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Cancelamento virtual: como essa atitude pode afetar a saúde mental

Arte UOL
Imagem: Arte UOL

Priscila Carvalho

Do VivaBem, em São Paulo

17/08/2020 04h00

Gabriela Pugliese, Mc Gui, JK Rowling, Paola Carosella... O que eles têm em comum? Todos foram cancelados alguma vez pela internet.

A pauta nunca esteve tão em alta quando o assunto é boicotar determinada pessoa por ela ter sido mal interpretada ou feito ou dito algo ruim diante das redes sociais. E isso não acontece apenas com famosos: pessoas anônimas também podem ter a vida prejudicada devido ao cancelamento. Basta alguém apertar o botão publicar, esperar alguns segundos e a vida de outra pessoa poderá ser comprometida por meses e até anos.

A cultura do cancelamento, principalmente na internet, tem a ver com a intolerância e a incapacidade de lidar com o diverso e de ser confrontado. "A pessoa avalia, julga e critica diante de um contexto isolado e, a partir daí, cria-se uma imagem completa daquele episódio", explica Stanley Rodrigues, psicólogo da BP - A Beneficiência Portuguesa de São Paulo.

"Passada de pano"?

Diante do debate, há quem defenda que pessoas que postem coisas consideradas erradas mereçam, sim, ser canceladas e nunca mais voltarem a ter espaço na internet. Mas será que cabe a nós esse tipo de juízo? A resposta é não.

Claro que se uma pessoa fizer uma postagem ofensiva com cunho racista, por exemplo, não devemos achar que é normal ou que está tudo bem, mas cabe à justiça fazer o papel dela. "A discussão jurídica nas mídias sociais ainda é muito recente. Por isso muitas vezes não dá tempo de acompanhar determinado fato, ocorre tudo muito rápido", reforça Rodrigo Martins Leite, psiquiatra do Instituto de Psiquiatria da USP (Universidade de São Paulo). Mas, segundo o especialista, deve-se criar e pensar em políticas públicas eficientes sobre o tema.

Posts ofensivos podem ser denunciados para as próprias plataformas, além de delegacias que cuidam de crimes digitais. "Quem nunca errou, que fale algo. Não devemos fazer justiça com as próprias mão, nem sair propagando o ódio por aí", afirma Rodrigues.

Além disso, é saudável debater e problematizar o que as pessoas dizem: mas por que não lhes dar uma chance de aprender com esse erro, antes de boicotá-las online?

Debate x linchamento social

Segundo os especialistas, a palavra diante de tudo isso é reflexão. Será que vale a expor determinada pessoa para obter uma sensação de prazer ou sentimento de justiceiro ou de dever cumprido? "Esses cancelamentos são com figuras tão distantes, então que pelo menos sirva de uma reflexão para si, se colocar no lugar do outro para determinadas situações", reforça Ana Suy Sesarino Kuss, psicóloga e professora do curso de Psicologia da PUCPR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná).

O que tem acontecido frequentemente vai além do debate, se tornou um linchamento virtual e até uma espécie de cyberbullying nas redes sociais. Não é porque a pessoa é famosa, que dá direito a ser massacrada, sofrer xingamentos e julgamentos alheios.

Rodrigues reforça que esse tipo atitude não tem a ver somente com a divergência de opiniões, mas sim com a violência e agressão verbal no mundo virtual. "Tem pessoa que se intitula hater, que está ali justamente para provocar, causar situações polêmicas. Ela alcança milhares de pessoas e se favorece diante de algo negativo", afirma.

Foi o caso da influencer Alinne Araújo, que foi abandonada pelo noivo um dia antes do casamento e, para não perder a festa, resolveu se casar com ela mesma. Resultado: haters e alguns seguidores não a perdoaram e disseram que ela queria se promover, chamar atenção. Os ataques foram diversos e, depois de alguns dias, ela cometeu suicídio.

Um outro caso recente ocorreu nos Estado Unidos, onde um homem foi "cancelado" e acusado de fazer um sinal usado por supremacistas brancos. Ele não teve muito tempo para se defender ou tentar entender aquela situação. Uma pessoa jogou o nome da empresa dele nas redes, o que fez com que o americano perdesse o emprego e fosse ignorado pelos antigos chefes. No final foi comprovado que ele só estava estalando os dedos e o que o sinal era muito semelhante ao de "ok". Hoje, ele faz acompanhamento constante com psicólogos e não tem uma vida normal.

"Virou uma guerra virtual", afirma Leite. O especialista reforça que o melhor nesses casos, é conscientizar. "Se for uma pessoa próxima tente mostrar que o que ela fez não foi legal, não foi benéfico, soou errado. Se for uma pessoa pública, não precisa ficar repostando tudo que ela fez de errado", reforça.

Saúde mental abalada

Os constantes xingamentos e exposições típicos da cultura do cancelamento podem gerar problemas físicos e principalmente emocionais. Há pessoas que terão marcas pelo resto da vida e dificilmente terão uma rotina normal.

O que acontece muitas vezes é uma reclusão, tristeza, ansiedade e até depressão. "A pessoa pode até perceber que errou e reconhecer isso, mas nunca mais será a mesma e terá que sempre se policiar em relações às suas atitudes, gerando ainda mais sintomas de ansiedade", afirma Rodrigues.

Nesses casos, será necessário um acompanhamento com médicos e psicólogos que vão estabelecer um melhor caminho e tratamento para cada indivíduo. Para algumas pessoas, o tratamento terá que ser à base de remédios, além de consultas periódicas com psicoterapeutas. Já em situações extremas, a volta para a rede social pode ser quase impossível.

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