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Adolescentes que se automutilam: por quê?

Especialistas têm relatado um aumento desse tipo de problema em adolescentes - iStock
Especialistas têm relatado um aumento desse tipo de problema em adolescentes Imagem: iStock

Fábio de Oliveira

Agência Einstein

02/06/2020 11h27

Cerca de um em cada cinco adolescentes relata já ter se ferido para aliviar algum tipo de dor de fundo emocional. O dado vem de uma revisão de 36 estudos realizados em países, como Estados Unidos, Canadá e Nova Zelândia. O trabalho foi publicado no periódico científico suicide and Life-Threatening Behavior da American Association of Suicidology. No Brasil, ainda não há estatísticas sobre esse fenômeno, mas os médicos têm notado um crescimento no número de casos.

"Não temos isso documentado em nenhuma pesquisa, mas observamos um aumento da automutilação", diz a psiquiatra Jackeline Giusti, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo. "Atendo bastante adolescentes e minha impressão é que a prevalência aqui seja similar." Ela dá uma indicação objetiva: o instituto tinha um ambulatório específico para problemas relacionados ao uso de drogas até por volta de 5 anos atrás. "Daí começamos a receber também casos de automutilação."

Hoje, de acordo com a especialista, as ocorrências de autolesão não suicida, como o problema é classificado pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais V (DSM-5 na sigla em inglês), têm superado as relacionadas ao uso de substâncias capazes de causar dependência química.

Um panorama mais claro da automutilação no país promete ser obtido por meio da Política Nacional de Prevenção ao Suicídio e à Automutilação. Ela foi sancionada em abril deste ano e, agora, está em fase de regulamentação no Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Prevê, entre outras coisas, a notificação compulsória e em caráter sigiloso para os casos de tentativa de suicídio e automutilação por estabelecimentos de saúde, segurança, escolas e conselhos tutelares. "A ideia é ter um retrato mais fidedigno", diz Marcelo Couto, que é diretor de Desafios Sociais no Âmbito Familiar da Secretaria Nacional da Família. "Estima-se que 20% dos casos de suicídio, por exemplo, não sejam notificados."

Por meio da campanha Acolha a vida, o objetivo é sensibilizar a população sobre o tema. "Ainda há muito preconceito", fala Couto. "A automutilação não é algo para chamar a atenção." O ministério pretende capacitar, entre outros, educadores, líderes comunitários e religiosos para lidar com a situação.

Para Jackeline Giusti, a iniciativa é boa. "Começa-se a falar mais sobre o assunto." Além disso, dissemina-se mais conhecimento e as pessoas acabam procurando ajuda ou tentando entender um pouco mais até para prestar auxílio. "Por outro lado, nosso sistema de saúde continua cheio. E não sei se tem sido feito um treinamento específico para esses casos."

Problema de jovens

A chamada autolesão não suicida é mais incidente no final da adolescência e começo da vida adulta. Não há uma razão exata que explique por que isso ocorre com mais frequência nesse grupo etário. "A adolescência é uma época de muita novidade, de muita pressão", explica Jackeline Giusti. Pressão da turma, para estudar, entrar na faculdade. É momento também de treino intenso de habilidades sociais. Segundo a psiquiatra, o adolescente é mais impulsivo por uma questão de maturidade cerebral. "É uma fase em que ainda não há tanto controle inibitório." Daí as ações muitas vezes irrefletidas. Os estudos mais recentes mostram maior prevalência entre as garotas, principalmente as pesquisas que usam os critérios de diagnóstico recentes do DSM-5.

Até 2013, a automutilação era classificada como um sintoma de transtorno borderline de personalidade, que é caracterizado por humor, comportamentos e relacionamentos instáveis. "Com o tempo, temos visto muitos pacientes que se automutilam sem esse tipo de transtorno", diz Giusti. Então, no DSM-5, o problema entrou na aba de condições para estudos posteriores, com alguns critérios diagnósticos. Dessa forma, foram iniciados estudos mais específicos sobre o problema, tentando categorizá-lo melhor.

Alguns trabalhos e especialistas defendem que ele já seja visto como um transtorno. "Os pesquisadores têm testado esses critérios diagnósticos para automutilação e os resultados apontam que ela deveria ser, sim, um transtorno à parte", explica Jackeline. "Seria como a ansiedade, que está presente, por exemplo, na depressão. É um sintoma em algum momento, mas existe o transtorno de ansiedade generalizado." Com a autolesão não suicida, seria algo semelhante.

O papel das redes sociais

Celebridades como o ator Johnny Depp e a cantora Demi Lovato já vieram a público contar que se automutilavam quando eram mais jovens. No caso de Depp, o divórcio dos pais foi um dos fatores preponderantes. Esse tipo de relato pode influenciar os adolescentes, sobretudo se estiverem passando por uma situação angustiante parecida. "Eles acabam se identificando com o sofrimento do personagem e podem adotar o mesmo comportamento", diz Jackeline Giusti.

Lady Gaga foi outra figura do universo pop a se abrir a respeito dessa questão. "Ela deixou claro que não é legal, tomou cuidado ao falar sobre o assunto", comenta a psiquiatra. As redes sociais talvez tenham contribuído para o aumento da incidência de autolesão. Elas muitas vezes são acessadas naquele momento de tristeza e, em alguns grupos dentro delas, o pessoal que ainda não chegou aos 20 anos encontra ideias para dar um tempo no sofrimento. Mesmo que seja momentâneo. "As redes sociais também funcionam como fornecedoras de modelos", fala a psiquiatra. Sem falar no bullying que pode rolar nessas plataformas, um gerador extra de pressão e angústia no paciente. "Daí, ele pode recorrer mais à automutilação", avisa Giusti.

Para os pais

O risco de automutilação é grande em situações nas quais o adolescente às vezes está deprimido, isolado e sob bullying. Só que não é recomendado perguntar diretamente se o jovem se machuca para diminuir a angústia em momentos assim. Isso pode fazer com que ele pense nisso como uma probabilidade para se aliviar, algo que talvez não tenha ainda considerado, avisa a psiquiatra. "Temos de tomar muito cuidado também quando vamos conversar sobre automutilação com um adolescente", diz a psiquiatra.

Essa cautela é necessária para não o influenciar. Muitas vezes ele encara como uma boa ideia. Quando se descobre que a autolesão é praticada, é importante conversar. "O pior é ignorar", conta Jackeline Giusti. Tem alguma coisa que que ajuda a minorar aquele sofrimento? Ouvir música, por exemplo? "O mais importante é acolher", finaliza a psiquiatra.

O tratamento

Inicialmente, os especialistas avaliam se existe algum transtorno psiquiátrico associado à automutilação. Ele deve ser tratado porque pode ser a fonte de angústia e sofrimento. "Não há nenhuma medicação específica. Existem medicamentos para tratar o mal associado, o que às vezes reduz um pouco a impulsividade", explica Giusti. "Isso ajuda no trabalho com o adolescente para ele não se machucar mais." E a psicoterapia é de grande auxílio.

A autolesão também chegou a ser considerada como uma tentativa de suicídio, mas, do ponto de vista do paciente, são coisas diferentes: ele se machuca para aliviar uma dor emocional. "Ainda hoje é possível encontrar um artigo ou outro que vai misturar automutilação com tentativa de suicídio", diz a psiquiatra.

Segundo ela, o DSM ajudou bastante a esclarecer essa confusão, que está na cabeça de muitas pessoas e até de profissionais de saúde. Mas alerta: "Diante de uma automutilação, é importante ficar atento porque esse paciente tem maior risco de tentar suicídio." Ele próprio pode dizer que já tentou se matar em outra oportunidade, mas, agora, se cortou porque queria aliviar o sofrimento. Estudos científicos mostram essa maior probabilidade porque são pessoas que têm problemas emocionais intensos. Por isso, a necessidade de um cuidado geral.

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