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Dá para detectar gravidez misturando urina e água sanitária?

Check-Up 29/07/2020 - teste gravidez com água sanitária - gif
Imagem: Priscila Barbosa

Sibele Oliveira

Colaboração para VivaBem

29/07/2020 04h00

A internet está cheia de textos e vídeos ensinando como descobrir a gravidez com testes caseiros. Um deles é feito com urina e água sanitária. Basta colocar num recipiente a mesma quantidade dos dois líquidos, esperar alguns minutos e pronto. Se a solução espumar ou mudar de cor, adquirindo uma tonalidade avermelhada ou alaranjada, significa que a mulher está grávida.

Mas antes de achar que não é mais necessário ir a um laboratório para colher o exame de sangue ou passar numa farmácia para comprar o teste de urina, saiba que não há em nenhuma evidência científica de que esse teste funcione. Ele é apenas uma das muitas fórmulas caseiras que mulheres ansiosas para saber se um bebê está a caminho colocam em prática.

Não é de hoje que elas recorrem a métodos caseiros para descobrir a gravidez. Segundo registros da época do Egito Antigo, as mulheres costumavam fazer xixi em sacos de trigo e cevada. Se nenhuma das sementes germinasse, o teste tinha dado negativo. Mas se a planta começasse a se desenvolver, o resultado era positivo.

Nesse caso, dava para saber até o sexo da criança. Se o trigo brotasse, nasceria uma menina. Mas se fosse a cevada, um menino estava sendo gestado.

Por que não funciona?

Além de água, a urina é composta por várias substâncias provenientes da alimentação e do metabolismo, como creatinina, ureia, ácido úrico, sódio, cálcio, potássio, bilirrubina, cálcio e amônia. Em contato com a água sanitária, elas provocam a reação química que faz o líquido submetido ao teste borbulhar ou adquirir uma coloração mais escurecida. É essa reação que dá a impressão de que ele funciona.

A ideia do teste até faz sentido, já que ele é uma tentativa de detectar o hormônio da gravidez, o HCG (gonadotrofina coriônica humana), produzido por um grupo de células chamado trofoblasto, que dá origem à placenta. É exatamente isso o que os testes cientificamente comprovados —o de sangue e o de urina— fazem. Mas a coerência do teste para por aí.

Logo de cara, alguns problemas já impediriam sua confiabilidade, como o uso de recipientes inadequados e a falta de especificação da concentração certa de água sanitária. No entanto, a ausência de metodologia e padronização não é o único motivo para desconfiarmos do resultado dele. Isso porque dependendo de sua característica, a urina pode provocar essa reação sem que de fato seja uma gravidez.

É o que acontece quando a urina está muito concentrada, principalmente a primeira da manhã, que reage com a água sanitária espumando ou mudando de cor. Algo que ocorre independentemente do sexo e da faixa etária. Além disso, doenças hepáticas, diabetes, insuficiência renal, perda de sangue na urina e alguns tumores também podem provocar esse efeito. Assim como um consumo alto de alimentos ricos em proteínas.

Ou seja, esse teste é como jogar cara ou coroa. Pode dar falso-negativo se a urina estiver muito diluída, caso a grávida tenha bebido bastante líquido. Ou falso-positivo, se a mulher tiver determinadas doenças ou se, por alguma razão, seu xixi tiver uma quantidade relevante de proteínas e pH mais ácido. Mas também pode indicar corretamente a gravidez, uma vez que as gestantes eliminam HCG na urina, que é um hormônio proteico.

Teste perigoso

Não funcionar é o menor dos males desse teste. As consequências dele é que podem ser graves. Isso porque a água sanitária contém hipoclorito de sódio, substância que em contato com a urina, que é ácida, libera gás cloro. Por sua vez, o gás cloro oxida praticamente tudo o que encontra pela frente, inclusive a bilirrubina (pigmento que dá a cor amarela para a urina), que provavelmente é o que a faz escurecer, ficando avermelhada ou alaranjada.

Já efeito de efervescência ocorre devido à liberação de gases nessa reação de oxidação, quando o cloro reage com a ureia. É aí que mora o perigo, pois essa combinação química forma substâncias chamadas cloraminas. Elas, a amônia e o gás cloro, liberados nesse processo, são tóxicos. E, portanto, prejudiciais à saúde humana. Quanto mais concentrada estiver a urina, mais rápida tende a ser essa reação.

O risco aumenta em ambientes fechados, se for produzida uma grande quantidade desses gases tóxicos e a mulher permanecer muito tempo nesse local. Expor-se a eles pode causar náuseas, falta de ar, irritação no nariz, na garganta e nos olhos, tosse, broncoespasmo, pneumonite (inflamação nos pulmões), dor de cabeça e até queimaduras oculares. Em locais abertos e bem arejados, o perigo é menor.

Os únicos confiáveis e seguros

Não é tão simples detectar a gravidez. Só depois de 7 a 10 dias que o óvulo fecundado é implantado no útero, o HCG começa a ser produzido. Por ser parecido com outros hormônios que temos, ele precisa ser dosado na subunidade beta, que o diferencia dos demais. Como o HCG é mais abundante no sangue, o exame pode ser feito assim que a menstruação atrasa. Já para o teste de farmácia, a recomendação é esperar quatro dias para fazê-lo, pois o hormônio está presente em menor quantidade na urina.

Ambos os testes são feitos com um anticorpo contra o Beta HCG. Se a mulher estiver grávida, esse anticorpo reage grudando no hormônio e é identificado no marcador, que no teste de urina é a marquinha vermelha que aparece na fita de papel. O percentual de acerto do exame de sangue é de quase 100%. E o de urina pode chegar a esse índice dependendo da marca, pois umas são mais e outras menos sensíveis.

Dosar o Beta HCG no sangue não requer nenhum preparo. Mas se você optar pelo teste de farmácia, siga as orientações da bula, não beba muito líquido na véspera do exame e o faça com a primeira urina da manhã. Isso ajuda a concentrar mais o hormônio e diminui as chances de dar falso-negativo. Mesmo com todos os cuidados, os testes confiáveis podem dar falso-positivo em quem tem tumor no ovário ou neoplasia atrofoblástica gestacional, por exemplo. Se tiver dúvidas, procure um ginecologista.

Fontes: Alexandre Donizeti Martins Cavagis, coordenador do curso de química da UFSCar Sorocaba (Universidade Federal de São Carlos); Adriana Campaner, ginecologista do laboratório Salomão Zoppi e Olímpio Barbosa de Moraes Filho, membro da Comissão Nacional Especializada em Assistência Pré-Natal da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia).