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Ela não esperou carência do plano de saúde e perdeu 80 kg sem bariátrica

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Bárbara Therrie

Colaboração para o VivaBem

16/04/2020 04h00

Com 156 kg e uma coleção de momentos ruins devido à obesidade —desde ficar entalada na catraca do ônibus até ter de chamar o bombeiro para serrar a aliança presa no dedo —, Priscila Furtado, 31, achou que só emagreceria com bariátrica. Enquanto esperava os dois anos de carência do plano de saúde, a auxiliar administrativo decidiu mudar de hábitos e conseguiu chegar a 76 kg sem a cirurgia. A seguir, ela conta como:

"Sempre fui uma criança grande, mas só na pré-adolescência tive meu primeiro ganho de peso considerável. Após um problema respiratório, precisei tomar remédio com corticoide como parte do tratamento e comecei a engordar. Claro que a culpa não foi só do remédio, eu também era sedentária e comia em excesso. Assim, cheguei a 101 kg.

Minha mãe me levou a uma endocrinologista, a médica me passou uma dieta e uma fórmula natural para emagrecer. Perdi 10 kg. Nessa época, sofria muito bullying na escola. Ficava chateada e tinha dificuldade de fazer amizade. Enquanto as outras crianças brincavam no recreio, eu me isolava e comia biscoito.

Priscila 2 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
Em 2010, conheci na internet meu marido, o Júlio César. Eu pesava 105 kg quando ficamos noivos. Faltando seis meses para o casamento, comecei a procurar o vestido. Queria um modelo de manga longa. Provei vários, mas nenhum entrava no meu braço.

Teve um dia que fui em uma loja acompanhada de uma amiga e uma tia. A vendedora já se surpreendeu quando perguntou quem iria casar e respondi que seria eu. Ela falou: 'Você vai se casar? Vai ser muito difícil achar um vestido para o seu tamanho'. Fiquei constrangida e disse que iria emagrecer até o casamento. Ela foi irônica e disse: 'Todas as noivas falam que vão emagrecer'. Saí da loja chorando e decidida a perder peso.

Em seis meses, fiz uma dieta por conta própria e dançava zumba em casa todos os dias, por pelo menos uma hora. Emagreci 30 kg e entrei na igreja com meu vestido dos sonhos, pesando 75 kg.

Priscila 3 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
Depois do casamento, mudei para a cidade do meu marido, sou do Rio de Janeiro e ele de São Paulo. Ao ficar longe da minha família e dos amigos, descontei minha saudade e nostalgia na comida. Ia ao supermercado e comprava salgadinho, 20 pacotes de biscoito, alimentos que me relembravam os bons momentos que tinha passado com as pessoas queridas que estavam longe.

Em pouco tempo, recuperei os 30 kg que havia emagrecido. Em cinco anos, engordei mais 51 kg. Aos 29 anos, eu pesava 156 kg e comecei a passar várias situações difíceis por causa da obesidade. Uma delas foi no dia em que fiquei entalada na catraca do ônibus com um saco de salgado na mão. Só consegui passar para o outro lado porque o cobrador me ajudou, me empurrando. Todo mundo ficou olhando e umas meninas começaram a rir. Morri de vergonha. Outra situação constrangedora foi quando um bombeiro teve de serrar minha aliança que ficou presa no meu dedo.

Foram muitos momentos complicados, até que em 2018 meu supervisor no trabalho trouxe um uniforme tamanho 52, mas meu número era 60. Quando falei que não servia, ele debochou e tirou fotos para, segundo ele, pedir para a costureira fazer uma roupa 'do meu tamanho'.

Fiquei mal e naquele dia decidi fazer a cirurgia bariátrica. Não tinha plano de saúde. Minha sogra conheceu um vendedor que disse que tinha um plano que liberava a cirurgia em seis meses. Fiz o plano, só que como eu estava com obesidade mórbida, na avaliação me informaram que eu deveria esperar a carência de dois anos para a liberação.

Não queria esperar esse tempo, não podia continuar daquele jeito. Foi quando eu pensei: 'Vou tentar mais uma vez. Tenho dois anos para mudar. Se conseguir, não vou precisar da cirurgia. Se não conseguir, faço a bariátrica'.

Meu processo começou no dia 25 de fevereiro de 2018. Estava com 156 kg e estabeleci a meta de perder 80 kg em dois anos. Minha primeira mudança foi na alimentação. Adotei a dieta low carb e também o jejum intermitente por conta própria. Meu cardápio era basicamente uma carne e saladas. Como restringir a alimentação me gerava ansiedade, comecei a caminhar 30 minutos na rua. Não conseguia mais do que isso porque ficava com as coxas assadas e com o corpo dolorido. Em um mês, perdi 10 kg, mas percebi que não conseguiria levar essas escolhas radicais por muito tempo.

Priscila 4 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
Eu me inscrevi na academia e lá tinha um programa de emagrecimento, que dava direito a um acompanhamento com a nutricionista e reunião com coach de emagrecimento. Quando falei sobre minha dieta, a nutricionista me deu uma bronca e disse que eu estava fazendo tudo errado. Ela montou um plano alimentar e continuei com o jejum intermitente, mas ela ajustou a quantidade de comida e acrescentou o carboidrato e as leguminosas ao meu cardápio.

No almoço, passei a comer mandioquinha, grão-de-bico, mais opções de salada (alface, rúcula, tomate, pimentão, pepino brócolis) e carne. Para driblar a vontade de refrigerante, bebia água com gás. No lanche da tarde, tomava um iogurte ou comia frutas. O cardápio do jantar era o mesmo do almoço.

No segundo mês sequei mais 8 kg de forma mais saudável e respeitando meu corpo e meu ritmo. Meu relacionamento com a comida e com a atividade física foram melhorando, já estava praticando exercícios todos os dias, fazia caminhadas no fim de semana e participava de corridas de ruas.

Mas no começo não foi fácil. Eu chorava toda vez que ouvia o carro da pizza passando na minha rua"

Em um ano, eliminei 60 kg, cheguei a 96 kg cheia de confiança e mostrando para mim mesma que era capaz. Com essa conquista, vieram outras. Quando eu estava obesa, tinha trancado a faculdade, estava desanimada e as cadeiras das salas eram pequenas para mim. Depois que emagreci, voltei a estudar e mudei o curso para psicologia. Vi a importância da mente nesse processo e entendi que usava a comida como refúgio emocional.

Priscila 5 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
Em 2019, dei continuidade à minha mudança, faltavam mais 20 kg. Troquei a dieta para ganhar massa magra, basicamente acrescentei arroz, feijão e aumentei a quantidade de carboidrato. Em janeiro de 2020, um mês antes de acabar a carência do plano, já estava com 76 kg.

Foi maravilhoso atingir minha meta de perder 80 kg em dois anos sem precisar fazer a bariátrica. Eu me sinto muito vitoriosa, porque acredito que com a cirurgia eu eliminaria o peso, mas certamente continuaria com a mesma mentalidade. Ao emagrecer com esforço, dedicação, me alimentando corretamente e fazendo exercício físico, construí um novo estilo de vida, que vou levar para o resto da minha jornada.

Assim como foi meu pensamento um dia, muitas pessoas acham que só dá para emagrecer com remédio e cirurgia. Mas sou a prova viva de que há esperança e de que, com foco, determinação e ajuda profissional, é possível emagrecer de forma natural e com qualidade de vida."