PUBLICIDADE

Topo

Saúde

Sintomas, prevenção e tratamentos para uma vida melhor


Saúde

"Retirei mais de 50 miomas e consegui engravidar após 9 anos", conta mulher

Bárbara Therrie

Colaboração para VivaBem

28/06/2020 04h00

Ao tentar engravidar e não conseguir, a fonoaudióloga Flávia Giacinto, 40, procurou um ginecologista para investigar a causa do problema e descobriu que tinha miomas. Foram nove anos tentando realizar o sonho de ser mãe. Nesse período, ela passou por 13 médicos, fez três tentativas de fertilização, duas cirurgias —em uma delas, retirou mais de 50 miomas—, foi confundida com uma grávida por causa da barriga inchada, foi diagnosticada com endometriose, menopausa precoce e infertilidade. Apesar de todas as dificuldades, ela não desistiu e, durante exames pré-operatórios para a terceira cirurgia, descobriu que estava grávida. Leia o depoimento dela.

"Sempre tive muita cólica menstrual. Era uma dor insuportável de chegar ao ponto de desmaiar algumas vezes. Menstruava duas vezes no mês. O fluxo era intenso e com coágulos. Questionava essa dor ao ginecologista, mas ele dizia que era normal, que todas as mulheres sentiam muita cólica.

Médicos diziam que eu tinha de retirar o útero

Ao tentar engravidar por dois anos e não conseguir, procurei um médico para investigar o motivo, fiz um ultrassom transvaginal e descobri que tinha miomas. O ginecologista disse que os miomas eram tumores benignos e que não poderia engravidar porque teria de retirar o útero.

Perguntei se não teria como retirar só os tumores e preservar o útero. Ele respondeu que até poderia retirar os miomas e tentar engravidar, mas que havia o risco de aborto, e que provavelmente os miomas voltariam, ficaria nesse ciclo, e não atingiria o meu objetivo. Ou seja, segundo ele, não teria como ficar grávida nem de uma forma nem de outra.

Ignorei o que ele disse e procurei outro profissional. Passei com mais 10 ginecologistas que disseram exatamente o que o primeiro havia dito. A cada médico novo que ia, eles pediam o exame e viam que o número de miomas estava aumentando.

Fiquei com o abdome grande e inchado por causa dos miomas. Por essa razão, as pessoas achavam que eu estava grávida e me cediam o lugar preferencial no ônibus.

Mulher com miomas - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Nesta foto, Flávia estava com mais de 50 miomas no útero e era, eventualmente, confundida com uma grávida
Imagem: Arquivo pessoal

Teve uma vez que estava no shopping e uma mulher colocou a mão na minha barriga e perguntou de quantos meses estava. Fiquei tão constrangida que respondi que estava de quatro meses. Foi a pior sensação do mundo, me sentia um nada. Tudo o que eu queria na vida era gestar e não conseguia. Era muito frustrante.

Chegou uma fase em que realmente acreditei que teria de retirar o útero e que não realizaria o sonho de ser mãe. Foi quando entrei em alguns grupos nas redes sociais e li testemunhos de mulheres com miomas que tinham conseguido ter filhos.

Procurei o 12º médico, um ginecologista especialista em reprodução humana. Ele me orientou a fazer a miomectomia e tentar engravidar depois de alguns meses. Fiz a cirurgia em janeiro de 2009 e foram retirados mais de 50 miomas. O maior tinha 17 cm.

Tive um resguardo de seis meses. Ao final desse período, repeti os exames e apareceram dois novos miomas. Entrei em desespero, as coisas estavam acontecendo exatamente como os outros ginecologistas haviam dito. Como não tinha dado certo, o médico sugeriu de engravidar com os miomas, mas me alertou que haveria o risco de aborto.

Tentei durante três meses de forma natural, sem sucesso. Fiz três tentativas de inseminação artificial e também não deu certo. Nesse processo, fui diagnosticada com endometriose, menopausa precoce e infertilidade.

Um exame de reserva ovariana mostrou que tinha poucos óvulos. O médico me orientou a fazer a ovodoação, isto é, adotar o óvulo de outra mulher e implantar em mim. Escolher por foto quem seria a doadora foi apavorante, o momento mais assustador da minha vida. Eu e meu marido, o Renato, vimos uma pasta com fotos de doadoras, em busca de uma com caraterísticas semelhantes à minha, mas nenhuma tinha o meu biotipo e desistimos da ideia.

A alternativa foi fazer uma segunda cirurgia para retirar os miomas. Após um mês, fiz os exames e estava com dois miomas. Cheguei a pensar que estava sendo enganada pelo médico, que ele não havia retirado os miomas, porque não era possível eles voltarem toda vez e tão rápido. Resolvi mudar de profissional mais uma vez.

A relação sexual era puramente por reprodução

À essa altura, já não tinha mais psicológico. Não tinha mais vida. Não tinha mais relação sexual por prazer, era puramente para reprodução, com dia e horário marcado. Meu casamento só não entrou em crise porque meu marido não deixou, ele foi a nossa rocha.

Não conseguia trabalhar direito, não dormia, vivia irritada, tinha taquicardia, crises de ansiedade. Em resumo, fiquei insuportável e neurótica. A única coisa que pensava era em como me livrar dos miomas e engravidar.

Passei no 13º ginecologista e contei toda a minha história, ele me pediu calma e disse: 'Calma querida, não precisa desse pânico. Daqui a seis meses você estará grávida'. Comecei a rir e não acreditei. Estava tentando engravidar havia nove anos, retirado mais de 50 miomas, passado em quase 15 médicos, como iria ficar grávida em seis meses?.

Saí do consultório falando para o meu marido que aquele ginecologista era um maluco e que nós não iríamos mais voltar nele.

Durante a consulta ele me pediu um exame de clamídia. Fiz e acabei voltando nele. O teste deu positivo. Ele iniciou um tratamento para curar a infecção e para controlar minha ansiedade. Ele disse que, possivelmente essa infecção associada aos miomas, estava dificultando a gravidez. Me orientou a mais uma vez tentar engravidar com os miomas. Apesar do sofrimento, desistir não era uma opção. Tentei, mas sem a paranoia de antes. Dessa vez, as relações ocorriam naturalmente, sem toda uma programação.

Ao fazer exames pré-operatórios descobri que estava grávida

Mulher com miomas 3 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Nesta foto, Flávia já estava grávida
Imagem: Arquivo pessoal

Passados seis meses, não engravidei e o médico considerou fazer a terceira cirurgia para retirar os dois miomas. Durante os exames pré-operatórios, fiz o beta HCG e descobri que estava grávida. A enfermeira disse: 'Parabéns, você está grávida'. Disse que era impossível, mas ela me mostrou o resultado na tela do computador, o beta estava altíssimo, eu estava gravidíssima.

Tive uma crise de riso, não acreditava naquilo. Cheguei em casa e contei a novidade para o meu marido. Nós comemoramos e ficamos muito felizes.

Liguei para o meu médico e disse que teríamos de cancelar a cirurgia, que seria dali a duas semanas. A partir daí, comecei o meu pré-natal, fiz o primeiro ultrassom e ouvi os batimentos cardíacos da minha filha. Senti muito medo durante os nove meses.

No segundo mês, tive um sangramento que durou duas semanas. Estava só esperando o momento em que sofreria um aborto e perderia o bebê por causa dos miomas. Tomei remédio, o sangramento parou e consegui levar a gravidez até o final. Os miomas cresciam na minha barriga junto com a minha bebê.

A Luisa nasceu no dia 2 de fevereiro de 2014. O nascimento dela representava uma vitória de anos de lutas tentando engravidar, de dor, de cirurgias, de exames, de tratamento, de frustração.

Estou na menopausa e tenho planos de adotar

Dez dias depois do parto, senti uma contração muito forte, fui ao banheiro e pari um dos miomas. Um ultrassom confirmou que ele havia sido expelido. O outro continua aqui. Se for operar, provavelmente vou optar pela retirado do útero.

Entrei oficialmente na menopausa e não posso mais engravidar. Eu e meu marido temos planos de adotar e dar um irmãozinho ou irmãzinha para a Luisa daqui a um ano.

Mulher retirou mais de 50 miomas - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Flávia quer adotar outro filho para dar um irmãozinho para Luisa
Imagem: Arquivo pessoal

Durante a minha gravidez, criei no Facebook o grupo GAMMI (Grupo de Apoio a Mulheres com Miomas e Infertilidade), em que damos dicas, falamos sobre os tipos de miomas, tratamentos, cirurgias e apoiamos uma às outras.

Eu desejo que outras mulheres com miomas ou com qualquer outro problema de saúde que dificulte a gravidez persistam e realizem o sonho de ser mãe. Minha opinião é a de que nunca devemos confiar somente em um médico, devemos buscar outras opções e nunca desistir dos nossos objetivos".

Tire 10 dúvidas sobre miomas

O que são miomas? Eles podem virar câncer?

Miomas são tumores benignos que se originam e crescem no útero e são chamados de submucosos, intramurais ou subserosos, a depender de onde se localizam no órgão. Não se transformam em câncer, porém podem eventualmente ser confundidos e devem ser diferenciados de um câncer raro do útero, chamado sarcoma, que é muito semelhante ao mioma nos exames de imagem, como ultrassonografia e ressonância magnética.

Quais as causas e fatores ligados ao aparecimento dos miomas?

Não se sabe exatamente porque as células do útero sofrem alterações e geram os miomas, mas sabe-se que eles usam os hormônios femininos como fonte de energia para o seu crescimento. Alguns fatores aumentam o risco do surgimento de miomas, dentre os quais destacamos a história familiar de mãe e irmã com mioma, a afrodescendência e o sobrepeso ou a obesidade.

Quais os sintomas?

Os principais sintomas dos miomas são sangramento menstrual volumoso e cólicas menstruais intensas. Além disso, podem causar dor abdominal fora do período menstrual, aumento do volume abdominal, sensação de peso na barriga que se irradia para as coxas, dor na relação sexual, anemia, indisposição e, em alguns casos, dificuldade para engravidar e abortos. O aparecimento dos miomas é mais comum a partir dos 30 anos, embora algumas mulheres tenham miomas grandes e com sintomas importantes mesmo antes dessa idade.

Até quantos miomas uma mulher pode ter?

É comum o diagnóstico de até seis miomas no útero. Porém, não há um limite ou número máximo. Eventualmente, em casos mais graves, pode-se ter dezenas e até mesmo chegar a uma centena de miomas no útero, com diâmetros que variam de poucos milímetros a alguns centímetros. Não se sabe exatamente o que leva uma parte das mulheres a ter miomas tão numerosos, mas a predisposição familiar e racial podem influenciar na intensidade com que a doença se apresenta, ou seja, não só no número e tamanho dos miomas, mas também na idade precoce em que vêm a surgir.

É possível engravidar tendo miomas? Todas as mulheres terão dificuldades?

Sim, é possível engravidar com miomas e, se não forem grandes demais e estiverem longe da cavidade uterina, local onde o bebê se desenvolve, não costumam causar grandes problemas. Porém, se estiverem na cavidade uterina ou em contato com ela (miomas submucosos), ou se obstruírem a passagem pelo colo do útero e em direção às trompas, podem ser um fator de infertilidade, por gerar obstáculos à gestação, atrapalhando o transporte dos espermatozoides até o óvulo ou dificultando a implantação e desenvolvimento do bebê na cavidade uterina.

Quais os riscos de engravidar com miomas?

Os riscos na gravidez são principalmente relacionados aos miomas com crescimento em direção à cavidade uterina (submucosos), que aumentam a probabilidade de aborto, porque podem dificultar a implantação e o desenvolvimento do bebê e da placenta.

Além disso, em alguns casos, os miomas também podem causar parto prematuro, redução do crescimento fetal, dor durante a gestação, hemorragia após o parto e aumentar a chance de cesariana.

Como é feito o diagnóstico?

Ao se desconfiar de miomas devido às queixas da paciente, principalmente de sangramento ou dor, ou ao se examinar a pelve e notar um útero aumentado, o ginecologista pode solicitar uma ultrassonografia, que demonstra os miomas com facilidade e clareza. Às vezes, quando necessitamos de uma avaliação mais detalhada para definir o tratamento, solicitamos também uma ressonância magnética ou uma histeroscopia diagnóstica.

Quais os tratamentos para os miomas?

O controle do sangramento e da dor em casos leves é feito com anticoncepcionais e analgésicos, mas quando precisamos remover os miomas ou reduzir o seu tamanho, recorremos a intervenções médicas, como cirurgia para retirada dos miomas (miomectomia), ou procedimentos para diminuição dos miomas (miólise por radiofrequência ou embolização dos miomas, por exemplo). Quando é necessário um tratamento definitivo, pode-se indicar a cirurgia para retirada do útero (histerectomia).

Em quais casos a cirurgia de retirada de miomas e do útero são indicadas?

A cirurgia de retirada de miomas, ou miomectomia, é a principal opção para as mulheres que necessitam de tratamento e desejam manter o útero com todo o seu potencial reprodutivo, assim como para aquelas com histórico de infertilidade, aborto ou complicações em gestação prévia relacionadas ao mioma existente. E, como em todo tratamento em que o útero é preservado, os miomas podem voltar, uma vez que a doença se origina a partir desse órgão e as pessoas que já demonstraram predisposição com diagnóstico de miomas e necessidade de tratamento têm um risco maior.

A chance de precisarem de um novo tratamento ao longo dos anos seguintes fica ao redor de 20%. Isso ocorre porque os fatores de risco e os mecanismos existentes que levaram ao surgimento dos miomas já tratados continuam a atuar no organismo da mulher.

A retirada do útero, chamada histerectomia, é indicada quando busca-se o tratamento definitivo e completo dos miomas, sem risco de recidiva, desde que a mulher esteja de acordo com a retirada do órgão e saiba que, com isso, encerra a possibilidade de gestação futura no seu ventre.

Há dados de quantas mulheres no Brasil e no mundo têm miomas?

Os miomas estão presentes em até 50% das mulheres entre 30 e 50 anos, porém pelo menos metade dessas mulheres são assintomáticas e não têm necessidade de tratamento, apenas de acompanhamento. Ainda assim, considerando a outra parte que desenvolve sintomas, um número significante da população feminina necessita de orientação médica especializada e, eventualmente, de tratamento.

É bom chamar a atenção que, ainda que busquemos sempre que possível os tratamentos conservadores, hoje os miomas são responsáveis por aproximadamente 40% das cirurgias para retirada do útero, no mundo.

Fonte: Mariano Tamura, ginecologista do Hospital Albert Einstein (SP) e coordenador do setor de mioma uterino do Departamento de Ginecologia da Escola Paulista de Medicina da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Saúde