaixão com todos os envolvidos?", afirma. Ela lembra do baque que teve quando entrou na UTI do hospital pela primeira vez e viu 20 pessoas intubadas. "Isso choca. É uma doença muito grave".

Tele Visita pode ter afeto

Todos os dias, quando chega em casa a psicóloga Thais Peixoto Maldonado, de 31 anos, escreve em um diário eletrônico a história das famílias dos pacientes que fizeram uma visita virtual - por meio de tablets ou celulares - ou presencial a pacientes em estado grave.

"É uma das formas que encontrei para me recuperar do que aconteceu no trabalho", confessa ela que já perdeu as contas de quantas visitas de despedidas por covid-19 acompanhou nos leitos do M'Boi Mirim: "mais de 20 com certeza".

Especialista em luto e com formação em cuidados paliativos, a psicóloga conta que entender a importância das visitas por vídeo chamadas foi difícil. "A pandemia mudou tudo. Mudou a forma como nos relacionamos e nos despedimos das pessoas. Eu não conseguia entender como era possível que estas chamadas tivessem afeto. Mas a cada visita, isso mudava. Era a única forma que muitas famílias tinham de estar perto do paciente e elas preenchiam o vazio da distância, do medo e da solidão. E isso fazia muito sentido".

Thais conta que, apesar da tristeza de acompanhar despedidas, o trabalho tem ajudado com que ela se aproxime da fé. "Eu estou mais perto do que acredito e aprendo todos os dias com essas histórias. Cada família tem uma história, um jeito de lidar com a situação. E meu trabalho me dá a oportunidade de oferecer um cuidado a estas pessoas", conta ela que para relaxar tem preferido caminhada com os dois cachorros e ouvir músicas animadas, de preferência samba e forró.