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Com medo da covid-19, pessoas não vão ao hospital tratar infarto ou câncer

Pronto-socorro do Hospital Municipal Municipal Mboi Mirim vazio, em São Paulo - Cleber Souza/UOL
Pronto-socorro do Hospital Municipal Municipal Mboi Mirim vazio, em São Paulo Imagem: Cleber Souza/UOL

Gabriela Ingrid

Do VivaBem, em São Paulo

04/05/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Médicos notam redução em número de pacientes com doenças do coração e câncer nos hospitais
  • Explicação seria medo de contágio pelo novo coronavírus na própria instituição
  • Especialistas alertam que emergências não devem ser ignoradas, já que podem matar até mais do que o próprio vírus

O número de infectados pelo novo coronavírus nos hospitais só aumenta. Mas ao mesmo tempo, médicos têm notado uma redução significativa de pacientes com doenças que costumavam ser maioria nos corredores: câncer e cardiopatias.

A principal hipótese para esse "sumiço" é o medo de contaminação pelo Sars-CoV-2, que julgam ser mais perigoso do que essas outras doenças —o que não é verdade. "O risco de ter um infarto em casa e morrer por não procurar um pronto-socorro é muito maior do que pegar a covid-19", diz Pedro Silvio Farsky, cardiologista do Hospital Israelita Albert Einstein e do Instituto Dante Pazzanese, ambos em São Paulo.

O especialista confirma que ele e seus colegas notaram uma redução drástica de pacientes com emergências cardiovasculares, como infarto e AVC. "Agora, as pessoas vêm ao hospital só quando ocorre um agravamento do quadro, o que é muito perigoso", diz.

O tratamento para essas doenças só é eficaz se o atendimento for precoce. De acordo com Farsky, essa janela de eficácia dura poucas horas para o AVC e até 12 horas para o infarto.

Ricardo Costa, cardiologista intervencionista e presidente da SBHCI (Sociedade Brasileira de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista), diz que o infarto é a principal causa de morte no Brasil e no mundo. "Trata-se de uma emergência médica que precisa ser tratada com brevidade. O não-tratamento ou o tratamento retardado pode ser fatal ou deixar graves sequelas ao coração", alerta.

E o câncer?

Oncologistas revelam que o mesmo problema tem sido visto em pessoas com câncer. "Houve uma diminuição expressiva no número de pacientes que continuaram ou que iniciaram seus tratamentos oncológicos, sejam eles cirúrgicos ou clínicos, neste momento de pandemia", diz Rachel Riechelmann, head da Oncologia Clínica do A.C.Camargo Cancer Center, em São Paulo.

Dor no coração / Infarto - iStock - iStock
Sinais suspeitos de infarto devem ser levados a sério
Imagem: iStock

Até mesmo em centros de oncologia pediátrica houve diminuição de pacientes. O número de novos atendimentos na ONG Tucca (Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer), por exemplo, caiu 85%. De 25 novos atendimentos por mês, em abril esse número chegou a apenas cinco. A organização é parceira do Hospital Santa Marcelina, onde foi criado o único centro de Oncologia Pediátrica da Zona Leste de São Paulo.

"O câncer não deixou de ser grave por causa do coronavírus. Muito pelo contrário, estamos em uma situação pior, porque precisamos continuar tratando dos nossos pacientes em uma situação de calamidade pública", diz Sidnei Epelman, diretor do Departamento de Oncologia Pediátrica do Hospital Santa Marcelina, fundador e presidente da TUCCA.

Segundo Riechelmann, apesar de o medo pelo contágio ser compreensível, fugir do hospital, nesses casos, é muito perigoso. "O câncer é uma doença que não pode esperar e a pandemia deve continuar entre nós por um bom tempo ainda", diz. O sucesso do tratamento oncológico está muito atrelado ao diagnóstico e tratamento precoces.

A interrupção no tratamento pode acarretar desde um aumento no tamanho de um tumor até a recorrência da doença (que é quando o paciente já tratou um câncer, mas a doença volta).

Riechelmann explica que há pacientes que precisam fazer químio ou radioterapia antes de uma cirurgia, por exemplo, e se interromperem esse tratamento podem, consequentemente, ver o tumor mudar de tamanho e a cirurgia passar a não ser mais recomendada. "Além disso, há pacientes que poderiam passar por tratamentos simples, mas que ao postergá-los, acabam sendo submetidos a opções mais complexas".

O fenômeno da diminuição desses pacientes nos hospitais não é notado apenas no Brasil. Uma pesquisa realizada pelo site Angioplasty.Org, mostrou que o número de pessoas que morreram em casa de ataque cardíaco em Nova York, nos Estados Unidos, entre 30 de março e 5 de abril, foi 800% vezes maior do que o mesmo período em 2019.

O levantamento ainda revelou que no período houve uma queda de 50% ou mais no número de pessoas tratadas nas emergências de hospitais para o mesmo tipo de problema.

Se essas paradas cardíacas tiveram algo a ver com o coronavírus, não se sabe. Mas o próprio Angioplasty.Org afirma que muitos dos casos poderiam ter sido tratados prontamente, salvando essas vidas.

Emergências não devem ser ignoradas

É claro que não se deve correr riscos desnecessários e o isolamento social e a restrição de circulação visam justamente minimizar o risco de contágio pelo novo coronavírus. Mas isso não pode sobrepor certas situações de emergência que oferecem um maior risco de morte, como é o caso do infarto, por exemplo.

Segundo Costa, no caso de um problema cardíaco, é importante ficar atento aos sinais para saber quando é uma emergência. De maneira geral, os sinais e sintomas típicos de infarto são progressivos e vão piorando.

O médico diz que os sinais são dores no peito em queimação ou aperto que podem irradiar para braços, ombros, pescoço, queixo, estômago ou costas, podendo estar acompanhadas de mal-estar, sudorese, náuseas, vômito, sensação de cansaço, fraqueza e falta de ar.

Sala de quimioterapia - iStock - iStock
A interrupção no tratamento do câncer pode levar a um aumento no tamanho de um tumor até a uma recorrência da doença
Imagem: iStock

Mas manifestações menos específicas podem ocorrer em pacientes idosos e em pessoas com diabetes. O mais importante é ficar atento e não hesitar em procurar atendimento médico imediatamente em caso suspeito.

Pacientes com fatores de risco conhecidos para doença coronária devem ter mais atenção ainda, pois configuram grupo de maior risco. "Fica a mensagem de alerta: o infarto não tem idade ou classe social e também não respeita quarentena", diz Costa.

Se o medo são os indivíduos com coronavírus no hospital, é importante saber que os atendimentos são fisicamente separados. "Tem segurança para evitar o contágio. No Einstein separamos por andar. Ninguém circula de um lado para o outro", diz Farksy.

Segundo ele, até nos exames complementares os equipamentos são distintos, assim como as salas. "É um temor injustificável. Laboratórios e hospitais têm protocolos de proteção desses pacientes", diz.

Epelman também afirma que o espaço de oncologia pediátrica no Santa Marcelina está destinado neste momento apenas para quem precisa continuar o tratamento.

No A.C.Camargo, é realizada uma triagem de sintomas na entrada da instituição para todos os pacientes e acompanhantes e ainda há uma entrada separada no pronto-atendimento para sintomas gripais. No caso de pacientes oncológicos com sintomas de covid-19, há uma triagem online, para que eles se desloquem até a unidade apenas se realmente houver necessidade. "Além disso, mantemos uma segregação completa dos pacientes com coronavírus", diz Riechelmann.

A visita dos pacientes com câncer aos hospitais e ambulatórios, em muitos casos, é diária. Por isso, mesmo neste momento de atenção, a recomendação é que eles sigam os protocolos estabelecidos pelos médicos e pelas instituições. Algumas medidas, como a utilização de máscara e a higienização das mãos, já são adotadas durante a rotina e agora devem ser intensificadas.

No geral, a máxima é: se houver uma emergência, não pense duas vezes antes de buscar ajuda no hospital. Diferentemente das residências, as instituições estão equipadas não apenas para cuidar de pessoas com covid-19, mas também daqueles que têm outros problemas de saúde com risco de vida.

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