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Ler em ambientes com pouca luz prejudica a visão?

Sibele Oliveira

Colaboração para VivaBem

15/07/2020 04h00

Sabe aquela sensação de que não dá para ler nem mais um minuto, mesmo que a leitura seja prazerosa? Isso é comum quando estamos em um lugar mal iluminado. Mas o esforço que fazemos para enxergar quando a luz é insuficiente não causa erros refrativos como miopia, hipermetropia e astigmatismo, ou outras doenças oculares. Isso é um mito. Apesar do incômodo que sentimos, não há nenhuma evidência científica de que ler nessas condições provoque danos aos olhos.

Essa crença talvez venha da dificuldade que encontramos para ler em ambientes com pouca claridade. E de sintomas que podemos ter quando fazemos muito esforço para enxergar, como cansaço visual, olhos vermelhos, irritados e secos, lacrimejamento, coceira, visão embaçada e dor de cabeça.

Também acontece de algumas pessoas terem um erro refrativo e colocarem a culpa na leitura. Como a presbiopia, conhecida como "vista cansada", que surge naturalmente quando os olhos envelhecem.

"Com o envelhecimento, vamos perdendo o que chamamos de acomodação, que é a capacidade de ajuste do foco para a visão para perto, mas também ajuda o ajuste de foco principalmente em pacientes hipermetropes", explica Antonio Carlos Lottelli, professor de oftalmologia da Unesp (Universidade Estadual Paulista). Embora essa perda seja mais nítida após os 40 anos, quando a maioria das pessoas precisa usar óculos para leitura, ela é progressiva e pode começar muito antes, sem ser notada.

Defesa natural

Mas o que acontece quando lemos quase no escuro? "Quando estamos num ambiente mais escuro, ocorre uma dilatação na pupila para permitir uma melhor entrada de luz. É um mecanismo de defesa natural dos olhos", afirma Ione Alexim, oftalmologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz (SP).

Ao contrário do que acontece quando olhamos para uma luz muito forte como a do sol. Nesse caso, nossas pupilas se fecham para evitar que entre muita claridade na retina. Por isso é tão importante lermos em locais nem muito nem pouco iluminados.

Se a luz for insuficiente, o contraste das letras é diminuído e temos que fazer um esforço maior para ler. Mas se for adequada, esse contraste aumenta, permitindo que a gente leia com facilidade.

Além da baixa luminosidade, outros fatores também contribuem para uma leitura desconfortável. Um deles é piscar com menos frequência, algo muito comum quando estamos concentrados em uma leitura interessante ou importante. Isso faz os olhos ficarem menos lubrificados e prejudica a qualidade da visão. Aí nem é necessário ler horas a fio para sentir um mal-estar. O cansaço pode aparecer já no início da leitura.

Leitura em telas exige mais cuidado

Moça usando celular - iStock - iStock
Imagem: iStock

Enquanto ler textos em papel não oferece riscos à visão, o mesmo não se pode dizer da leitura em celulares, tablets e computadores. O uso abusivo desses dispositivos eletrônicos é nocivo principalmente para as crianças.

"Para elas, pode ser muito prejudicial. O esforço acomodativo intenso pode favorecer o desenvolvimento de miopia numa fase inicial do desenvolvimento. O uso de eletrônicos, inclusive o aparelho televisor, para crianças abaixo de um ano, a gente preconiza que seja de um tempo abaixo de uma hora", orienta Alexim.

Segundo Lottelli, isso não acontece por causa da leitura em si, mas devido à manutenção do foco para perto (menor que 50 centímetros). Por isso é importante que as crianças não passem o dia inteiro olhando de maneira fixa para as telas.

Não significa que elas devam abolir o uso desses aparelhos, mas é aconselhável reservar um tempo para atividades que não exijam a visão para perto, de preferência as que são realizadas ao ar livre. O ideal é alternar as duas coisas.

Já a fadiga ocular é a maior queixa dos adultos. "Estudos mostram que a leitura em dispositivos eletrônicos tende a provocar maior desconforto e cansaço visual (sensação de areia nos olhos, fotofobia, dor de cabeça) quando comparados à leitura convencional em papel. Os motivos dessa diferença ainda não estão claros", pontua o oftalmologista. Quando esses aparelhos estão no escuro, os sintomas são mais acentuados.

Não é o celular, o computador ou o tablet que fazem mal aos olhos, mas o uso ininterrupto deles. "A síndrome da visão do computador pode acometer até 75% dos usuários de computador que fazem uso acima de oito horas por dia", alerta Alexim.

Além dos sintomas oculares, a pessoa pode ter dor nas costas e nos ombros porque permanece imóvel por um tempo prolongado. E muitas vezes, com uma postura inadequada. Nesse sentido, os aparelhos portáteis são ainda piores.

Proteja os seus olhos

Para que a leitura seja agradável, é preciso ter alguns cuidados tanto em relação aos dispositivos eletrônicos quanto aos livros, revistas, jornais e documentos de papel. Principalmente se ela for longa. A primeira dica é escolher um ambiente bem iluminado, onde você não precise forçar a vista.

No caso de computadores, tablets e celulares, ajustar a iluminação e o brilho e aumentar a fonte proporcionam um conforto maior. Assim como colocar um filtro antirreflexo na tela. E lembre-se: quanto maior a resolução da tela, melhor.

Se o sol estiver forte, use óculos escuros, boné, viseira ou chapéu ao ar livre. E em ambientes fechados, controle a entrada de luz natural pela cortina. Mas se você tem o hábito de ler à noite, a recomendação é colocar uma luminária ou abajur não muito próximos dos olhos, caso a iluminação esteja fraca. Manter a distância adequada é outra dica importante. Ela deve ser de 30 centímetros se a leitura for em papel. Em relação às telas, o ideal é ficar distante delas pelo menos 50 centímetros.

Também não devemos nos esquecer de piscar com frequência. Lembrando que as piscadas devem ser completas, ou seja, as pálpebras precisam se fechar completamente. O ar-condicionado muito próximo dos olhos deve ser evitado, assim como o vento forte, pois ambos fazem a lágrima evaporar.

Quem usa lente de contato precisa ficar ainda mais atento, já que elas contribuem para o ressecamento ocular. Quando esses cuidados não resolvem, é necessário usar um colírio lubrificante para aliviar a secura.

Os especialistas indicam a regra 20-20-20 para quem passa muitas horas lendo, principalmente em telas. É muito simples. A cada 20 minutos de leitura ou de uso de dispositivos eletrônicos, devemos fazer uma pausa de 20 segundos olhando para uma distância de 20 pés, que equivale a mais ou menos seis metros.

Com essas medidas preventivas, ler não oferece nenhum perigo. Se mesmo assim o desconforto ou a dificuldade de ler persistirem, procure um oftalmologista. É importante investigar se esse mal-estar está sendo causado por um erro refrativo que precisa ser corrigido ou por outra doença.