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Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


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4 métodos ajudam a reverter pensamentos negativos que empacam sua vida

Sigmund Freud, considerado o pai da psicanálise, utilizava a teoria do iceberg para ilustrar o consciente (parte acima do mar) e o inconsciente (região maior abaixo da água) de um ser humano - iStock
Sigmund Freud, considerado o pai da psicanálise, utilizava a teoria do iceberg para ilustrar o consciente (parte acima do mar) e o inconsciente (região maior abaixo da água) de um ser humano Imagem: iStock

Bárbara Stefanelli

Colaboração para o VivaBem

03/03/2020 04h00

"Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia." Esta frase de Hamlet, obra do autor britânico Wiliam Shakespeare, pode muito bem ilustrar como funciona a saúde emocional do ser humano. Já que, entre o inconsciente (território do corpo emocional onde ficam "guardadas" nossas emoções) e o consciente (o nosso modo de agir no mundo), há inúmeros acontecimentos que nem fazemos ideia e que pautam nossas decisões.

Pode ser que esse acervo de entendimentos e sensações "estocados" sejam positivos, claro, mas, quando uma lembrança negativa fica congelada no nosso "disco rígido emocional", é bem provável que ela cause sofrimentos e desconfortos. É o que, no campo do autoconhecimento, muitos profissionais chamam de crenças limitantes.

As crenças limitantes são entendimentos errôneos sobre a vida. Normalmente elas nascem na primeira infância, quando a personalidade ainda está em formação. É nesse período, de zero a sete anos, que introjetamos dentro de nós uma percepção de como é a vida.

Então, por exemplo, se uma criança vê o pai e a mãe brigando com frequência por causa de dinheiro e das contas da casa, ela pode introjetar dentro dela que dinheiro é algo ruim, que traz briga e separação. Depois ao crescer, ela esquece dessas brigas, mas a noção ruim fica dentro dela, e pode ser que na vida adulta ela tenha dificuldade de ganhar dinheiro ou em lidar com ele.

É como se o inconsciente, no intuito de proteger a pessoa daquela dor vivida na infância, desse comandos internos e silenciosos para não prosperar. E sem que tenhamos conhecimento, quase que automaticamente, essas memórias impulsionam o indivíduo a agir sempre fazer de uma mesma forma, por mais que ele tente fazer diferente.

Mas existe como reverter isso? Parece difícil, mas é possível e, de forma unânime, o caminho do autoconhecimento foi citado entre os profissionais consultados pela reportagem como o melhor jeito de modificar uma crença limitante. Dentro do campo que estuda a mente humana, há diversas técnicas. Aqui, exploramos os métodos de psicanálise, PNL (programação neurolinguística), psicologia positiva e coaching. Veja como funciona cada um:

A visão da psicanálise

Em vez de crenças limitantes, os psicanalistas falam em complexo —um conjunto de imagens adquiridas na infância por meio das relações entre fantasia, desejo e educação. "Também falamos em fantasias inconscientes que determinam uma série de comportamentos. O que é importante destacar são os determinantes inconscientes que moldam um conjunto de representações —também inconscientes— que compõem o comportamento", define Luciana Saddi, psicanalista e diretora de cultura e comunidade da SBPSP (Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo).

Para Saddi, um comportamento ou complexo só se modifica a partir do autoconhecimento. A profissional ainda cita um exemplo clínico: "Um menino de 7 anos apresentava medo exagerado de cachorros. Ele nunca foi mordido, mas desde os 6 anos, época que coincide com a gravidez de sua mãe, ele desenvolveu a fobia. Ele ficou muito raivoso com a gravidez e o nascimento da irmã. As fantasias eram de eliminar a 'intrusa', de preferência com dentadas".

E continua: "Só que manifestar toda essa violência contra a irmã e os pais era impossível e os sentimentos e pensamentos, assim que surgiam, eram reprimidos pelos pais, professores e familiares. A culpa de sentir e pensar coisas tão feias contribuiu para que tais ideias fossem guardadas fora da consciência. Acontece que esse tipo de esconderijo não funciona muito bem e, então, essa agressividade reprimida foi desviada para o cachorro."

A partir da análise do garoto, compreendeu-se que o desejo dele era ser filho único. E para entender como um processo como esse se dá, a psicanálise, onde a pessoa pode expor sua vida e suas ideias no ambiente seguro da sessão terapêutica e sob a orientação e olhar atento do psicanalista, é uma alternativa. Em todos os casos, a recomendação é ter coragem e firmeza para olhar esses aspectos muitas vezes dolorosos da criação. Pode ser difícil, mas também é libertador.

Técnica PNL para mudar uma crença

De acordo com Walkyria Coelho, psicóloga clínica, com formação em Gestalterapia e instrutora da SBPNL (Sociedade Brasileira de Programação Neurolinguística), as experiências que formaram uma crença ("convivência, hábitos e relacionamento com a família, e também a realidade cultural em que a pessoa está inserida") ficam armazenadas em redes de padrões neurais interconectadas, através dos neurônios.

"A maior parte desses aprendizados que estão na memória forma o nosso inconsciente, determinando como o cérebro interpreta o mundo ao redor. Situações que estão sempre se repetindo e o indivíduo já fez de tudo para não fazer igual novamente, mas não consegue são um bom exemplo de crenças limitantes atuando", explica Coelho.

De acordo com ela, a auto-observação é o primeiro passo para entendermos essa engrenagem e poder interrompê-la. "Aumentar a nossa percepção e consciência sobre nós mesmos é um passo importante para a mudança. Para isso, usamos ferramentas e exercícios, que aumentam a consciência sobre o que está sustentando o problema."

Tipo quais? Coelho cita técnicas e exercícios que são usados para a pessoa começar uma mudança mais profunda e sustentável em sua vida. "Por exemplo, existe uma ferramenta para atualizar a hierarquia de valores da pessoa, tornando-a mais coerente com os diversos papéis que ela desempenha na vida", explica, comentando que existem também outros exercícios de autoconhecimento.

Psicologia positiva: afirmando novos padrões

Para Flora Victoria, presidente da SBCoaching (Sociedade Brasileira de Coaching), mestre em psicologia positiva aplicada pela Faculdade da Pensilvânia e autora do livro "Tempo da Felicidade" (Harper Collins), a crença é algo que colocamos na cabeça e que tomamos como regra. "É claro que algumas crenças podem ter fundamento, mas via de regra, não é isso que acontece. E ninguém muda uma crença limitante do dia para noite. É um processo demorado, que exige tempo e dedicação."

Para mudar essa realidade é necessário, primeiro, reconhecer que determinada postura ou área não está indo bem. "E para esse processo de autoconhecimento, é fundamental identificar as emoções e entender a raiz dos pensamentos negativos. Depois de encontrar os motivos, é hora de ressignificar e pensar no que há de positivo mesmo em situações adversas", de acordo com Flora.

Para isso, ao invés de dizer "Não posso" ou "Não consigo", ela recomenda afirmar: "Eu posso, porque confio no meu potencial". Mas é necessário comprometimento em querer enxergar e realmente fazer diferente. "Transforme esse pensamento em uma atitude e essa nova atitude em um hábito. Assim, naturalmente, passará a agir de forma positiva", diz a especialista.

Coaching: fazer links de causa e efeito entre as insatisfações

Com exercícios e questionários, o coach Thiago Maciel, especializado em carreira e propósito e fundador da empresa Estufa, aplica um método que passa pela identificação de crenças para auxiliar seus coachees na transição de carreira ou de vida. Para ele, a melhor maneira para mudar um padrão é fazendo uma análise honesta da própria história.

"Para identificar e ter clareza das crenças, é preciso parar e olhar tudo que viveu na infância, dentro da sua casa, com seus pais e seus irmãos. E, a partir disso, fazer links de causa e efeito com a sua situação hoje. Por que, normalmente, [o que não está dando certo] são projeções da nossa própria história na vida atual. A partir desta compreensão e análise minuciosa, é possível começar a tomar atitudes diferentes e ir além da crença", afirma.

Ele explica que conforme vamos compreendendo e tirando a atenção das crenças e colocando força em novos hábitos e comportamentos, a tendência é que eles se tornem a realidade, mas isso não vem do dia para a noite. No meio do processo de transformação, é capaz que os velhos hábitos surjam novamente.

"Muitas vezes, as crenças vão voltar e 'buzinar' na nossa orelha. Mas aí eu já compreendi de onde elas estão vindo, já entendi como elas nasceram, senti o que precisava sentir e, ok, agora não tem mais o que fazer. Então, vou fazer diferente. E, pouco a pouco, quase que diariamente, fortaleço esse novo comportamento e afirmação", aconselha.

No entanto, vale lembrar que o papel do coach não é o mesmo de um psicólogo. O coach pode até te ajudar a estabelecer metas e segui-las, mas se as crenças limitantes estiverem relacionadas com questões ligadas à saúde mental, um psicólogo deve ser acionado. "A função do coach é focar nos aspectos positivos e nas oportunidades. As questões pessoais devem ser tratadas por um psicólogo ou psiquiatra, mesmo que o coaching seja psicólogo", explica Victoria.

5 origens das crença limitante

As crenças limitantes são pensamentos —inconscientes ou não — que encaramos como verdades absolutas. Estes pensamentos podem ter diversas origens. Veja algumas:

1. Experiências e crenças hereditárias: são aqueles que têm relação com a maneira com que fomos criados, as ideias e comportamentos que observamos e reforçamos durante a nossa vida inteira. Exemplo: uma criança que cresceu vendo seus pais discutindo e, por isso, chega à fase adulta acreditando que os relacionamentos amorosos nunca dão certo.

2. Crenças pessoais: são aquelas experiências que foram vividas pela própria pessoa, levando-a a desenvolver certos bloqueios. Exemplo: quando criança, a pessoa tirou uma nota muito baixa em matemática e, por isso, acredita que jamais saberá lidar com números.

3. Medo ou desculpa: tudo aquilo que você utiliza como desculpa para deixar de fazer algo ou quando deixa de tomar determinada atitude por medo de falhar. Exemplo: dizer que não tem os requisitos necessários para se candidatar a uma vaga, mas, na verdade, prefere não fazê-lo, porque está com receio de ser reprovado.

4. Círculo social: a partir das vivências das pessoas ao seu redor você se sente influenciado. Exemplo: descobre que um amigo foi assaltado em um determinado lugar e toma como verdade absoluta que aquela localização é extremamente perigosa, decidindo não frequentá-la mais.

5. Sociedade: às vezes, a sociedade impõe alguns padrões que geram algumas crenças limitantes. Exemplo: quando a indústria da beleza estipula parâmetros quase inalcançáveis, estimulando pensamentos negativos como "o corpo perfeito é aquele que jamais conseguirei ter". Essa é um tipo de crença que impossibilita qualquer outra forma de satisfação que não a perfeição estética.

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