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Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


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Estresse financeiro: como a psicoterapia ajuda quando o problema é dinheiro

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Imagem: iStock

Priscilla Auilo Haikal

Colaboração para o VivaBem

03/07/2020 04h00

Em 1987, os Titãs já diziam que a gente não queria só comida, mas desejava também diversão, arte e alguma saída —para qualquer parte que fosse. Passados mais de 30 anos e com uma pandemia de coronavírus, está difícil ver qual caminho seguir em meio tantas incertezas, preocupações e inseguranças, não só com a saúde, mas com dinheiro também.

De acordo com pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), ao menos 40% dos brasileiros já tiveram perda total ou parcial da renda durante a pandemia. Muitas das regras trabalhistas foram flexibilizadas e o que restou de alternativa para vários trabalhadores informais, o auxílio emergencial, foi negado ou segue em análise para ao menos 10,5 milhões de pessoas.

Diante dessa conjuntura nem um pouco tranquila, muito menos favorável, não é surpresa que estejamos adoecendo mentalmente. Recente estudo do Instituto de Psicologia da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) aponta que os casos de depressão praticamente dobraram durante o isolamento social, enquanto as ocorrências de ansiedade e estresse tiveram um aumento de 80% no período.

Normalmente, a solução indicada para lidar com quadros assim seria a terapia. Mas como falar em autoconhecimento quando a maior preocupação é a sobrevivência diária? De que maneira o aconselhamento pode contribuir para quem sofre com os agravamentos das desigualdades e precisa lidar com a falta de recursos e de oportunidades?


Está muito difícil, mas vai passar
Por conta das medidas de isolamento necessárias para conter a pandemia, os países devem registrar os piores índices econômicos em anos. É um momento de sofrimento e de mudanças muito difíceis que exigem adaptação a uma nova realidade que não foi escolha de ninguém.

Situações de desemprego costumam potencializar inseguranças, baixa autoestima e dúvidas quanto ao valor pessoal ou à competência profissional. Isso pode contribuir para gerar uma visão negativa sobre suas reais qualidades, levando a uma percepção excessivamente negativa de si próprio, o que dificulta a busca por novas oportunidades. Os danos no humor e o desânimo podem chegar num ponto de impedir a pessoa de agir. É a hora de buscar auxílio.

Em situações de emergência como a que estamos vivendo, o suporte psicológico ajuda a desenvolver recursos emocionais para se reorganizar e manter o equilíbrio mental diante de tantas adversidades. Seja a partir da exposição ou da validação dos sentimentos, é uma tentativa de se posicionar de uma forma diferente diante da crise e estar preparado para entender e internalizar que isso tudo vai passar.

A tempestade é a mesma para todos, mas o barco não
Ao manter a organização psíquica é que conseguimos usar a capacidade mental para pensar em ideias e saídas para os problemas. Ter habilidades sociais bem desenvolvidas, assim como uma boa capacidade de lidar e regular as emoções, pode fazer a diferença neste momento. Quem mantém algum tipo de acompanhamento psicológico ao longo da vida consegue encarar melhor os conflitos e tem mais chances de persistir e se abrir para as adaptações necessárias.

Por isso é fundamental que todo indivíduo tenha meios de alcançar essa ajuda e desenvolver recursos para manejar melhor as situações pessoais e profissionais. Não por acaso especialistas defendem que a saúde mental deveria ser tratada como política pública de acesso a todos os trabalhadores, de todas as classes sociais. Afinal, organizações são movidas por pessoas que precisam ser valorizadas e bem tratadas.

No universo de extrema desigualdade social do país, onde muitos brasileiros mal têm tempo de ficar com suas famílias ou sustentá-las, é difícil pensar numa rotina de aconselhamento psicológico. Sobretudo quando acumulam dívidas, prejuízos e estão ansiosos e preocupados em como manter a renda daqui em diante. Mais uma vez precisam se desdobrar e descobrir novas formas de sobreviver.

Em meio a tantas dificuldades, as diferenças de condições ficam escancaradas, trazendo à tona a noção de que não somos seres isolados, e que ações em benefício ao próximo colaboram para a melhoria de toda a sociedade.

Preciso de ajuda
O apoio de amigos, familiares e comunidade é essencial para sentir e acreditar que é possível ultrapassar esse período atípico. Funciona como um auxílio emocional para despertar ânimo e facilitar o encontro de soluções. Há muitos movimentos sociais com integrantes engajados em contribuir com pessoas em situações mais vulneráveis. Nessa união em prol do suporte ao próximo, incluir o acompanhamento psicológico para cuidar da saúde mental é extremamente aconselhável.

Trata-se de um processo que nos auxilia a aceitar os fatores que não podemos mudar e ao mesmo tempo contribui para estabelecer uma nova ordenação dos pensamentos, de modo que não seja tão incômodo ou doloroso pedir ajuda, por exemplo.

Profissionais da área afirmam que este é o momento de sinalizar para o maior número de pessoas a necessidade de auxílio. É um contexto no qual é necessário se expor e as redes sociais podem ser bastante úteis para levar essa mensagem adiante. Também é interessante indicar quais competências você mais se destaca e quais afazeres estaria disposto a desempenhar.

Outro aconselhamento é identificar as próprias habilidades: relacionar os conhecimentos que possui, as tarefas desempenhadas anteriormente e as atividades que costuma ser lembrado por fazer bem (mesmo que não seja dentro da sua área de atuação profissional). A partir daí, pensar em formas de monetizar essas capacidades. Uma opção é tentar descobrir quais as principais demandas do seu bairro, vizinhança ou entre conhecidos, pois novas necessidades têm surgido com os desdobramentos da pandemia.

Além disso, também é possível estabelecer parcerias com outras pessoas que detêm experiências complementares. Pensar em jeitos de unir forças, buscar sugestões e acionar sua rede de contatos. Muitos grupos e comunidades foram criadas com o intuito de troca de informações e colaboração mútua, e podem ser um caminho para encontrar novas oportunidades.

Fontes: Maria Amélia Penido, professora e supervisora de estágio da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) em Terapia Cognitivo Comportamental; Marcelo Gonçalves, psicólogo clínico e colaborador do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo); Natalia Pavani, psicóloga do Hospital Alemão Oswaldo Cruz; e Thaís Zerbini, professora associada de Psicologia Organizacional e do Trabalho da FFCLRP/USP (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP de Ribeirão Preto), fundadora e coordenadora do Laboratório de Psicologia Organizacional e do Trabalho (LabPOT/USP).

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