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'Eu era feliz e não sabia': como encontrar e reconhecer a sua felicidade

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Imagem: iStock

Amanda Cruz

Colaboração para o VivaBem

14/03/2020 04h00

Resumo da notícia

  • A felicidade é subjetiva e varia para cada pessoa, mas alguns têm mais facilidade em aceitar esse sentimento do que outros
  • É muito simples acostumarmos com o que é bom para nós e, assim, acabamos deixando de dar valor
  • Autoconhecimento é a chave para saber o que é felicidade para você

A felicidade é o sentimento que virou meta, mas quais são os parâmetros que você tem usado para medir a sua? Com o início da digitalização do mundo e das relações pessoais, ganhamos um novo aspecto de construção desse sentimento, porque passamos a acompanhar o —suposto — roteiro de vida dos outros mais de perto e, consequentemente, a nos questionar mais sobre o nosso próprio.

E isso pode interferir diretamente na nossa percepção de felicidade, porque esse sentimento se baseia também na forma como eu interpreto a felicidade e o sofrimento alheio. "Se olho em volta e todos estão vivendo em caos e miséria, vejo que não posso me queixar. Mas se o que eu vejo é uma constante festa divertida, viagens, vidas sendo desfrutadas intensamente, é possível que eu entenda que a minha felicidade está falhando", diz o psicólogo e psicanalista Christian Dunker, professor titular do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo).

Esse sentimento também tem relação com a realidade e a expectativa que criamos sobre nós e o mundo. Se esses dois pilares estão o mais equilibrados possível, com poucas arestas a serem aparadas, é possível que você desfrute de felicidade em sua vida.

Você é feliz e não sabe?

Hoje você consegue lembrar de algum momento da sua vida em que sente que era mais feliz, mas, na época, não tinha essa mesma percepção? Isso acontece porque nós nos acostumamos muito facilmente com o que é bom e nos faz bem, com o que nos traz prazer e segurança, e deixamos de notar como gostamos daquele momento, daquela companhia ou de determinado lugar. Porém, quando perdemos ou mudamos de condição, passamos a sentir falta, dando espaço para essa sensação de que éramos felizes e não sabíamos.

"Muitas doutrinas religiosas lembram as pessoas de serem gratas. Você sendo grato gera um olhar positivo para tudo que há de bom", explica o psiquiatra Fernando Fernandes, do Instituto de Psiquiatria da USP (Universidade de São Paulo). Uma pessoa que nutre a gratidão desenvolve mais essa noção de que é feliz do que quem não faz isso.

Há ainda pessoas que ao longo da vida sedimentam conceitos ruins sobre o mundo e suas relações e enxergam sua autoimagem de um jeito muito negativo. Essa postura, por sua vez, pode fazer com que essa pessoa, mesmo vivenciando bons momentos, tenha a tendência a ver o lado negativo. "Se algo está 99% bom, ela vai ver aquele 1% ruim e sobrevalorizar, podendo ter dificuldade em aceitar a própria felicidade", conta Fernandes. E essa postura, composta e desenvolvida por uma série de fatores absorvidos ao longo da vida, faz com que algumas pessoas sejam mais propensas a vivenciar certos sentimentos, sejam positivos ou negativos.

Para as pesquisas de bem-estar e felicidade, quando se fala dos sinais de uma vida feliz, são analisados diversos indicativos com base na proporção de emoções positivas e emoções negativas que a pessoa sente ao longo do dia ou ao longo de uma semana. Entretanto, esse balanço entre emoções positivas e emoções negativas, expectativa e realidade, precisa ser visto com cuidado. "Todas as esferas da nossa vida são significativas dentro dessa análise, dos sinais do que é uma vida feliz ou não. Via de regra, é esse grau de satisfação com a própria vida que vai permear toda uma mandala, englobando saúde física, emocional, psicológica", diz Gustavo Arns, professor de pós-graduação em Psicologia Positiva da PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul).

Olhe para dentro para reconhecer sua felicidade

Primeiro, é essencial pontuar que a felicidade é subjetiva e, portanto, é bastante provável que todas as pessoas tenham infinitas variações sobre o que acreditam ser esse sentimento e como encontrá-lo. Além disso, é comum confundirmos felicidade com alegria, com a sensação de prazer, e é importante compreender que às vezes um momento prazeroso pode ser também um momento de felicidade, mas que não irá necessariamente trazer benefícios a longo prazo.

Fazemos todos os dias mais ou menos a mesma coisa, nos mesmos horários, nos mesmos lugares, com as mesmas pessoas, as mesmas atividades. "Se não conseguimos encontrar significado e propósito nessas coisas que constituem todos os dias o que a gente chama de experiência de vida, com certeza não é nos grandes acontecimentos e nos grandes eventos que vamos encontrar felicidade", afirma Arns.

É claro que viver momentos prazerosos é importante, mas muitas vezes realizamos atividades que naquele cenário não é prazerosa, como estudar para uma prova, por exemplo, mas que pode levar a uma realização importante futura, para que você possa alcançar meus objetivos profissionais, por exemplo.

Por isso, é importante colocar todas as emoções como parte natural da vida humana e aceitá-las, senti-las, compreendendo que nem as positivas e nem as negativas vão durar para sempre. Assim, pode-se entender melhor o que é a felicidade, o que esse sentimento representa para mim e como eu posso elevar o meu nível de bem-estar e de satisfação com a vida.

Arns explica que o segredo está no autoconhecimento, é preciso ligar seu olhar para dentro e fazer uma autoanálise. Observar suas emoções, suas sensações, seus sentimentos, a forma como reage aos eventos e acontecimentos do dia a dia para compreender o que de fato o faz feliz e quais os caminhos que pode trilhar para isso. E esse estudo interno sobre nós mesmos demanda tempo, paciência e dedicação. "É parar e olhar para os seus sonhos, tentar lê-los, é olhar para sua vida de longe, de perto", complementa Dunker.

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