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Cólicas intestinais: entenda como alimentação pode influenciar no sintoma

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Imagem: iStock

Dan Novachi

Colaboração para o VivaBem

24/07/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Cólicas intestinais podem estar ligadas ao consumo de diversos alimentos, mas principalmente leguminosas e itens muito gordurosos
  • As cólicas também são muitas vezes associadas ao excesso de gases produzidos na digestão de determinados alimentos
  • No entanto, a ocorrência normal de gases é um efeito natural de uma alimentação saudável e rica em fibras
  • Para o alívio dos sintomas é recomendado o aumento do consumo de fibras, hidratação
  • O sintoma também pode estar associado com intolerâncias alimentares e doenças intestinais como síndrome do intestino irritável ou a doença de Chron

Diferente da famigerada dor de barriga, que costuma estar ligada à necessidade ou vontade de evacuar, as cólicas intestinais geram picos de dor intensa e prolongada e podem acontecer de maneira esporádica ou cíclica. Esse sintoma pode ser originado por um número extenso de causas, e comumente podem ser consequência da sua alimentação, por isso o VivaBem entrevistou alguns especialistas no assunto para poder entender um pouco mais sobre essa relação.

Segundo Cinara Martins, gastroenterologista da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo, as cólicas intestinais "são dores abdominais decorrentes do mal funcionamento intestinal, geralmente pelo excesso de gases e aumento do esforço do órgão, relacionadas a um tipo de dor que lembra muito uma torção", explica. "É uma dor que ocorre de forma cíclica, com aumento da intensidade gradual até atingir um pico para depois melhorar" adiciona Alexandre de Souza Carlos, gastroenterologista do HC-FMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).

Para os profissionais, para além de possíveis doenças que acometem o intestino, a alimentação está intimamente ligada às cólicas intestinais e pode potencializar sua ocorrência. Dentre as principais causas apontadas estão justamente a dieta com baixa ingesta de fibras e o consumo de alimentos fermentativos e muito gordurosos. A médica também pontua que os excessos alimentares e refeições com grandes quantidades estão entre as principais causas do sintoma na população geral.

Alimentos que podem desencadear os sintomas

"Não existe associação direta entre um alimento específico e cólicas intestinais em indivíduos completamente saudáveis e sem qualquer comprometimento do trato gastrointestinal", aponta Adriana Carrieri, nutricionista coordenadora de estudos do Albert Einstein College of Medicine. Ela pontua que o que ocorre com maior frequência é que alguns alimentos podem provocar maior formação de gases, levando a um desconforto que pode alcançar uma grande intensidade. É o caso das leguminosas como feijões, lentilha, grão-de-bico, ervilha, entre outros.

Carrieri esclarece que além das leguminosas, "alimentos com alto teor de frutose, especialmente proveniente do xarope de milho, amplamente utilizado pela indústria em produtos ultraprocessados, também podem causar flatulência por conta da sobrecarga de frutose", que possui uma capacidade de absorção limitada no intestino delgado. Assim, a nutricionista aconselha a limitar o consumo de alimentos que utilizem esse tipo de ingrediente.

Além destes, outros grupos alimentares têm potencial de aumentar a produção de gases, são eles os ovos e as brassicas — gênero ao qual pertencem o brócolis, couve-flor e os aspargos. Carlos também adverte sobre o alto consumo dos derivados do leite, comumente "conhecidos por serem fermentativos", sinaliza.

Entretanto, mesmo diante dos sintomas e sua possível associação com os grupos acima citados, Elisa Yumi, nutricionista do NASF-IABAS (Núcleo de Apoio à Saúde da Família do Instituto de Atenção Básica e Avançada à Saúde), faz um alerta: "Não se deve necessariamente excluir esses alimentos da alimentação, pois uma restrição alimentar severa sem acompanhamento profissional pode gerar deficiências nutricionais", orienta. Yumi pondera que a tolerância individual deve ser observada, já que os alimentos que causam cólicas costumam variar de pessoa para pessoa.

Alternativas no preparo

Leguminosas - iStock - iStock
Leguminosas devem ser postas de molho para reduzir as chances de causarem gases
Imagem: iStock

Carrieri e Yumi argumentam que mudanças no preparo destes alimentos podem diminuir seu potencial de ocasionar os sintomas. Para as nutricionistas consultadas na reportagem, no caso das leguminosas um processo que auxilia na redução da formação de gases é a utilização da técnica de remolho, que consiste em deixar os grãos de molho em água de 6 a 12 horas. "Cerca de 1/3 dos componentes envolvidos na produção de gases podem ser eliminados nesta água de remolho" esclarece Carrieri.

Ela também orienta à troca da água durante o remolho, que também deve ser descartada e não utilizada para a cocção. Yumi acrescenta que o ideal é evitar combinar vários desses alimentos listados na mesma refeição e ponderar na quantidade ao consumi-los.

Alimentos benéficos

Por outro lado, existem alimentos que podem auxiliar no bom funcionamento do intestino e assim ajudar na prevenção a cólicas ou outros sintomas correlacionados. "Alimentos probióticos como o iogurte, kefir e kombucha contém microorganismos saudáveis que competem com bactérias patogênicas", explica Yumi. A nutricionista também relembra que beber água é fundamental para o bom funcionamento intestinal, bem como uma alimentação equilibrada rica em fibras e com poucos alimentos ultraprocessados.

E como dica adicional, Yumi também recomenda os chás de plantas como boldo-alumã, funcho (da mesma planta que a erva-doce) e folhas da alcachofra, reconhecidos por suas propriedades digestivas. Porém, ela também alerta que mesmo chás devem ser usados com parcimônia, pois podem ter efeitos colaterais a depender do organismo e particularidades de cada pessoa.

Carrieri também aponta a importância da mastigação, "uma vez que ela é fundamental para que a digestão adequada ocorra, prevenindo a fermentação de ingredientes que não foram possíveis de digerir e absorver por uma falta de trabalho mecânico durante a mastigação", observa. A profissional também pondera que uma alimentação saudável deve promover a ocorrência de certa quantidade de gases, o que é natural e esperado devido a um maior conteúdo de fibras consumido.

Por isso, ainda que os grupos de alimentos citados tenham potencial de causar o aumento de gases, seu consumo deve ser evitado apenas quando eles causem quadros de dores ou alterações que comprometam a funcionalidade do organismo. A ocorrência tão somente de gases deve ser encarada como uma reação normal do nosso organismo ao consumo de alimentos saudáveis.

Como aliviar as cólicas?

Cistite, infecção urinária, cólica, dor de barriga - iStock - iStock
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"Na presença de cólicas intestinais leves deve-se ingerir grande quantidade de líquidos, aumentar ingestão de fibras e diminuir a de alimentos sabidamente fermentativos", aconselha Carlos. O médico também orienta que diante de cólicas intensas, pode-se fazer uso de medicações antiespasmódicas, que relaxam a musculatura lisa intestinal. Além disso, como alternativa não medicamentosa, compressas mornas podem ser usadas para aliviar o desconforto.

No entanto, Martins reflete que o alívio real dos sintomas, assim como a prevenção, são somente possíveis se tivermos o conhecimento da causa. Dentre os cuidados com a alimentação, ela recomenda "evitar excessos" alimentares de qualquer tipo.

E quando a causa não está ligada aos alimentos?

Todos os profissionais de saúde consultados pelo VivaBem foram unânimes em afirmar que diante de uma recorrência de quadros de dor e cólica intestinal é fundamental buscar auxílio médico especializado para que se possa obter um diagnóstico preciso das causas desses sintomas.

Para além das interações e complicações digestivas relacionadas aos alimentos contemplados nesta matéria, as cólicas intestinais também podem representar sinais de intolerâncias e alergias alimentares como intolerância ao glúten, à lactose ou algum outro alimento. Mas também quadros mais graves, relacionados a doenças como: a Síndrome do Intestino Irritável, inflamações resultantes de infecções gastrointestinais, doença de Chron, diverticulite, dentre outras doenças.

Ainda de acordo com Carlos, os sintomas que necessitam de atenção e podem indicar um quadro mais grave podem incluir "febre alta, distensão abdominal, diarreia com sangramento e até mesmo ficar sem evacuar".