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Terapia é coisa de rico? Moradores da quebrada buscam alternativas baratas

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Imagem: iStock

João de Mari

Colaboração para o VivaBem

18/03/2020 04h00

Quando Rodrigo* acordou pela manhã com um barulho vindo da rua, percebeu que algo havia acontecido. Ao sair de casa, em uma periferia da zona norte de São Paulo, deparou-se com um corpo estendido na calçada em frente ao seu portão. Um tiroteio tinha ocorrido na noite anterior e estavam removendo o cadáver.

A história acima é apenas uma das centenas contadas semanalmente por pacientes que buscam atendimento com psicanalistas e psicólogos do coletivo Margens Clínicas, que se dedica gratuitamente ao cuidado de vítimas da violência.

O que Rodrigo viveu é algo cotidiano, portanto não representava nenhum sinal de que ele pudesse estar doente, afinal não era o primeiro cadáver que ele via pelas ruas de seu bairro. Após algumas sessões de análise, no entanto, percebeu que muitas cenas recorrentes não eram naturais e pôde reconhecer limites para suas dores.

"A opressão presente na formação estrutural da sociedade faz as pessoas banalizarem esse tipo de tratamento violento, e isso causa um adoecimento brutal. Não tem nada de comum, natural ou normal em qualquer tipo de violência", resume Kwame dos Santos, 32, psicólogo que atende no coletivo.

A saúde mental

Assim como reconhecer o adoecimento, não é simples também definir o que significa saúde mental. O termo parte de critérios subjetivos, de acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde). Porém, alguns itens podem ser levados em consideração como a capacidade do indivíduo em ter atitudes positivas sobre si próprio, desenvolvimento, integração emocional, autonomia, percepção da realidade e competência social.

Muito além da violência cotidiana, existem diversos motivos que causam sofrimento psíquico e que deveriam tornar a abordagem em atendimentos terapêuticos mais cuidadosa, segundo Kwame.

"Se um paciente demora duas horas para chegar ao consultório, isso já é o primeiro investimento. Às vezes, só isso já é o preço da análise. Temos que desfazer uma ideia de que sofrimento psíquico é menor do que uma vulnerabilidade econômica, que isso é um privilégio, de que isso não 'mata'", afirma.

Um relatório divulgado pela OMS em 2019 aponta que a cada 40 segundos uma pessoa se suicida no mundo, sendo que 79% dos casos se concentram em países de baixa e média renda. E o suicídio é a segunda causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos, atrás apenas de acidentes de trânsito.

Além disso, a capital paulista e a Grande São Paulo são as regiões que têm maior ocorrência de pessoas com problemas mentais em todo o mundo. Ao todo, 30% da população sofre com algum tipo de descompensação psíquica, segundo dados mais recentes, de 2012, da OMS.

Embora os 93 Caps (Centros de Atenção Psicossocial), porta de entrada para o atendimento público e gratuito na área de saúde mental da capital paulista, estejam espalhados principalmente em regiões periféricas, o número de unidades parece não suportar a demanda da cidade mais populosa do país. O que pode explicar a busca por iniciativas gratuitas que estão distantes ou até mesmo profissionais que atendam a preço simbólico.

Representatividade na terapia

Camila da Silva, 20, encontrou sua psicoterapeuta em um grupo de WhatsApp com algumas amigas que compartilharam contatos de uma rede de psicólogas negras.

Incentivada por elas, iniciou o tratamento. "A primeira consulta foi gratuita. Ela me passou um valor de referência e me perguntou quanto que eu podia pagar", conta a estudante de jornalismo, que combinou pagamentos mensais de R$ 200, cobrados a partir do mês seguinte.

Moradora do Jardim Fortaleza, periferia de Guarulhos (SP), Camila se deslocava todos os dias para o centro de São Paulo, a mais de 30 km de distância de sua casa. Ela sentia uma pressão muito forte para lidar com o trabalho e os estudos, além de um cansaço constante. Foi assim que a jovem chegou no consultório pela primeira vez.

"Entendi que muitos problemas que enfrentei na vida envolvem raça e gênero. Eram sentimentos que eu nunca havia elaborado por falta de tempo, de parar e olhar para mim mesma. Passei a nomear sensações que eu não sabia explicar", diz.

Alguns meses depois, no entanto, a jovem perdeu o emprego e com isso teve que deixar as sessões terapêuticas. Mas ela pretende voltar assim que conseguir um novo trabalho. "Gosto muito da minha psicóloga. Era algo de representatividade, sabe?".

Morador e terapeuta da quebrada

De fato, a identificação entre paciente e psicólogo ajuda a entender o contexto do sofrimento psíquico. Pelo menos é o que o musicoterapeuta Daniel Santana, 30, acredita.

Nessa modalidade de terapia, os conteúdos podem ser expressados e trabalhados sem que as mulheres tenham que expor verbalmente o que estão sentindo. "A partir de recursos sonoros, como instrumentos musicais ou sons corporais, é possível identificar pontos de tensão que podem estar ligados à violência doméstica ou à ansiedade e depressão", afirma Daniel.

Nascido e criado no Grajaú, periferia na zona sul de São Paulo, ele atua no Coletivo MT que, através da musicoterapia, atende de graça mulheres da região no Centro de Cidadania da Mulher.

"Atuar como morador e 'médico' da periferia é um marco para mim. Isso me traz um olhar diferente do trabalho, sei das dificuldades enfrentadas, frequentamos os mesmos espaços públicos de saúde e de cultura. Então, por mais que questões pessoais da paciente sejam o foco, os contextos de violências vivenciados no dia a dia são os mesmos", comenta Daniel. Os quatro musicoterapeutas que compõe o coletivo são moradores do bairro.

*O nome foi alterado para preservar a identidade do paciente.

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