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Cris Guerra: "Perdi mãe, pai, marido e aprendi que não controlamos a vida"

Do VivaBem, em São Paulo

04/08/2020 10h30

No Conexão VivaBem desta terça-feira (4), a escritora Cris Guerra contou como luto a ensinou a aceitar a falta de controle sobre alguns eventos da vida. "Eu perdi minha mãe aos 24, meu pai aos 31, tive dois abortos no meu primeiro casamento, me separei, comecei a namorar de novo, aí engravidei sem querer e perdi o marido dois meses antes de o meu filho nascer. Meu aprendizado principal nessa história é que a gente não controla a vida e tem que dormir com um barulho desses".

Segundo ela, apesar de algumas situações fugirem de sua alçada, é possível controlar como lidar com isso. "Mesmo que aconteçam coisas que a gente não consegue controlar, a gente tem a chance de agir sobre essas coisas, para transformar o desfecho, de como vai ser isso".

No caso de Cris, a escrita foi a maneira que ela encontrou para enfrentar os períodos difíceis, porque "traz a sensação de que pelo menos a gente é o maestro daquela história". Ela contou que a arte, de uma maneira geral, como fazer crochê, pintar ou escrever, é algo que depende do autor, trazendo esse controle de uma forma diferente.

"Eu não estaria aqui se não fosse essa minha escrita, que me salvou e acabou me levando a uma outra profissão. Eu era redatora publicitária, usei toda minha potência de escrever e estou indo para o meu sétimo livro. É fruto dessa dor também", disse ela. "A gente tem muito poder sobre várias coisas, e a gente, às vezes, não vê, porque a gente só está olhando para aquilo que a gente não pode controlar".

A psicanalista Vera Iaconelli compara a vontade de controlar todos os acontecimentos da vida a uma fantasia. Essa ilusão traz um alívio, mas não muda o fato de que esse controle não existe. Segundo ela, quando o indivíduo sai desse lugar passivo de quem foi objeto de uma situação e se torna ativo, como por meio da escrita, é possível dar um novo destino para esse acontecimento. "Isso que a Cris traz é exatamente o exemplo dessa virada da cena traumática. O que eu posso fazer? Eu não posso fazer tudo, mas alguma coisa posso".