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"Cirurgia de mudança de voz transformou minha vida"; entenda a tireoplastia

Veronica Rodrigues/Arquivo pessoal
Imagem: Veronica Rodrigues/Arquivo pessoal

Giulia Granchi

Do VivaBem, em São Paulo

18/02/2020 04h00

Aos 13 anos, Verônica Rodriguez já sabia que era transexual. Apesar de ter o apoio da mãe e do padrasto, a família tinha medo de que a transformação de um corpo masculino para o feminino gerasse represália e colocasse a jovem em perigo. "Mas eu sofria preconceito de qualquer jeito. Demorei para terminar o colegial porque fiz 46 boletins de ocorrência durante os anos de estudo. Cheguei até a ser apedrejada", conta.

Com traços femininos na personalidade e físico masculino robusto, com 1,80 metro de altura, Verônica saiu de casa aos 18 anos e encarou um longo processo de transformação. "Eu e meu marido fizemos empréstimos, dávamos o que tínhamos e o que não tínhamos para a transição. Não queria colocar silicone, então fiz tratamento hormonal por 10 anos para ter seios de um tamanho natural", conta a paulista, que também passou por acompanhamento psicológico e trocou seus documentos para ter o novo nome.

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
Após anos em transição, Verônica finalmente estava satisfeita com seu corpo, mas uma questão ainda a incomodava: a voz masculina. "Atendia telefonemas e as pessoas ainda me tratavam como 'senhor', porque minha voz era muito grossa", conta.

Ela procurou uma fonoaudióloga, que explicou que com a terapia não conseguiria grandes mudanças no tom, mas aconselhou que Verônica considerasse a tireoplastia, uma cirurgia que altera a tensão nas cordas vocais.

Como funciona a cirurgia

Verônica conta que se esforçava ao máximo para deixar a voz feminina naturalmente, mas forçava tanto o tom que poderia ter ficado com calos nas cordas vocais.

O que resolveu seu incômodo foi a tireoplastia tipo 4, uma cirurgia que aumenta a tensão das cordas vocais, tornando a voz mais aguda.

"O procedimento é feito com anestesia local. Por um pequeno corte de cerca de três centímetros no pescoço, aproximo as cartilagens cricoide e tireoide para aumentar a pressão", conta o otorrinolaringologista Thiago Zago, médico de Verônica e especializado em cirurgia de cabeça e pescoço pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

O procedimento dura cerca de 30 minutos e, em algumas clínicas, o paciente fica acordado para ouvir o próprio tom de voz e pedir ajustes conforme seu gosto. "Quando ouvi minha nova voz pela primeira vez, chorei. Só quem passou por isso sabe o quão gratificante é", afirma.

Pós-operatório é simples

Após o procedimento, o paciente deve ficar alguns dias sem realizar movimentos bruscos e alongar demais a região cervical para não soltar os pontos. A alta geralmente acontece no mesmo dia da cirurgia.

"O paciente deve fazer acompanhamento com um fonoaudiólogo para se adaptar e trabalhar melhor o novo tom de voz por meio de exercícios", explica Zago.

Qual é a diferença do botox?

A aplicação de toxina botulínica no músculo cricotireoideo, que age na tensão da corda vocal, relaxa o músculo e deixa a voz mais grave. O efeito é mais sutil do que a cirurgia e dura apenas alguns meses. A técnica também pode ser usada para melhora da disfonia espasmódica.

Tipos da tireoplastia

  • Tipo 1: é usado para corrigir paralisia de corda vocal, quando o paciente apresenta voz soprosa. Consegue diminuir o espaço. Traz mais para o meio corda vocal;
  • Tipo 2: era usada, há alguns anos, para correção de disfonia espasmódica (distúrbio causado por movimentos involuntários do músculo da laringe, que deixa a voz com aspecto tenso e forçado). Por já existirem tratamentos melhores, sua aplicação é rara atualmente;
  • Tipo 3: diminui a tensão nas cordas vocais para deixar a voz mais grave;
  • Tipo 4 aumenta a tensão das cordas vocais e torna a voz mais aguda.

"Após complicações na retirada de um tumor, fiquei quase sem voz"

Para Valéria Cristina Moreira, a tireoplastia também causou uma mudança importantíssima em sua rotina, mas por motivos bem diferentes. Em 2017, ela passou por uma cirurgia para retirar um tumor raro no cérebro, o Schwannoma vestibular (neuroma acústico), que vai do nervo do ouvido interno até o cérebro.

Valéria tem 47 anos e realizou a cirurgia de tireoplastia tipo 1 - Arquivo pessoal
Valéria tem 47 anos e realizou a cirurgia de tireoplastia tipo 1
Imagem: Arquivo pessoal
O procedimento teve algumas complicações e ela precisou fazer uma traqueostomia (procedimento cirúrgico que consiste em uma abertura realizada na traqueia, com inserção de um tubo para permitir a passagem do ar) e ficou com sequelas, entre elas dispneia --dificuldade ou alteração para respirar--, disfagia --alteração na deglutição e no processo de engolir-- e disfonia --paralisia nas cordas vocais que causa alteração na voz, como rouquidão.

"Desde então, passo por muitas dificuldades no dia a dia, como simplesmente atender telefone. Quando falo, as pessoas me olham de forma diferente. Tenho vergonha de perguntar algo em público e sempre evito ambientes barulhentos. A voz é essencial e espero melhorar com a minha após o procedimento", contou Valéria ao VivaBem, semanas antes de passar pela cirurgia de mudança de voz.

Para a ex-feirante de 47 anos, a tireoplastia indicada é o tipo 1, que ajuda apenas na disfonia. Apesar dos outros quadros que possui, a expectativa era de que o procedimento deixasse sua voz mais forte e que ela tivesse menos dificuldade ao falar.

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
O otorrinolaringologista Thiago Zago, que também realizou a cirurgia em Valéria, diz que o procedimento foi simples e contribuiu para uma melhora na potência da voz. "Antes, ela conseguia emitir voz por seis segundos. Logo depois da operação, ela conseguiu aumentar o tempo para 20 segundos", conta.

Valéria conta que, algumas semanas após da cirurgia, sua voz já estava mais clara, uniforme e limpa. "A cada dia tenho mais segurança para falar", completa.

Ouça o antes e depois das vozes de Valéria e Verônica

Quanto custa uma tireoplastia?

O valor do procedimento varia conforme a região. De acordo com o otorrinolaringologista Thiago Zago, na cidade de Mogi Guaçu, em São Paulo, onde foram realizadas as cirurgias de Verônica e Valéria, o preço varia entre R$ 5 mil e 10 mil.

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