PUBLICIDADE

Topo

De onde vem sua vontade de comer? Reconheça 7 estímulos além do fisiológico

iStock
Imagem: iStock

Samantha Cerquetani

Colaboração para o VivaBem

03/04/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Reconhecer a fome em suas várias formas é uma maneira de se alimentar com prazer e nutrir o corpo
  • Os estímulos externos e os sentidos podem influenciar o desejo de comer
  • Ter consciência dos tipos de fome contribui para ter comportamentos mais saudáveis na hora de se alimentar
  • A fome orgânica é a necessidade fisiológica do organismo de obter alimentos para se manter funcionando
  • A fome emocional surge em resposta aos sentimentos negativos ou como uma forma de compensação

Quantas vezes você já se alimentou de forma impulsiva ou continuou comendo mesmo depois de estar satisfeito? Além da necessidade fisiológica, nos alimentamos, muitas vezes, por estresse, ansiedade ou quando estamos tristes. É importante saber reconhecer a fome e entender que o apetite também é influenciado por questões externas para se alimentar com prazer e nutrir o corpo.

A fome orgânica, por exemplo, é a necessidade do organismo de obter alimentos para se manter funcionando. Geralmente, o corpo dá sinais físicos de que precisa se alimentar. Por isso, é comum sentir fraqueza, dor de cabeça ou de estômago quando ficamos muito tempo sem comer. Mas, o ato de ingerir alimentos é mediado por uma série de sinais e estímulos.

"A regulação dos mecanismos de fome orgânica e da saciedade são geradas no Sistema Nervoso Central e envolve os hormônios. Esse tipo de fome é a manifestação da necessidade de reposição de nutrientes e é aquela que sentimos quando realmente precisamos de alimento", explica Ester Soares Paulino, nutricionista e supervisora do Programa de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Ambulim-IPq/HCFMUSP (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).

Vale lembrar que os alimentos podem fornecer prazer imediato e serem usados como uma resposta ao estresse, a tristeza e a euforia. Essa fome emocional gera uma vontade de comer quase inconsciente, especialmente por alimentos calóricos, com muito sal e gorduras ou quantidades exageradas de açúcar.

Surgiu até mesmo um termo para o alimento que proporciona alívio emocional ou sensação de prazer em situações de fragilidade: comfort food, ou seja, comida que dá um conforto emocional ou serve como forma de recompensa após momentos de estresse.

"A fome emocional é quando se usa o alimento para tamponar um sentimento. O exercício é lidar com as emoções sem usar a comida. A pessoa precisa identificar situações em que come em resposta as suas emoções e introduzir comportamentos alternativos para atender às suas necessidades que não estejam relacionadas à comida", aconselha Cynthia Antonaccio, uma das idealizadoras do Instituto de Nutrição Comportamental e co-autora do livro Mindful Eating - comer com atenção plena.

Como a rotina afeta a fome

O estilo de vida pessoal e os hábitos familiares e sociais influenciam muito a ingestão alimentar. A maioria das pessoas precisa seguir uma rotina com horários determinados para realizar as principais refeições. Essa é a fome por hábito, ou seja, quando o corpo se acostuma todos os dias a comer em determinado momento e passa a enviar sinais de que precisa se alimentar naquele horário.

Nesses casos, também é comum que a vontade de comer apareça em momentos específicos: quando estamos vendo televisão, lendo um livro, o desejo de comer pipoca no cinema ou em uma festa.

"A vontade de comer depende de alguns fatores, como hábitos sociais, sentimento de vazio, ansiedade, depressão e comemorações. Desde bebê uma pessoa é alimentada em função de outras questões que não levam em conta simplesmente a fome", afirma Marcella Garcez, nutróloga e diretora da ABRAN (Associação Brasileira de Nutrologia).

Os estímulos desencadeiam a vontade de comer?

O Mindful Eating que pode ser traduzido como "comer consciente", é a prática de alimentação que demanda atenção plena à comida na hora das refeições. De acordo com essa prática, a fome também é estimulada pelos sentidos.
Cada um dos sentidos possui características e peculiaridades próprias, que participam diretamente do consumo de alimentos. "Recebemos muitos estímulos e os sentidos também nos dirigem até um prato de comida. Conhecer os tipos de fomes nos ajuda a ter autoconhecimento e tomar decisões no momento de comer", explica Antonaccio.

Para Driele Quinhoneiro, cofundadora e diretora do Centro Brasileiro de Mindful Eating, a investigação da fome traz nossas necessidades humanas à tona. "Escolher os alimentos adequados é um autocuidado. É importante ouvir profundamente as nossas necessidades e aprender a honrá-las", destaca a especialista.

A seguir, veja detalhes de como a fome se manifesta de acordo com os estímulos, segundo a prática de Mindful Eating:

Celular ou fisiológico
É conhecida como fome orgânica e surge com a necessidade fisiológica de comer e de repor nutrientes. Geralmente, não está relacionada a nenhum alimento específico. Ela se manifesta por meio de sensações físicas --- como quando sentimos o estômago roncando, pela percepção de que nos falta energia --ou ainda quando pensamos na possibilidade de comer.

Visão
O estímulo visual aguça a fome. É comum sentir vontade de comer após ver uma propaganda na televisão ou imagens de comidas saborosas. Para evitar comer por impulsividade, os especialistas consultados recomendam estar presente ao ato de comer, prestar atenção ao que se come, sem distrações como celular.
"A visão é um dos sentidos mais importantes dentro da análise sensorial, pois é por meio dela que são obtidas as primeiras impressões dos alimentos quanto à cor, tamanho, formato, brilho, opacidade, consistência e outros atributos", afirma Garcez.

Olfato
Sentir o cheiro de comida caseira aumenta o apetite. E o olfato também contribui para sentirmos o sabor dos alimentos. É comum ter fome logo depois de perceber um aroma agradável de uma receita. É o que acontece quando passamos, por exemplo, em frente a uma padaria e sentimos o cheiro do pão quentinho. Vale destacar que a indústria coloca diferentes aromatizantes nos alimentos para estimular esse tipo de fome.

Paladar
Aprendemos a gostar dos sabores que os alimentos nos proporcionam. A vontade de comer alguns alimentos também está dentro de um contexto cultural e regional. Por isso, alguns alimentos são apreciados em algumas regiões e causam estranheza em outras. O paladar é o sentido que permite diferenciar os sabores por meio das papilas gustativas distribuídas em toda a cavidade oral.

Tato
O tato traz informações sobre textura, forma, peso, temperatura e consistência de um alimento e tais percepções influenciam o prazer de comer. Por conta disso, é comum que as crianças gostem de sentir os alimentos com as mãos.

Audição
O que ouvimos também pode desencadear a fome. Acontece, por exemplo, quando escutamos falar sobre comida ou ouvimos o barulho de um pacote de biscoito sendo aberto. O próprio ruído que fazemos ao mastigarmos um alimento faz parte do processo de se alimentar.

Mente
A fome pode ser estimulada pelos pensamentos. Geralmente, envolve as crenças da pessoa ou regras de dieta ("menos carboidrato ou mais proteínas") e também a sensação de merecimento --- ("fui para a academia, posso comer um chocolate"). É importante notar quais são esses pensamentos e como eles influenciam nas escolhas alimentares.

Emocional
É o tipo de fome ligada as emoções e ao desejo de consumir alimentos que trazem a sensação de conforto e acolhimento. Por isso, é importante reconhecer quais alimentos são desejados em momentos de estresse ou ansiedade. É necessário verificar o que tem por trás da emoção envolvida, o que você realmente está buscando. Às vezes, tomar um banho quente, fazer uma massagem, conversar com um amigo ou até meditar podem satisfazer essa necessidade de consumir algum alimento.

Como identificar qual é o tipo de fome?

É importante sempre analisar como você se sente antes de comer. "Quanto mais conscientes e conectados com nosso corpo e sensações, mais facilmente conseguimos fazer escolhas mais conscientes", diz Paulino. Dessa forma, será possível identificar a diferença entre fome e vontade de comer. Por isso, escutar o organismo e estar atento às sensações auxilia a distinguir se realmente há necessidade de comida.

De acordo com o Mindful Eating, comer com atenção plena é uma capacidade inata ao ser humano. Mas, essa habilidade foi perdida com tempo e com a rotina imposta. "As pessoas precisam entender que o 'como' se come é tão ou mais importante do que 'o que' se come. Todos os alimentos podem fazer parte de uma alimentação saudável", afirma Antonaccio.

Para quem usa os alimentos para lidar com as emoções é necessário identificar esse comportamento e mudar as atitudes para atender às necessidades emocionais. Essa é a melhor forma de evitar problemas de saúde como compulsão alimentar e obesidade.

De acordo com Luiza Bittencourt, instrutora de Mindful Eating, é importante usar os sentidos e ouvir nosso corpo para escolher alimentos que são satisfatórios e nutritivos. "É preciso reconhecer os alimentos sem julgamentos. É importante ficar atento à fome física e aos sinais de saciedade para guiar as decisões para começar e saber quando parar de comer", completa.

Revisão técnica: Marcella Garcez.