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Após ver luta da minha filha na UTI, decidi cuidar da saúde e perdi 33 kg

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Lielson Tiozzo

Colaboração para o VivaBem

07/05/2020 04h00

Sedentário e pesando 100 kg, Lielson Tiozzo, 33 anos, resolveu emagrecer pois sabia que os problemas trazidos pelo excesso de gordura poderiam o impedir de ver sua filha crescer. A seguir, o jornalista conta como mudou hábitos, se apaixonou pela corrida e chegou aos 67 kg:

"O campeão olímpico Haile Gebrselassie diz que 'um dia sem corrida é como um dia sem comida'. Eu precisei passar por algumas duras situações para ter uma boa relação com a comida e a corrida no meu dia a dia. Desde a juventude até os meus 29 anos não tive nenhum cuidado com a alimentação e a saúde.

Frituras, refrigerantes, alimentos altamente processados e especialmente o açúcar entravam no meu cardápio sem qualquer controle. Quando ia num rodízio de comida japonesa com meus amigos, fazia questão de competir para comer mais temakis. Gostava de tomar muitas cervejas e diversas bebidas alcoólicas.

Apesar do relaxo, fazia exames de rotina. Tenho um histórico familiar alarmante, com pai, tios e avós diabéticos. Por isso, meus pais sempre foram muito preocupados comigo, porque sabiam dos riscos e sempre me alertavam. Confesso: cumpria tabela. O resultado dos exames era sempre o mesmo. Colesterol "bom" com índice bem baixo e o "ruim" bem alto. O triglicérides estava sempre acima do recomendado para a minha idade. Por diversas vezes ouvi que tinha muita gordura no fígado. Os médicos avisavam que eu poderia ter algum problema grave. Mas nunca liguei.

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
Em 2013 tive um momento muito difícil. Sou pai das gêmeas idênticas Clara e Valentina. Na oitava semana de gravidez, minha esposa e eu ficamos sabendo que Valentina tinha restrição de crescimento. Seria uma gestação duríssima para a minha mulher, Valéria, com risco de morte para as duas crianças.

Depois de 29 semanas cercadas de muitas incertezas e um estresse que me fazia comer em demasia, as meninas nasceram. Infelizmente, Valentina resistiu apenas 50 minutos. Ela tinha apenas 510 g e 25 cm de comprimento. Imagine você, leitor, o quanto ambíguo é para um pai celebrar o nascimento de uma filha e no mesmo dia lamentar a morte de outra.

Clara precisou de 86 dias de internação numa UTI neonatal antes de ir para casa.

Entre transfusões de sangue, leite materno doado, uma cirurgia, complicações respiratórias e diversas injeções, ela me deu uma grande lição de como valorizar a vida. Um ser tão pequenino lutava com bravura contagiante"

Mesmo com essa inspiração, o começo de minha transformação ainda levou um tempo. Entre o sentimento de luto pela perda da Valentina misturado às comemorações das conquistas da Clara, eu sempre encontrava um motivo para comer (e muito) somente o que me dava prazer. A bebida fazia parte destes momentos. Talvez eu tenha entrado em depressão, mas nunca soube.

Até que no dia 31 de dezembro de 2014, às vésperas de celebrar a chegada de mais um ano, precisei recorrer a uma farmácia. Por curiosidade, me pesei. O ponteiro da balança bem antiga mostrou 95 kg, mas ao lado havia um aviso de que o aparelho estava com defeito e era necessário somar mais 5 kg ao resultado. Ou seja, estava com 100 kg!

Pensei que os 3 dígitos na balança poderiam abreviar minha vida e que de nada iria adiantar a luta da Clara para sobreviver, pois não veria minha filha crescer. Precisava emagrecer e buscar saúde"

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
Como já tinha um tênis que havia comprado para correr nos tempos de "relaxado", só dependia de mim para começar a praticar atividade física. Antes do 'estalo' não havia consistência. Era um treino ocasional, mal feito e olhe lá. Sabia que agora precisava ser diferente, estabelecer uma rotina séria de exercícios e me policiar para cumpri-la.

Conversei com alguns profissionais de educação física para receber instruções. Todos me alertaram que a corrida só faria efeito no emagrecimento se eu também seguisse uma alimentação saudável. Então, decidi cortar todos os excessos. Escolhi ser radical apenas em um ponto: o álcool, que eliminei da minha vida. Entre comer um doce e tomar uma cerveja de vez em quando, decidi ficar com as sobremesas. Percebi que minha relação com a bebida era emocional e decidi ser mais forte. Passei a ser "zero álcool".

Meu prato era equilibrado, com uma quantidade regulada de carboidratos e proteínas. Não abro mão do arroz com feijão, mas cortei a batata frita e carnes empanadas. O grelhado passou a ser o protagonista, alternando com ovos. Inclui muitas frutas no cardápio, especialmente quando surgia a vontade de comer um doce ou algo mais calórico. Desde então procuro também beber pelo menos 3 litros de água por dia.

Decidi que faria três boas refeições diárias: café da manhã, almoço e jantar. Vez ou outra incluo um lanchinho, mas somente para não ficar com fome. No começo de tudo, fazia contas e estabeleci um "déficit calórico" (consumindo menos calorias do que meu corpo precisava), a fim de potencializar a minha perda de peso.

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
Minha mulher havia comprado uma balança antes de nos casarmos. Ela estava encostada e passou a ser a minha aliada. Mês a mês eu via os resultados. Entre janeiro e julho de 2015, perdi 29 kg. Fiquei tão feliz e identificado com a corrida que decidi entrar numa segunda etapa deste processo. Eu me inscrevi para a minha prova de 10 km.

Conversei com uns amigos que disseram que até uma hora seria um bom tempo para um estreante completar a distância. Nos treinos, eu já fazia o percurso em 50 minutos e terminei a corrida em 44 minutos --marca que menos de 10% dos atletas amadores conseguem alcançar. Recebi muitos elogios, que serviram para fortalecer o meu vínculo com a corrida e o novo estilo de vida.

Percebi que buscar uma melhora na corrida me ajudava a me policiar ainda mais no treino e na dieta. Depois que você emagrece e se sente mais à vontade, corre o risco de dar uma relaxada. Atento a isso, passei a investir na 'performance'. Comprei um GPS, investi em bons pares de tênis e passei a ter um programa de treinamentos. Comprei o livro "Fórmulas de Corrida" do treinador estadunidense Jack Daniels. Entre uma consulta ou outra ao autor por email, fui aprendendo a montar a minha própria planilha.

Mas faltava uma 'supervisão'. De olho no que acontece no atletismo, especialmente nas grandes maratonas do Brasil e do mundo, eu me interessei na rotina dos quenianos. Passei a procurá-los nas redes sociais. Quando comecei a falar com alguns campeões, eu me deparei com pessoas humildes, dispostas a conversar e, mais ainda, a passar dicas de treinamento. De certa forma, ficamos amigos. Quando alguns destes atletas vêm competir no Brasil, costumo encontrá-los. Já perdi as contas das vezes que fui a um hotel bater um papo sobre a vida e sobre corrida e, de vez em quando, entregar algumas doações de roupas.

Lielson com seu amigo queniano Titus Ekiru, terceiro colocado na São Silvestre de 2019 - Arquivo pessoal
Lielson com seu amigo queniano Titus Ekiru, terceiro colocado na São Silvestre de 2019
Imagem: Arquivo pessoal
Com alguns a amizade foi tão estreitada que existe a troca de presentes. Na minha última participação numa prova, a Meia Maratona de São Paulo, usei o uniforme do queniano Titus Ekiru, o terceiro colocado na São Silvestre de 2019. Isso fez um bem enorme para mim, uma vez que um ex-gordinho conseguiu vestir a roupa de um maratonista profissional que tem um dos melhores tempos do mundo.

Essa busca pela performance me obriga a controlar o descanso e a alimentação. Como um atleta de verdade. Agora não existe uma dieta para emagrecer, mas sim para ter energia suficiente para poder correr bem. O treino sempre tem um objetivo. Para conciliar a rotina do dia a dia com o esporte, preciso muitas vezes começar a corrida às 5h. Confesso que é muito complicado em dias mais frios, mas sempre me apego a tudo o que passei nessa jornada. Penso que agora os exames de sangue são dignos de elogios dos médicos.

Mais do que perder peso, minha mudança de hábitos fez ganhar muita coisa: saúde, disposição, amigos, medalhas. Minhas maiores alegrias são os recordes pessoais. Nos 10 km, por exemplo, consegui por algumas vezes corrê-los abaixo de 40 minutos. Os 5 km já foram concluídos em 18 minutos. Nesta distância, aliás, tive a felicidade de conquistar a quarta colocação numa prova disputada no Parque Ecológico do Tietê. Foi muito emocionante mostrar o troféu para a Clara —quem sempre me cobra a medalha de "finisher" quando chego em casa. Na meia maratona (21 km) —a minha distância favorita —tenho o tempo de 1h27m.

Já a Maratona (42 km) é o meu grande objetivo e o que atualmente me mantém disciplinado nos treinamentos e focado neste estilo de vida. Quero vencer essa distância em menos de três horas, o que significa melhorar 18 minutos da minha marca mais rápida. Por isso, espero ansiosamente pelo fim do período de isolamento para retomar os treinos nas ruas, rever os amigos e, em breve, quem sabe, contar a história de como consegui este feito.