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Urgência médica na pandemia: "Fiquei internada e lutei contra muitos medos"

Larissa Leiros Baroni ficou internada por 4 dias por conta de uma infecção nos rins - Arquivo pessoal
Larissa Leiros Baroni ficou internada por 4 dias por conta de uma infecção nos rins Imagem: Arquivo pessoal

Larissa Leiros Baroni

Do VivaBem, em São Paulo

06/04/2020 10h30

Larissa Leiros Baroni, editora do UOL, enfrentou uma situação que quase ninguém gostaria de passar nesses tempos, ela teve uma emergência médica não-relacionada ao coronavírus e teve que ficar internada. Abaixo, segue o relato:

"Em tempos de pandemia de coronavírus, o único lugar que eu não queria estar era em um hospital, mas mesmo sem ter qualquer um dos sintomas da covid-19, uma febre de 38,4º e uma intensa dor no lado inferior direito das costas me obrigaram a ir ao pronto-socorro.

Os primeiros sinais de uma infecção urinária surgiram na minha segunda semana de isolamento, mas como a orientação é procurar o hospital só em casos emergenciais, optei por aumentar a ingestão de água —algo que cotidianamente não faço. Estava certa que melhoraria. Mas não.

Na semana seguinte, comecei a sentir uma dor estranha nas costas, que a princípio relacionei com a falta de postura no home office. Mas mais uma vez estava errada e os remédios contra dor muscular não fizeram efeito algum. A dor só se intensificou, até que chegaram os calafrios e a febre de 38,4º.

Apesar de todos os indícios de uma emergência, ainda tinha muito medo de ir ao hospital e só fiquei mais segura em tomar essa decisão após conversar com um amigo médico que me alertou sobre a possível gravidade da minha situação e me acalmou sobre a segurança dos procedimentos médicos. Já imaginou eu ir tratar de um problema e sair de lá com outro ainda maior?

Carta que o pessoal da cozinha do hospital enviou junto com a refeição - Arquivo pessoal
Carta que o pessoal da cozinha do hospital enviou junto com a refeição
Imagem: Arquivo pessoal

Era uma quinta-feira, 10h. Cheguei ao Hospital São Luiz, em São Caetano do Sul (SP), com o coração acelerado. A primeira coisa que fiz foi passar álcool em gel nas mãos (gesto que se repetiu toda vez que via um recipiente com álcool em qualquer lugar do hospital).

E, antes mesmo de pegar a senha para o atendimento, fui recebida por três profissionais que logo perguntaram se eu tinha algum sintoma de gripe. Como a resposta foi não, fui conduzida para o lado direito do salão, que estava totalmente vazio. Mas o lado esquerdo, um local mais reservado para atender os casos suspeitos de coronavírus, estava com uma movimentação bem intensa. Não chegava a estar superlotado, mas tinha uma movimentação bem grande.

Conclusão: em menos de duas horas já tinha feitos todos os exames (urina, sangue e ressonância no abdome), já estava medicada e estava frente a frente com a médica para receber meu diagnóstico. A infecção urinária acabou subindo para o rim e, como corria o risco de avançar para outros órgãos do corpo, precisaria ficar internada para receber antibiótico via intravenosa.

Não consegui conter o choro. Até tentei conter, mas as lágrimas foram bem mais fortes do que eu. Até implorei para que a médica apenas me receitasse uma medicação via oral para fazer o tratamento em casa, mas não adiantou. E enquanto ela justificava a importância da internação, além do medo e da angústia no peito, muitas coisas se passavam pela minha cabeça.

Como eu conseguiria ficar longe dos meus dois filhos (Eduarda, 6, e Joaquim, 3)? Que momento mais apropriado para ficar internada, não é mesmo? Será que sobreviveria passando uns dias em um lugar apinhado de gente infectado com o coronavírus? Se eu tivesse procurado o médico antes, será que teria me livrado dessa internação? Muitas perguntas, cujas respostas não importavam mais.

Com a internação liberada pelo convênio, subi ao quarto e recebi as orientações sobre a internação. Com a epidemia, não seria permitido que eu tivesse acompanhante, tampouco recebesse visitas. Também fui proibida de sair do quarto. E, todas as vezes que precisei sair para fazer exames, fui obrigada a usar máscara para evitar a contaminação.

Todos os profissionais que entraram no meu quarto também só entravam mascarados. E eles constantemente afirmavam: "A máscara é mais para sua proteção, do que para a nossa".

Eu fiquei no 12° andar, onde também estavam internados pacientes com outros tipos de enfermidades não contagiosas, como uma mulher com um cisto de 8 centímetros, que passaria por uma cirurgia, e um outro jovem que estava com uma pedra parada no canal da urina, que entrou na emergência logo depois de mim gritando de dor.

"Como eu conseguiria ficar longe dos meus dois filhos? Que momento mais apropriado para ficar internada, não é mesmo?" - Arquivo pessoal
"Como eu conseguiria ficar longe dos meus dois filhos? Que momento mais apropriado para ficar internada, não é mesmo?"
Imagem: Arquivo pessoal

Já os casos suspeitos de coronavírus estavam restritos ao 11° andar e ao andar da UTI, onde estava internado o prefeito de São Bernardo do Campo (SP), Orlando Morando (PSDB), que foi diagnosticado com covid-19 e teve complicações no quadro respiratório.

Foram quatro dias de internação, em que tive de lutar contra a dor, contra a saudade, contra o tédio, contra a solidão e, principalmente, contra a covid-19, que esteve ao meu lado o tempo todo, mas que espero ter conseguido despistá-la com todas as medidas de segurança seguidas.

Agradeço a todos os profissionais que cuidaram de mim nesse período —das enfermeiras, aos médicos, às meninas da cozinha e da limpeza. Me emocionei com a cartinha, me distraí com as conversas aleatórias e me fortaleci com todos os remédios aplicados.

Saio do hospital com as mesmas recomendações de quem volta de uma viagem internacional ou de um caso suspeito de coronavírus. Tenho que me manter isolada pelos próximos 14 dias, ficar atenta a qualquer sintoma similar ao da gripe e evitar ao máximo o contato com idosos ou com pessoas enquadradas no grupo de risco da doença.

Agora é só aguardar e beber muita água!"

Uma das questões mais essenciais sobre o isolamento social e a importância dele é não sobrecarregar o sistema de saúde. O aumento do número de casos de coronavírus é incontrolável, e a ocorrência de outras emergências, como infecção no rim (como da nossa colega jornalista), cálculos na vesícula, AVC, infarto, quimioterapia, radioterapia, cirurgia de vida ou morte, também. Por isso, se achatarmos a curva de contágio, talvez tenhamos uma chance de que não falte leito para quem vai precisar dele (paciente de covid-19 ou não). E pode ser eu, você ou um familiar seu.

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