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'Assumimos risco para ter a vacina no Brasil', diz presidente da Fiocruz

Presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima: "Assumimos um risco de natureza econômica para ter a vacina no Brasil" - Tânia Rêgo/Agência Brasil
Presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima: 'Assumimos um risco de natureza econômica para ter a vacina no Brasil' Imagem: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Do VivaBem, em São Paulo

29/06/2020 07h42

A presidente da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), Nísia Trindade Lima, celebrou o fato de o Brasil entrar em parceria com a Universidade de Oxford, no Reino Unido, para produção de vacina contra a covid-19 — no país, a tecnologia será desenvolvida pela fundação.

Embora não haja garantias de que a vacina será eficaz, a socióloga defendeu, em entrevista ao jornal O Globo, a parceria, ressaltando que ela pode contribuir para o país superar outras doenças, como a gripe H1N1.

O acordo prevê a compra de lotes da vacina e da transferência de tecnologia. Se demonstrada eficácia, serão 100 milhões de doses à disposição da população brasileira.

Nessa fase inicial, de risco assumido, serão 30,4 milhões de doses da vacina, no valor total de U$ 127 milhões, incluídos os custos de transferência da tecnologia e do processo produtivo da Fiocruz, estimados em U$ 30 milhões.

"Assumimos um risco de natureza econômica para ter a vacina no Brasil, um compromisso financeiro, esperando que o produto seja bem sucedido, mas claro que ele pode não se provar eficaz. Há muitas pesquisas sem resposta sobre o coronavírus, e acredito que a escolha desta vacina foi muito bem pensada. Não somos o único país a tomar esta iniciativa. Outros também estão conciliando ensaios clínicos e produção de lotes sem ter certeza sobre o resultado final", disse a presidente da Fiocruz.

Segundo ela, a Fiocruz terá capacidade para produzir vacinas para toda a população. "Na verdade, mesmo agora, os insumos farmacêuticos virão de Oxford, mas a produção da vacina será finalizada aqui. Isso requer instalações adequadas e experiência, e a Fiocruz já fabrica vacinas há 120 anos. Podemos contar com o apoio dos pesquisadores de Oxford até chegar a 100 milhões de doses. Quando o processo de transferência de tecnologia for concluído, teremos autonomia para fabricar, a partir do ano que vem, 40 milhões de doses por mês", explica.

Nísia destaca ainda que a covid-19 tem uma "série de perguntas sem respostas" e que haverá uma comissão de especialistas que acompanharão a produção das vacinas.

Na avaliação dela, uma eventual vacina eficaz contra o novo coronavírus pode ainda ajudar o Brasil a se preparar para outras epidemias. "Teremos tecnologia para combater uma série de doenças, especialmente os vírus respiratórios, entre eles o H1N1. Há muitas pesquisas que estão usando um vetor viral, como a que estamos trazendo agora, para combater doenças. A própria Universidade de Oxford está recorrendo a esse método para desenvolver vacinas contra o ebola e a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (Mers)."

Medidas contra o coronavírus

Como existe uma expectativa de que primeiros lotes da vacina estejam disponíveis em janeiro do ano que vem, a presidente da Fiocruz disse temer que o otimismo faça com que os brasileiros relaxem nas medidas de prevenção contra o vírus.

"Muitas vezes as pessoas não seguem orientações médicas por falta de consciência do problema ou por achar que a doença não afetará o seu grupo. Sabemos que a pandemia é um fenômeno multicausal, que tem efeito biológico, social e até de saúde mental. E, também, que parte da população precisa sair de casa atrás de seu ganha-pão. Mas ninguém pode contar com uma mágica", argumenta.

Na falta de um medicamento eficaz, diz ela, a solução são os cuidados. "Intensificar a higienização e usar máscaras (...) Também é muito importante ter um sistema de vigilância em saúde e o SUS fortalecidos, integrando a atenção primária à hospitalar, o que ajuda em diagnósticos", afirma.

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