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Medo é contagioso, mas também protetivo: entenda quando se torna excessivo

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Simone Cunha

Colaboração para o VivaBem

04/08/2020 04h00

Já reparou como o medo de alguma coisa costuma ser contagioso? Um bom exemplo foi o início da pandemia de coronavírus: a sensação de ter controle sobre tudo cedeu lugar à vulnerabilidade de ser contaminado pelo covid-19. E, talvez, um dos grandes desafios na primeira fase foi não se deixar contaminar pelo medo excessivo. "Afinal, o medo é uma das aprendizagens que funciona de maneira vicariante", diz o pesquisador Wanderley Codo, professor titular aposentado do Departamento de Psicologia da UnB (Universidade de Brasília). Ou seja, o ser humano aprende por meio da observação dos atos e consequências do outro e, portanto, fica muito difícil não sentir algum temor ao acompanhar o número de óbitos por conta do vírus.

No entanto, o medo não pode ser visto como algo negativo. Ao contrário, é ele que nos condiciona nos proteger de ameaças. No caso do coronavírus, a respeitar a quarentena e usar máscara, por exemplo. Por isso, o psiquiatra Felipe Corchs, do Programa de Transtornos de Ansiedade do Ipq - HC/FMUSP (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) confirma que sentir medo em períodos como esse é uma maneira para se preservar e evitar a doença.

O medo que se espalha

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Mas por que sentimos mais medo quando estamos próximos de pessoas assustadas? "Somos altamente influenciáveis e imitativos, por isso as falas sobre a doença ou a convivência com alguém mais temeroso pode nos fazer sentir mais medo, ele realmente contagia", confirma a docente Paula Regina Peron, doutora em psicologia clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).

Em um estudo realizado pela pesquisadora Lilianne Mujica-Parodi, em 2009, foi identificada a existência de feromônios de alarme humano. A equipe coletou amostras de suor de 144 pessoas que estavam prestes a experimentar um salto duplo pela primeira vez, e depois coletaram seu suor após correrem em uma esteira. Na sequência, os dois conjuntos de amostras foram apresentados a outros sujeitos, usando exames cerebrais de ressonância magnética para ver como reagiram aos feromônios em tempo real. O 'suor do medo' desencadeou atividade nas amígdalas (pequena estrutura cerebral que é conhecida por ser crítica na implantação e gerenciamento de resposta ao medo) desse novo grupo, enquanto o suor do exercício não.

Ressignificando o temor

Ainda hoje o momento de pandemia tem despertado temores diversos sobre a morte, o desemprego, a solidão, as dificuldades financeiras, as perdas afetivas, os sofrimentos físicos, entre outros, e não podem ser subestimados. "Não devemos demonizar o medo, fugir ou negar, mas interpretá-lo. Nossos instintos de sobrevivência foram acionados e isto é importante para que possamos agir de acordo com a exigência da situação", alerta a psicóloga Marcia João Pedro, Mestre em Gestão da Clínica pela UFSCar (Universidade Federal de São Carlos).

Portanto, o medo não é uma armadilha nessa fase, mas o risco é permitir que a antecipação dos fatos provoque pânico e nos impossibilite de agir de forma produtiva e eficaz no enfrentamento da situação real. E para enfrentar é essencial sair da zona de conforto, mudar hábitos, renunciar a alguns desejos em prol da preservação da nossa vida e dos nossos semelhantes.

E se virar patológico?

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O medo não é algo naturalmente patológico, mas pode se tornar. Ele pode se manifestar como uma simples prudência, cautela e passar para o nível do alarme, uma ansiedade, até atingir um nível de pânico ou terror. Portanto, são considerados patológicos quando se mostram desproporcionais e incompatíveis com a periculosidade do que lhe assombra.

"A pessoa em estado muito elevado de estresse, medo ou ansiedade estimula o hipotálamo que mobiliza de forma global o organismo desencadeando reações somáticas e modificações endócrinas", explica Pedro. Isso pode variar para cada pessoa, mas é comum apresentar reações físicas como taquicardia, sudorese, hiperventilação ou sensação de falta de ar, diarreia, dores de cabeça, tremor, entre outros sintomas, isolados ou associados.

O indivíduo pode ainda se sentir frustrado ou entristecido, ter sensações de incapacidade, vergonha ou apatia. "Os pensamentos ficam repetitivos e isto gera um cansaço emocional ou desânimo, podendo haver perda do sono e consequentemente irritabilidade. Alguns comportamentos também podem se instalar como forma de aliviar o mal-estar, como abuso de substância psicoativas, bebidas alcoólicas, remédios, comer em excesso ou pouco", alerta Pedro.

Por isso, vale manter a atenção. E se o medo passar a causar tais reações físicas ou emocionais, vale buscar um canal de ajuda, afinal muitos especialistas continuam realizando atendimento online e podem trazer um pouco de alívio para essa fase.

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