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Ela perdeu namorado para a covid-19: "Não podemos nos achar fora de perigo"

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Janaina Garcia

Colaboração para VivaBem

07/04/2020 04h00

A última vez que a advogada Fernanda Credídio, 39, falou com o namorado foi no último dia 25. Ele estava prestes a ser intubado no Hospital São Luiz, em São Caetano do Sul, na Grande São Paulo, para onde havia sido levado, na véspera, com uma persistente falta de ar.

Ao telefone, ele relataria o medo de morrer e reforçaria um desejo que havia expressado em outras ocasiões: "se não der certo", que ele fosse cremado, e as cinzas, lançadas no Autódromo de Interlagos (zona sul de São Paulo), lugar que era uma das paixões da vida do instrutor de pilotagem. Foram suas últimas palavras.

César Augusto Visconti tinha 43 anos. Passava alguns dias na casa da namorada Fernanda, em São Bernardo do Campo, também na região metropolitana, e outros na casa dele, em São Caetano.

Fernanda conversou com a reportagem de VivaBem semana passada. Ela contou que, a despeito da perda do namorado para a covid-19 —doença causada pelo coronavírus que já infectou mais de um milhão de pessoas pelo mundo—, César não tinha nenhum fator de risco entre os tantos elencados para a pandemia: além de ter menos de 50 anos, era saudável, sem sobrepeso, sem hipertensão e sem quaisquer doenças preexistentes. Sequer fumava.

"Ele começou com uma tosse seca no último dia 17, e, como ela não passava, foi a um médico particular, que avaliou ser uma tosse alérgica, de sinusite, e receitou antibiótico. Não procuramos um hospital, mesmo porque as instruções eram as de que, isso, só em último caso. Eu trabalhei até terça, ele, até quarta, aí ele veio para a minha casa —passamos até o final de semana anterior juntos", relata.

De acordo com a advogada, embora medicado com antibiótico, César começou a apresentar febre de 39º. Ele estava na casa dela, mas como os filhos de Fernanda de 11 e 7 anos chegariam lá nos dias seguintes, ele achou por bem, na segunda (23), ir para sua casa na cidade vizinha.

"Ele se despediu e foi para a casa dele, pois se sentia muito mal. Como começou a apresentar muita dor no peito para respirar, voltou ao médico, que o encaminhou ao hospital. No caminho até lá, ele me ligou. Ao chegar lá, ligou de novo para me dizer que ficaríamos dois dias sem poder conversar, porque ele seria intubado para melhorar mais rápido. Mas disse também que, se algo não desse certo, que eu jogasse as cinzas dele em Interlagos —coisa que ele sempre falava, mas pediu que eu não esquecesse. Imagine ouvir isso de alguém que está prestes a entrar em uma UTI? É muito complicado..."

Fernanda conta que, embora ela e o namorado tivessem decidido ficar em casa a partir da metade da semana anterior à ida dele ao hospital, a gravidade da doença não era algo de que eles fossem completamente conscientes. Ao menos, não para perfis fora dos chamados grupos de risco.

Fernanda e César 2 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
"Acho que o fica disso tudo para mim, é que a gente não pode achar que está fora de perigo. É dar valor para a vida, para as pessoas, para os abraços"
Imagem: Arquivo pessoal

"Nós não tínhamos tanta noção da gravidade dessa doença, resolvemos ficar em casa porque, no caso dele, havia os sintomas de gripe ou alergia; no meu, o fiz por causa da minha mãe e da minha avó, ambas com mais de 60 anos. Eu respeitava a quarentena por elas, não por mim —e nem eu, nem o César julgávamos que haveria um risco de morte a pessoas como nós por conta de idade ou outros fatores de risco. Isso me apavora", desabafa.

A advogada acha difícil ou praticamente impossível definir onde César contraiu o vírus —embora um amigo dele tenha ido parar na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) por conta da covid-19, o piloto não havia tido contato recente com ele. O teste de César, por sinal, ficou pronto até rápido: ele ainda estava vivo.

"Acho que o caso do César, totalmente fora de grupos de risco, é só mais um entre tantos de que a gente nem tem notícia. É importante que as pessoas saibam disso. Estou isolada com meus filhos e é praticamente certo que tenho o vírus, embora não tenha desenvolvido sintomas. Mas preciso ficar em casa porque, se estiver infectada, agiria com um vetor lá fora e poderia ser pior para outras pessoas", define.

A advogada disse não ter recebido nenhum contato ou orientação dos serviços públicos de saúde mesmo tendo convivido com uma pessoa comprovadamente infectada pelo coronavírus por vários dias. Por cautela, pôs a si própria e aos filhos em isolamento pro 14 dias. César não teve velório e deve ser cremado em até 14 dias.

Instrutor faria 44 anos

Emocionada, Fernanda lembra que, na sexta (3), o namorado faria 44 anos.

"Ele era uma pessoa muito alegre, um sujeito muito carinhoso que amava muito a filha dele, de 15 anos, a mãe, a família dele. Amava muito estar vivo. Acho que o fica disso tudo para mim, dessa situação toda, é que a gente não pode achar que está fora de perigo. É dar valor para a vida, para as pessoas, para os abraços —agora que estou aqui isolada, sem poder ter o abraço de quem eu amo, é que vejo o quanto essas coisas têm valor."

Ao final da entrevista, a advogada fez questão de salientar o quanto que, para ela e para os familiares e amigos de César, era importante que ele não se tornasse apenas mais um número da pandemia. "Agradeço por não deixar essa história se perder".

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