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Comer carne de porco mal passada faz a pessoa ter cisticerco no cérebro?

Priscila Barbosa/UOL
Imagem: Priscila Barbosa/UOL

Renata Turbiani

Colaboração para o VivaBem

26/02/2020 04h00

Durante muito tempo, a carne suína foi considerada sanitariamente ruim. Isso porque, no passado, os porcos costumavam ser criados sem nenhum tipo de controle, em meio ao lixo, se alimentando de comida inadequada —a chamada lavagem— e até ingerindo fezes, deles mesmos e de outros animais.

Como resultado de toda essa falta de higiene, era comum as pessoas contraírem alguma doença ao consumir a sua carne mal passada. Hoje em dia, com a fiscalização em torno do produto, isso não é mais tão frequente. Mesmo assim, muita gente ainda tem dúvida: afinal, comer carne de porco crua ou insuficientemente cozida causa cisticerco de tênia no cérebro?

Na verdade, não. A tênia, que é um verme parasita —e vale destacar que existem duas espécies, a Taenia solium, encontrada nos suínos, e a Taenia saginata, nos bovinos—, pode causar duas patologias no ser humano, a teníase e a cisticercose. No caso do consumo de carnes contaminadas, o risco é de adquirir a primeira, e ela não atinge o cérebro.

O que acontece é o seguinte: o parasita precisa de dois hospedeiros para completar o seu ciclo evolutivo; um deles é o homem (hospedeiro definitivo), que o "abriga" na fase adulta, e o outro é o animal (hospedeiro intermediário), que é infectado apenas com as larvas, chamadas de cisticerco.

Quando alguém come um corte do animal atingido, o cisticerco vai para o intestino delgado e lá se transforma no verme adulto, mais conhecido como solitária. Os sintomas da enfermidade são dores abdominais, náuseas, perda de peso, flatulência, diarreia ou constipação, entre outras manifestações gastrointestinais, e o tratamento é feito com o uso de medicamentos antiparasitários.

Mas e a cisticercose?

Se a teníase não for tratada corretamente, os ovos do parasita que estão dentro da pessoa são liberados nas fezes, e aí, em locais onde não há saneamento básico, contaminam rios, hortas, pastos... e é na ingestão de água e vegetais crus que tiveram contato com essa matéria fecal que ocorre a cisticercose —ela também pode se dar por autoinfecção, devido aos maus hábitos higiênicos.

Os ovos se instalam primeiro no intestino, onde eclodem. Eles, então, penetram na mucosa intestinal e depois seguem para a circulação sistêmica, alcançando, na forma de cistos, diferentes órgãos, sendo o mais importante o cérebro.

A doença pode permanecer assintomática durante anos. Porém, quando se manifesta, os sinais variam de acordo com a localização. Por exemplo, quando é no cérebro, provoca dores de cabeça, crises convulsivas, confusão mental e até morte. Na coluna e na musculatura, gera dor, nódulos e dificuldades de locomoção. Já na região ocular, distúrbios visuais e cegueira.

No tratamento são ministrados antiparasitários. No caso da neurocisticercose, inclui ainda o uso de fármacos como corticoide, para redução da resposta inflamatória, e anticonvulsivantes, para controle dos sintomas. Cirurgia e internação hospitalar, algumas vezes, também se fazem necessárias.

Como se prevenir

Para evitar a teníase, e por consequência a cisticercose, é imprescindível não consumir carne suína de procedência duvidosa, especialmente se ela estiver crua ou insuficientemente cozida. Na preparação, o ideal é que os cortes —sejam eles de porco, boi ou frango— atinjam 74°C no centro geométrico, que é a sua parte mais espessa, por pelo menos cinco minutos.

Outras medidas para evitar o contágio são: evitar locais sem saneamento, lavar sempre as mãos antes de se alimentar e após usar o banheiro, higienizar bem frutas e verduras, beber apenas água tratada, cozinhar e irrigar hortas e pomares com água limpa, não ter contato com fezes humanas e preferir os alimentos cozidos e bem passados.

Fontes: Claudio Roberto Gonsales, infectologista e prestador de serviços do Hospital América de Mauá; Érica Fernanda, nutricionista do Hospital Nove de Julho e José Vidal, consultor da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia).

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que dizia o texto acima, o cisticerco, quando se transforma no verme adulto, é popularmente conhecido como solitária, e não lombriga, que se trata de outra espécie. A informação foi corrigida.