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Vítima da meningite, Pedro teve que amputar os braços e as pernas

Bárbara Therrie

Colaboração para VivaBem

16/08/2020 04h00

No dia 11 de setembro de 2009, o palestrante e escritor Pedro Pimenta, 29, passou mal e achou que fosse uma forte gripe. Ao acordar de um coma seis dias depois, ele descobriu que tinha contraído uma meningite bacteriana. Em estado grave e com menos de 1% de chance de sobreviver, ele teve que amputar os braços e pernas aos 18 anos. Nesse depoimento, ele conta como se adaptou às próteses, seu trabalho com amputados e como se tornou um ativista em prol da prevenção contra a meningite.

"Como de costume, toda sexta-feira depois do cursinho, e eu meus colegas íamos almoçar fora. Naquele dia, fomos comer em um restaurante japonês. Durante o almoço, comecei a passar mal, parecia que tinha comido algo que não tinha caído bem. Fui para casa e o mal-estar só piorou ao longo do dia. Tive vômitos, dor no corpo, dor nos braços e nas pernas, febre, confusão mental e sonolência.

Inicialmente, achei que fosse uma gripe forte ou dengue. Passei o dia em casa tentando descansar e tomando analgésico.

Fui ao hospital, mas o médico me mandou de volta para casa

À noite, alguns amigos e familiares estavam reunidos em casa comemorando o aniversário do meu irmão do meio. Estava deitado no sofá muito fraco. Meu irmão percebeu que não estava bem e me levou ao hospital mais próximo, em Barueri (SP).

Chegando lá, o médico só fez um exame clínico, me deixou em observação tomando soro e me mandou de volta para casa. Não me deu nenhum diagnóstico e disse que era para eu voltar caso piorasse.

Por meningite, Pedro Pimenta teve que amputar os braços e as pernas - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Voltei para casa e, durante a madrugada, piorei muito. Acordei confuso, sem conseguir me mexer, apareceram manchas roxas nos meus braços e nas minhas pernas. Chamei meu irmão e minha cunhada, que é médica. Na hora que ela me viu, começou a gritar dizendo que era meningococcemia. Meu irmão me levou ao mesmo pronto-socorro, mas chegando lá, fui transferido para um hospital em São Paulo.

A última lembrança que tenho é a dos meus irmãos chorando e a porta da ambulância sendo fechada. Após isso, apaguei e acordei seis dias depois. Cheguei ao hospital com infecção generalizada, meu quadro era gravíssimo.

Os médicos deram menos de 1% de chance de eu sobreviver, e instruíram minha família e meus amigos a se despedirem de mim.

Eles fizeram orações e se mobilizaram para me doar sangue. Acordei do coma no sexto dia. Tive várias alucinações, não sabia distinguir o que era sonho da realidade.

Aos poucos, fui entendendo melhor minha situação. Meu padrinho, que é médico, me explicou que tinha contraído a meningite meningocócica. Quando criança, tinha tomando as vacinas A e C da meningite, mas não a B. Perguntei por que meus braços e minhas pernas estavam enfaixados. Ele disse que a bactéria tinha se espalhado pela corrente sanguínea e que esses membros estavam mortos, necrosados e que, provavelmente, teria que amputá-los.

Fiquei aterrorizado com essa informação, mas também não aguentava mais ficar em cima daquela cama sentindo dor. Implorei para que eles amputassem, queria ficar bem e voltar para casa. Já tinha sido curado da meningite, mas fiquei com graves sequelas.

Vi que meu corpo tinha mudado

Após um mês internado, peguei uma infecção hospitalar e os médicos decidiram amputar, mas disseram que dificilmente sobreviveria a uma cirurgia de quatro amputações. Voltei a ter menos de 1% de chance de novo. Nessa hora bateu o medo e o desespero, sabia que estava próximo da morte. Após a cirurgia, me colocaram em coma induzido por duas semanas.

Quando acordei, vi que meu corpo tinha mudado. Os dois braços acima dos cotovelos e as duas pernas acima dos joelhos tinham sido amputados. Foi um choque de realidade e de identidade me ver daquele jeito.

Por meningite, Pedro Pimenta teve que amputar os braços e as pernas - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Fiquei deprimido pensando que minha vida tinha acabado, sem perspectiva e sem ideia de como era a rotina de um amputado. Tive que aprender a aceitar o meu novo eu.

Fiquei cinco meses internado. Os primeiros meses foram muito difíceis, vivi um dia de cada vez. Minha reabilitação foi intensa, fazia fisioterapia todos os dias e hidroterapia duas vezes por semana. Meus amigos e familiares me visitavam diariamente, tive sorte de ter uma rede de apoio tão forte.

Passado o medo de morrer, precisava saber como seria minha vida dali para frente. Em uma das conversas com os médicos, eles disseram que teria que usar a cadeira de rodas e não seria uma pessoa 100% independente. Segundo eles, não me adaptaria às próteses de braços, e não conseguiria dar mais do que 15 passos com as próteses das pernas.

Um mês após a amputação, assisti a um show da maca do hospital dentro do estádio

Ainda estava me recuperando —fazia apenas um mês da amputação—, quando manifestei aos médicos a minha vontade de ir ao show do AC/DC no estádio do Morumbi (SP). Sou muito fã da banda. Insisti com eles e consegui uma alta hospitalar de duas horas para ir ao evento. Fui de ambulância e acompanhado de alguns familiares e de vários profissionais do hospital, infectologista, enfermeira, técnico de enfermagem, fisioterapeuta, clínico geral e psicólogo. Assisti ao show da maca do hospital na arquibancada.

Por meningite, Pedro Pimenta teve que amputar os braços e as pernas - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Foi incrível, ria e chorava, foi a primeira vez que percebi que poderia ser feliz, não importavam as circunstâncias. Não precisava ter meus braços e minhas pernas para ser feliz. Poderia continuar vivendo sem ser um coitado.

Passei o Natal, o Ano Novo e o meu aniversário de 19 anos no hospital. Recebi alta em fevereiro de 2010.

Ao voltar para casa, minha mãe se tornou minha principal cuidadora. Ela me ajudava em todas as atividades, a comer, escovar os dentes, tomar banho, trocar de roupa. Apesar da minha falta de independência, tive maturidade e pragmatismo em focar no que ainda dava para fazer e procurava ocupar a minha mente.

Ia para a reabilitação e dava o meu melhor na fisioterapia. Ao chegar em casa, estudava e produzia música eletrônica, me sentia produtivo e tinha a sensação de que conseguia fazer algo bem feito mesmo com os membros amputados.

Três meses após a alta, adquiri meu primeiro par de próteses das pernas. Encaixava no molde e andava em cima dele. O segundo passo foi conseguir as próteses dos braços. Na época, no Brasil só havia mão biônica e cada uma custava cerca de R$ 100 mil.

Entrei em contato com clínicas dentro e fora do país, conversei com outros amputados e soube de uma empresa em Chicago, nos Estados Unidos, que comercializava próteses mecânicas dos braços, que eram mais rudimentares e mais baratas. Comprei a prótese e, aos poucos, conquistei a minha autonomia. Me adaptei bem às próteses superiores, mas as inferiores estavam muito ruins em termos de dor e mobilidade.

Achei na internet o vídeo de um rapaz nos EUA, que tinha sofrido um acidente de trem e tinha amputado as duas pernas e um dos braços. Ele usava uma prótese com a qual conseguia fazer tudo, andar, dirigir, sentar.

Entrei em contato com a empresa que fornecia as próteses que o rapaz usava e conheci o trabalho deles. Participei de um treinamento de 20 dias sem cadeira de rodas. Treinei com dois veteranos de guerras. Os responsáveis pela empresa falaram para eu voltar para o Brasil, não usar a cadeira de rodas nesse período e me desenvolver sem ela.

Me disseram que se conseguisse, era para voltar para os EUA para viabilizar a aquisição das próteses deles. Fiz isso e no tempo determinado voltei. Me tornei palestrante e garoto-propaganda dessa companhia e, em troca, ganhei as próteses das pernas, com joelhos e pés.

Me mudei para os EUA em busca da minha independência

Ao longo dessa experiência, percebi que nunca ia ser totalmente independente se continuasse morando com a minha família. Era tanto amor e cuidado, que eles não me deixavam fazer tudo sozinho. Era grato a eles, mas precisava buscar minha autonomia.

Foi quando, em janeiro de 2012, decidi me mudar para a Flórida. Continuei trabalhando para a empresa e entrei na faculdade de economia. Após voltar a andar e a dirigir, estabeleci novos desafios e comecei a correr, pratiquei snowboard e participei de provas de triatlo.

Por meningite, Pedro Pimenta teve que amputar os braços e as pernas - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Além de viajar os Estados Unidos todo fazendo palestras e treinando amputados, iniciei um trabalho voluntário em uma ONG com crianças amputadas por causa da meningite. Fiquei com as sequelas da doença, mas tive o privilégio de ter uma infância e adolescência normal até os meus 18 anos. Elas não tiveram essa chance.

A partir daí, comecei a trabalhar na Associação Nacional de Meningite dos EUA, fazendo palestras e falando da importância da prevenção e da vacinação contra a doença. Em 2014, lancei o livro "Superar é Viver", em que conto a minha história. Em 2017, conheci minha noiva brasileira durante uma visita dela a amigos nos EUA, e decidi dividir a minha estadia entre os dois países.

Ao longo dessa jornada, percebi que a minha história não era apenas sobre mim, mas sobre um grande propósito. O meu propósito é trazer força, inspiração e esperança para as pessoas. É mostrar como é possível transformar um sofrimento em sorriso, alegria e superação. No meu Instagram (@pedropimentalife), compartilho o meu dia a dia, dou dicas para amputados e falo sobre a meningite.

Após tudo que vivi, meu objetivo é pegar toda a experiência e bagagem que adquiri lá fora e contribuir com o meu país. Tenho dois grandes sonhos: que a meningite seja erradicada no Brasil através da vacinação, e mudar a forma como o amputado é visto e reabilitado no nosso país, quebrando paradigmas e dando a essas pessoas a possibilidade de elas terem uma vida normal e independente dentro da sociedade".

9 perguntas sobre meningite

1) O que é meningite?
Meningite é o nome que se dá às infecções que atingem as meninges, que são membranas que revestem o cérebro e a medula espinhal. As meningites podem ser causadas por diversos agentes infecciosos como bactérias, fungos, vírus e alguns parasitas.

As meningites bacterianas costumam apresentar um quadro clínico mais grave e podem ocasionar surtos e epidemias. Agentes bacterianos, tais como, o meningococo (Neisseria meningitidis), pneumococo, Haemophilus e tuberculose, são exemplos conhecidos e para os quais há vacinas disponíveis. A meningite meningocócica pode ser causada por diferentes tipos do meningococo, classificados de acordo com estruturas da cápsula que reveste a bactéria. Os sorogrupos A, B, C, W e Y são os mais frequentes.

A maioria das meningites são de transmissão aérea, ou seja, por meio de gotículas eliminadas através da fala, espirros ou tosse. Além disso, o beijo e compartilhamento de copos ou talheres também estão relacionados à transmissão.

2) Quais os sintomas?
Os sintomas iniciais da meningite são febre, irritabilidade, dor de cabeça, perda de apetite, náusea e vômito, e podem ser confundidos com outras doenças infecciosas, como a gripe, por exemplo. Em seguida, o paciente pode apresentar rigidez na nuca, sensibilidade à luz e a piora do quadro neurológico pode se manifestar como sonolência, torpor e coma.

Caso apresente os sintomas, o indivíduo deve procurar um atendimento médico o mais rápido possível. A doença caracteriza-se por possuir um início abrupto e evolução rápida. Se não for tratado rapidamente, o quadro pode evoluir para confusão mental, convulsão, sepse, choque, falência múltipla de órgãos e risco de óbito.

3) Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico inicial da meningite é clínico, feito por exclusão de outras doenças, já que os primeiros sintomas são muito inespecíficos. O diagnóstico laboratorial é realizado a partir da análise de amostras do líquor (líquido que recobre o cérebro e a medula espinhal), onde alterações bioquímicas e celulares evidenciam o quadro inflamatório.

4) Como se prevenir da meningite?
A principal forma de prevenção contra a doença é a vacinação, bem como evitar aglomerações e manter os ambientes ventilados e limpos. As meningites são doenças potencialmente graves. As vacinas disponíveis contra os agentes infecciosos reduzem o risco de adoecimento de forma significativa.

Existem vacinas para a prevenção dos cinco sorogrupos mais comuns do meningococo no Brasil: as vacinas contra a meningite meningocócica causada pelo tipo B e as vacinas contra os tipos A, C, W e Y. A vacina contra os tipos A, C, W e Y, por exemplo, é recomendada nos calendários das sociedades médicas a partir dos três meses de idade e para adolescentes. A vacina para a prevenção da meningite meningocócica causada pelo tipo B é recomendada a partir dos três meses de idade.

Nos postos de saúde, a vacina contra a doença causada pelo meningococo C é disponibilizada para crianças menores de cinco anos de idade e adolescentes de 11 a 12 anos.

5) Quais sequelas a meningite pode deixar?
Mesmo quando a doença é detectada precocemente e tratada de maneira adequada, de 10% a 20% dos pacientes sofrem com danos cerebrais, perda auditiva ou dificuldade de aprendizado. A doença pode ser fatal. Estima-se a ocorrência de pelo menos 500 mil casos de doença meningocócica por ano no mundo, com cerca de 50 mil óbitos.

Há casos em que é necessário amputar membros. As amputações de extremidades ocorrem devido ao quadro de meningococcemia, ou seja, disseminação do meningococo pela corrente sanguínea. Este quadro infeccioso generalizado pode ocasionar fenômenos trombóticos que culminam com obstruções arteriais. Não há predileção por membros, elas podem ocorrer nos dedos, artelhos, pés, pernas, mãos ou braços.

6) Qual o tratamento para a doença?
O tratamento para a meningite varia de acordo com a causa. Além das medidas de suporte, antibióticos podem ser indicados. Para isso é importante termos o diagnóstico preciso e, se possível, cultura microbiana e testes de sensibilidade aos antibióticos.

7) A meningite atinge qual faixa etária?
As meningites bacterianas, de uma forma geral, atingem predominantemente crianças com menos de cinco anos e, principalmente, lactentes, mas ela pode afetar qualquer pessoa, em qualquer idade.

8) A doença tem cura?
Uma vez diagnosticada rapidamente e iniciado o tratamento adequado, a maior parte dos pacientes pode se curar totalmente. Entretanto, mesmo com tratamento correto, a doença tem alta letalidade e pode deixar sequelas.

9) Há dados de casos de meningite no Brasil?
A meningite meningocócica é a principal causa de meningite bacteriana no Brasil. Casos desse tipo são esperados ao longo de todo o ano no país. Segundo dados do Ministério da Saúde, em 2019 foram registrados 1.037 casos no país. O desafio maior da doença é o diagnóstico precoce, já que os sintomas são inespecíficos como os de uma virose. Então, a forma mais eficaz de preveni-la é com a vacinação.

Fonte: Jessé Reis Alves, infectologista e gerente da área de vacinas da GSK.

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