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Racismo, homofobia... Psicologia explica como a intolerância se sustenta

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Priscilla Auilo Haikal

Colaboração para o VivaBem

31/07/2020 04h00

Nós, seres humanos, somos um poço de contradições e imperfeições. Por mais que a gente se esforce para ampliar a visão de mundo que nos foi contada, não é raro que pensamentos mesquinhos ou invejosos venham nos visitar. De repente somos tomados por sentimentos que se opõem a crenças e princípios, e revelam a dificuldade que é evoluir emocionalmente.

Quem nunca culpou o outro, mesmo que mentalmente, pelo nosso país nunca dar certo? Ou então acreditou que o motivo do erro de alguém tivesse a ver com a sua raça, classe, gênero, religião ou orientação sexual? E se deixou levar pelo chavão "tinha que ser" e inferiorizou o próximo simplesmente por ele ser diferente de você?

São reações que estão ligadas com desamparo e fragilidade interiores, que causam angústia ao se deparar com aquilo que foge do próprio repertório. Ao culpar ou inferiorizar o outro, de certa forma alivio o incômodo que sinto por ele não se enquadrar aos sistemas de rótulos aos quais estou acostumado.

Muitas vezes são padrões convencionados como ideais na sociedade, a partir de práticas e características que devem ser almejadas e valorizadas por todos. Aqueles que fogem dessa representação hegemônica tida como bem aceita não são dignos da minha humanidade. Desqualifico o próximo para justificar a repulsa que sinto.

Mas de onde surge esse impulso de inferiorizar o outro? O que leva tanta gente a perpetuar desavenças e reproduzir discursos intolerantes e preconceituosos?

De volta ao divã

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Para variar, o pai da psicanálise tem explicações para esse ódio, sentimento que experimentamos antes do amor, e um dos mecanismos mais primitivos de discriminação entre o "Eu" e o "Outro". Freud classificou de "Eu-Prazer" o estágio no qual o sujeito se identifica com tudo aquilo que lhe proporciona satisfação, e projeta tudo o que lhe é desprazeroso no Outro.

"Trata-se de uma vivência ilusória de total autossuficiência, na qual o Outro é interpretado como puro empecilho às satisfações do Eu; empecilho que deveria ser eliminado", afirma Eduardo de São Thiago Martins, psicanalista e psiquiatra, membro associado da SBPSP (Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo).

A próxima etapa é desenvolver o chamado "bom sentimento de si", quando todos aqueles que são diferentes do sujeito não precisam mais ser encarados como ameaça à integridade do Eu. Assim surge a noção de alteridade, que identifica e reconhece as diferenças do Outro, e que possibilita aceitar que existem outras origens, outras culturas e outras subjetividades no mundo compartilhado por nós.

Mas nem sempre esse processo é bem-sucedido e pode se prolongar por toda a vida, numa deficiência que costuma ser agravado em situações de adversidade. "É importante ressaltar que o desenvolvimento psíquico do ser humano não se dá de modo linear. Os estágios primitivos ou infantis não ficam para trás conforme modos de defesa mais elaborados são desenvolvidos. Eles seguem latentes no sujeito como núcleos defensivos que podem ser recrutados a qualquer instante", detalha Martins.

Assim, quando o nosso psiquismo julga que a existência está ameaçada, mais brutal e menos lapidada é a nossa reação.

Normal é ser diferente

Apesar do grande avanço na formação do ser quando há o entendimento de que existem diferenças de identidade e que não se pode ditar todas as regras do mundo, essas experiências de alteridade e coletividade são complexas e exigem muito trabalho psíquico aos indivíduos. Nada mais cômodo do que fechar os olhos para as renúncias que temos que fazer diariamente e sonhar com uma realidade onde as únicas regras existentes são as que nos favorecem.

A solução? Projetar os defeitos e as nocividades no próximo. Criar narrativas para estigmatizar certos grupos e beneficiar outros. Estabelecer marcas de desqualificação para legitimar atos de dominação social e política, como a invasão e tomada de territórios, e a escravização e genocídio de populações. Estabelecer estruturas de poder e superioridade que limitam direitos e mantêm privilégios.

Ao longo da modernidade, a construção do outro enquanto diferente não teve como base a aceitação e a troca de experiências plurais e diversas, mas surgiu a partir da imposição de marcadores que delimitavam uma única via a ser seguida: a da normalidade. E tudo aquilo que estivesse fora dessa convenção, moldada pela moral e pelos bons costumes, seriam os algozes, culpados e causadores da desordem e do caos social.

"Por isso, estamos acostumados a atribuir a alguns corpos performances sociais marginalizadas como a promiscuidade, criminalidade, baixa intelectualidade, naturalizando o lugar da diferença, e também a discriminação e as desigualdades sociais e raciais", destaca a psicóloga Veridiana Machado, professora na Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública e coordenadora nacional da ANPSINEP (Articulação Nacional de Psicólogas(os) Negras(os) e Pesquisadoras(es)).

A docente reforça que até hoje várias ações e discursos são fundamentados em demarcadores étnicos, culturais, sociais e de gênero, e ainda são vastamente reproduzidos para exaltar o nacionalismo e a supremacia hetero-branca-masculina. "São marcadores de controle usados para subalternizar e desumanizar aqueles que escapam de seus espelhamentos."

Bode expiatório

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Dessa forma, a reação mais comum é de intolerância com os diferentes e de gratificação ao estar entre os iguais, numa maneira simples de não assumir e nem confrontar as minhas limitações e o receio do próprio Eu em adentrar por regiões desconhecidas que podem amedrontar. Outra saída bastante comum e que vem sendo empregada há séculos é o chamado "bode expiatório". Funciona com a escolha de alguém ou de um povo para carregar todo o mal que precisamos extirpar, de modo a não sermos atacados.

"Esse comportamento mágico, nocivo por si, infelizmente tende a ser manipulado por figuras que exercem poder e influenciam seguidores, aparentemente racionais em suas alegações, mas basicamente movidos por emoções muito primitivas e exacerbação de ódios. Por isso que o preconceito racial, de gênero, religioso e qualquer outro necessita ser combatido como uma ignorância e despreparo da possibilidade de conviver", enaltece a psicóloga Liliana Liviano Wahba, analista junguiana e professora da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).

Usualmente a adesão a essas ideias superficiais e estereotipadas, que não resistem a argumentos, ocorre por meio de uma identificação afetiva, na qual a tonalidade é o ódio e o outro é o meu maior problema. O "bode expiatório" é o culpado pelo caos da cidade, pelo desemprego elevado, pelas dificuldades econômicas e até pela falta de perspectiva dos dias atuais. Curiosamente é durante períodos de escassez de recursos e crise financeira que despontam supostas lideranças dispostas a resolver todos os males, inclusive a corrupção, não por meio de propostas, mas sim pela eliminação daqueles que são os culpados pela desgraça do país ou do mundo.

O psicólogo Fernando Gastal de Castro, professor associado do Instituto de Psicologia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), acrescenta que é um discurso muito antigo na nossa sociedade, e retorna de tempos em tempos, principalmente "em momentos de anomia social, de crise das instituições e das relações sociais". Quando crescem as vulnerabilidades e a desesperança, a identificação do outro como a razão dos meus tormentos ganha força pelo afeto do ódio. "A dificuldade da nossa e de outras nações é justamente criar um modelo social em que caiba todo mundo, onde todos possam dizer 'minha sociedade'".

Para Freud, essa necessidade de ter o Outro como inimigo faz parte do chamado "narcisismo da pequena diferença", no qual o sujeito frágil deixa de pensar por si e se torna um replicante dentro da massa, que se organiza no combate daqueles que estão distantes dos ideais do grupo. "Em outras palavras, falar mal do vizinho pode salvar um almoço em família. Ter um inimigo em comum, alguém para eliminar, mantém os laços entre os indivíduos da organização. Caso contrário, suas próprias pequenas diferenças vêm à tona, dissolvendo o sentimento grupal e expondo o Eu ao seu desamparo constitutivo", diz Martins.

Respeito às necessidades e especificidades

O psicanalista acredita que boas experiências de coletividade e de alteridade seriam a melhor forma de buscar a transformação do sujeito narcisicamente ferido, o que seria possível com um governo que atuasse para redução das desigualdades e a garantia das condições de vida fundamentais aos cidadãos (moradia, saúde, educação, segurança, transporte, cultura).

"Assim, o Outro não seria mais encarado como uma ameaça à integridade do Eu, e sim como um colaborador nas diferenças, capaz de lhe estender a mão e de ampliar o repertório de identificações. Quanto mais elaborados forem o 'sentimento de si' e o 'sentimento de pertencimento', menos sentido farão as fábricas de inimigos."

Ao não terem acesso aos direitos e serviços básicos, as populações subalternizadas sofrem violência pelas mãos do próprio Estado, e ficam em condições assimétricas com o que se chama de humanidade. Na avaliação da psicóloga Veridiana Machado, é uma luta constante para sobreviver e para enfrentar esse comportamento desumanizador, que já está institucionalizado há anos, é só pode ser enfrentado com a adoção de uma nova proposta ética, estética e política da diferença.

"É atribuir ao outro o olhar da positividade em detrimento da negativação, reconhecer as singularidades daquele corpo como uma multiplicidade de potências, abrir mão da competitividade e da anulação para a coexistência e cooperação, adotando uma postura antitotalitária, de respeito ao próximo e às diversidades."

Conviver e conhecer o outro é uma das possibilidades de romper com o silenciamento histórico de muitos povos. Permitir que esse sujeito fale e de fato seja escutado abre espaço para que suas histórias, constantemente invisibilizadas, sejam narradas de forma com que também suas existências passem a ser consideradas. A partir dessa interação surge a oportunidade de construir outras narrativas de si, do próximo e do mundo, que expressem outros sentidos e significados numa elaboração consciente e sensibilizada em relação às singularidades de cada um.

Fontes: Eduardo de São Thiago Martins, psicanalista e psiquiatra, membro associado da SBPSP (Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo), supervisor e professor colaborador do Serviço de Psicoterapia do IPq-HCFMUSP; Liliana Liviano Wahba, psicóloga, analista junguiana e professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo); Fernando Gastal de Castro, psicólogo e professor associado do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Veridiana Machado, psicóloga e coordenadora da Articulação Nacional de Psicólogas(os) Negras(os) e Pesquisadoras(es) e a equipe do núcleo ANPSINEP/Bahia.

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