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"Perdi mãe, irmão e tio para covid-19 e pessoas continuam fazendo festinha"

Da esq. para dir., o irmão Vitor, a mãe Elza, Roseli e o irmão caçula, Emerson - Arquivo pessoal
Da esq. para dir., o irmão Vitor, a mãe Elza, Roseli e o irmão caçula, Emerson Imagem: Arquivo pessoal

Gabriela Ingrid

Do VivaBem, em São Paulo

08/05/2020 14h00

Roseli Pereira Lopes, 48, teve seis membros da família infectados pelo novo coronavírus, infelizmente três deles morreram: sua mãe, seu tio e seu irmão. Todos de Itaquera, bairro da zona leste de São Paulo. Dados da prefeitura mostram que a doença é mais letal na periferia, justo onde Lopes continua notando festas e aglomerações. Com mais de 8.000 vítimas no Brasil, sua dor se repete todos os dias, mas ela clama para que sua história conscientize mais pessoas a respeitarem o isolamento. Veja seu relato abaixo:

"Meu tio morreu no dia 25 de março, um dia depois de a quarentena começar em São Paulo. Tinha 75 anos. Os sintomas começaram a aparecer na quinta-feira, dia 19, e ele teve tosse e febre. No dia 20 já piorou, sentiu falta de ar e foi levado para o Hospital Santa Marcelina. Ficou internado e intubado até morrer. Os médicos falaram que ele tinha tomado antibiótico e que tinha melhorado, mas não adiantou.

A gente ficou assustado, foi muito rápido. O teste para a covid-19 só saiu agora, no fim de abril, mas já suspeitávamos. No mesmo dia fui ficar com a minha mãe, para impedir ela de ir ao enterro. Com 77 anos, ela era do grupo de risco. Além disso, tinha bronquite asmática e era hipertensa. Ela sentiu muito a morte do irmão, então fiquei com ela por uns quatro dias, até se sentir melhor.

No dia 2 de abril, quando liguei para ela, me disse que no dia anterior começou tosse, mas achava que era de nervoso, e que estava se sentindo quente. Nesse meio tempo, meu irmão, de 46 anos, estava com dor nas costas e tosse, mas achava que era estresse.

Pedi para minha sobrinha ir visitar minha mãe para fazer inalação e medir a temperatura enquanto eu estava a caminho. A febre ia e vinha, mas eu comecei a pensar que era emocional, por causa da preocupação com meu irmão. De sexta para sábado ele foi levado ao hospital porque tinha passado muito mal na garagem. Pediu para não falar para a mãe para ela não ficar agoniada. Ele foi transferido para a UTI, mas a gente escondeu isso dela.

Tio - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A mãe, Elza, e o tio, Roberto
Imagem: Arquivo pessoal
Minha mãe era muito ativa, ia na ginástica, médico, tudo sozinha. Na casa dela tinha câmeras, que a gente ficava monitorando. No sábado ela amanheceu bem, sem tosse ou cansaço. Eu levantei seis vezes à noite para ver como ela estava dormindo. Mas a tarde o tempo foi mudando e ela foi entrando em crise com a tosse.

Ela disse que o peito estava doendo, a nuca, estava com vontade de vomitar e suava muito. Como sou enfermeira, sabia que aquilo era sintoma de infarto. Então a levei para a UPA do metrô Itaquera. Ela estava tão cansada que não conseguia nem andar para chegar dentro da unidade. A médica já chegou falando que era covid-19. Mas eu falei que ela não teve contato com ninguém.

A doutora colheu os exames, mas pediu para interná-la em isolamento. Eu e meu outro irmão, o caçula, vimos ela do vidro e ela parecia tranquila. A gente ficou mais tranquilo também.

Voltamos eu e ele para a casa dela para pegar os remédios que ela tomava e as receitas. Meu irmão voltou para a UPA no dia seguinte, domingo, dia 5 de abril, umas 10h. A enfermeira disse que a mãe estava estável. Ele foi embora para casa. Ao meio-dia ligaram para a casa do meu irmão que estava internado, solicitando um familiar na unidade. Pensamos que o médico ia adiantar a visita, mas minha mãe tinha morrido.

Parece que o médico foi tentar intubá-la, mas ela não resistiu. O resultado do teste saiu só agora, foi coronavírus. Na certidão de óbito estava como causa indeterminada, hipertensão arterial sistêmica.

Vitor e a mãe, Elza - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
O irmão, Vitor, e a mãe, Elza
Imagem: Arquivo pessoal
No mesmo dia meu irmão foi intubado. O médico só faltou me perguntar se eu acreditava em milagre. Na sexta, dia 10 de abril, chamaram para alguém ir até o hospital com o documento dele. Eu já sabia. Fazia cinco dias que tinha perdido minha mãe, 15 dias antes havia sido meu tio. Não queria essa notícia. Não pudemos nem reconhecer o corpo dele, foi por foto do celular. O da minha mãe conseguimos, do meu tio também. Cheguei a duvidar do enterro do meu irmão. É caixão lacrado, sem velório, não pode ver nada.

No caso da minha mãe, exigi que trocasse a roupa dela. Perguntei onde estava escrito essa lei que eu não podia trocar minha mãe. Não teve velório, mas coloquei a santinha e o terço dela, e ela usou o batom que adorava. Ainda estou incrédula, foi muito rápido. Depois minha cunhada me mostrou na câmera que duas vezes por dia minha mãe ia no mercadinho da rua.

Fizemos testes e descobrimos que meu irmão mais novo, de 40 anos, teve também, minha cunhada, 46, e meu sobrinho, 17. Estão bem. Eu não peguei.

No dia 1º de maio fiquei assustada com o tanto de gente na rua, festas cheias de gente a cada quarteirão. Não é possível que as pessoas não se conscientizam. Não esperava que ia acontecer na minha família também.

Um raio caiu três vezes no mesmo lugar.

É desumano não receber um abraço nessas horas, não poder fazer velório, não poder reconhecer irmão. E tem muita gente que não está nem aí.

Eles estão vivendo a vidinha deles, mas o povo está sofrendo. Se todos ajudarem, vai ser mais fácil voltar à rotina. Eu também quero sair, visitar minha família, dar um abraço neles, mas nem isso pude fazer. Muitos não têm noção como um abraço me fez falta."

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