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Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


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Narcisista, borderline, dependente: conheça os transtornos de personalidade

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Heloísa Noronha

Colaboração para o VivaBem

05/02/2020 04h00

Personalidade é padrão particular que cada um de nós apresenta em relação ao modo de pensar, sentir e se comportar socialmente. Ela se mantém, de certa forma, constante ao longo do tempo e se expressa nas mais diferentes situações. Já o temperamento é um componente inato da personalidade, enquanto o caráter vai sendo moldado ao longo da vida basicamente pela cultura e pela educação. Portanto, a formação da personalidade é um processo gradual e resulta da interação entre os aspectos inatos e os aprendidos.

Os chamados transtornos da personalidade, no entanto, envolvem muito mais do que traços: eles se caracterizam por um padrão de comportamento mal adaptativo, profundamente enraizado e inflexível, reações emocionais e formas de relacionamento interpessoais.

Segundo o DSM-5, o "Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais" ("Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders") desenvolvido pela APA (Associação Americana de Psiquiatria), diversos critérios definem os transtornos de personalidade. Em geral, o que é notado nas pessoas diagnosticadas são os modos de funcionamento problemáticos e uma desarmonia com o jeito que levam a vida em relação às demais. Os padrões costumam se iniciar na infância e não são explicados por alterações fisiológicas.

Em boa parte dos casos, as pessoas com transtornos de personalidade não se sentem incomodadas com seu jeito de ser ou não o reconhecem como patológico. Porém, em algumas formas, pode haver um sofrimento subjetivo significativo e o indivíduo tem plena consciência quanto à diferença e à reação da sociedade.

De acordo com a última atualização do DSM-5, divulgada em 2013, os transtornos de personalidade são agrupados em três "clusters" (ou grupos) bem diferentes entre si, porém com características comuns nos tipos de cada um deles. Apenas um psiquiatra pode fazer o reconhecimento e o diagnóstico adequado, pois nem sempre os limites são precisos e é comum que um mesmo paciente tenha traços de diferentes transtornos ou até mesmo mais de um ao mesmo tempo. Saiba mais detalhes:

Grupo A

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Inclui os indivíduos tidos como excêntricos e vistos com um certo grau de estranheza e desconfiança pela sociedade. Esse grupo se relaciona aos transtornos psicóticos, especialmente esquizofrenia e transtorno delirante, embora não ocorram sintomas como alucinações e delírios.

Paranoide

Pessoas com transtorno de personalidade paranoide são extremamente desconfiadas. Tendem a interpretar as atitudes dos outros como más, ameaçadoras ou insultuosas e veem as relações mais íntimas como perigosas. Também têm a sensação constante de que são exploradas ou "passadas para trás", mesmo que não existam justificativas para tal. Esse ceticismo exagerado acarreta comportamentos de cautela extrema, sentimentos hostis e agressividade, além de isolamento social.

Esquizoide

Esse transtorno corresponde à antiga esquizofrenia simples, porém sem sintomas psicóticos como alucinações e delírios. São pessoas que não têm o menor interesse nas relações sociais e que, portanto, se caracterizam por ser solitárias. Os demais as encaram como frias e distantes, com pouca capacidade de estabelecer intimidade. Os esquizoides dificilmente namoram ou se casam, envolvendo-se, preferencialmente, em atividades solitárias como jogos de computador ou quebra-cabeças. Costumam trabalhar em empregos que requerem pouca interação interpessoal.

Esquizotípico

O tipo esquizotípico se caracteriza por um comportamento mais excêntrico —que, em muitos casos, se estende ao estilo de se vestir. São indivíduos supersticiosos, com um pé no misticismo e que fogem aos padrões e normas sociais. Alguns, por exemplo, costumam perceber mensagens "escondidas" em discursos públicos ou em falas da TV. Os esquizotípicos isolam-se mais por falta de compreensão da sociedade do que por vontade própria, podendo também desenvolver ideias paranoides.

Grupo B

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Engloba as pessoas impulsivas, de humor irregular, com dificuldades de lidar com limites e regras sociais. Dramaticidade, emocionalidade excessiva e/ou comportamento errático são algumas das características mais marcantes. Os transtornos de personalidade do cluster B estão associados aos sintomas da antiga histeria.

Antissocial

É o nome correto dado aos comportamentos conhecidos como psicopatia e sociopatia. Falta de empatia e indiferença afetiva pelos outros são a marca registrada. Os antissociais têm dificuldade de se ajustar às normas sociais, inclusive as relativas à legislação. Mostram descaso e muitas vezes mentem e são falsos para benefício próprio. As manifestações podem ter início na infância ou na adolescência, com episódios de desafio envolvendo pais ou professores, mas o diagnóstico só pode ser formulado a partir dos 18 anos de idade. Bem mais comum no sexo masculino, esse transtorno está frequentemente associado a abuso sexual, abandono, negligência ou perdas na infância.

Borderline

São personalidades do tipo "8 ou 80", sempre à beira do limite: ora explodem de raiva e tratam os outros de modo horrível e cruel, ora agem de forma extremamente afetuosa e gentil. Há um padrão de instabilidade nas relações sociais, alta impulsividade e rápida alternância de emoções.

Quem apresenta o transtorno de personalidade borderline sente insegurança e perturbações em relação à autoimagem e pode também ter comportamentos constantes de infligir lesões ao próprio corpo, muitas vezes com pensamentos constantes sobre suicídio e sensação crônica de vazio. É um tipo que apresenta sintomas muito diversos, dependendo do contexto sociocultural em que vive, e que pode se expor a riscos envolvendo drogas, sexo, compras e compulsão alimentar. Embora essas pessoas sintam um medo imenso da solidão, mantêm relações voláteis —hoje amam, amanhã odeiam.

Narcisista

Os narcisistas também são pouco empáticos. Sua principal preocupação é ganhar reconhecimento e admiração. Para tanto, costumam exagerar realizações e bens: eles têm o melhor emprego do mundo, o carro mais potente, a casa mais sofisticada, a personalidade mais interessante. Com autoestima instável, essas pessoas precisam alimentar uma fantasia de grandiosidade constantemente e acreditam ter algo de "especial" —assim, seriam merecedoras de direitos extras. Em diversas circunstâncias são vistas como arrogantes e desafiadoras. Entretanto, não se dão conta disso, o que dificulta um processo de autocrítica. Se sentem terrivelmente feridas quando são criticadas ou fracassam, podendo reagir com raiva ou depressão. Sua autoestima é muito instável, e tipicamente há falta de empatia e insensibilidade em relação aos sentimentos alheios.

Histriônico

Histriônico é o adjetivo relativo a histrião ("palhaço" ou "bobo"), termo que designava o comediante que representava farsas no antigo teatro romano. Remanescente histórico do conceito de histeria, é um ser que funciona demandando atenção: busca sempre ser o centro e o foco do interesse dos outros, mostrando desconforto em situações em que é deixado de lado. Os diagnosticados com esse transtorno costumam abusar da teatralidade e do exibicionismo, exagerar emoções e sensações e forçar intimidade rapidamente. Demonstram, também, uma preocupação excessiva quanto à aparência física. Esse transtorno de personalidade é mais comum no sexo feminino e, em alguns casos, vem acompanhado de disfunções sexuais.

Grupo C

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Esse grupamento agrega os transtornos de personalidade relacionados às reações de medo. Eles são "aparentados" das antigas neuroses e dos atuais transtornos de ansiedade.

Esquivo

Também chamado de evitativo, o esquivo mostra uma constante inibição social, sentindo-se inadequado e hipersensível à avaliação de terceiros. Tímidas, reservadas e com baixa auotestima, essas pessoas preocupam-se com críticas e com a opinião alheia e costumam buscar maneiras de evitar situações que lhe tirem de sua "zona de conforto". Quem tem transtorno de personalidade esquiva até quer se aproximar das pessoas, mas se sente muito pouco à vontade com elas. É válido reforçar que os esquivos se distinguem bastante dos esquizoides e esquizotípicos, nos quais se observa uma indiferença quanto aos relacionamentos interpessoais. As características do transtorno da personalidade esquiva são muito semelhantes às do subtipo generalizado da fobia social e, frequentemente, um mesmo paciente recebe os dois diagnósticos. Contudo, as manifestações do transtorno da personalidade esquiva, como todo transtorno da personalidade, já estão presentes desde a infância ou adolescência, enquanto na fobia social o início pode ocorrer em qualquer idade.

Dependente

Os dependentes necessitam constantemente de cuidados e tornam-se facilmente submissos ao outro —o que configura meio caminho andado rumo a relacionamentos afetivos tóxicos ou abusivos. Têm bastante dificuldade de tomar decisões e estão sujeitos à opinião alheia devido à intensa insegurança de se responsabilizar por seus atos e escolhas. Buscas relações como forma de reconhecimento, amparo e fonte de carinho. Raramente discordam de alguém, devido ao medo de perder seu apoio ou sua aprovação. Há um intenso medo de rejeição, de abandono e de solidão. Quando se envolvem com parceiros nocivos, sentem culpa ao pensar em romper e, caso o façam, acabam pedindo para reatar.

Obsessivo-compulsivo

O último tipo é o obsessivo-compulsivo, por vezes chamado de anancástico também. São perfeccionistas, controladores, pouco flexíveis e com predileção pela ordem. Bastante preocupadas com as finanças, essas pessoas são bem econômicas e dificilmente investem tempo ou dinheiro em lazer. Apegam-se a objetos e sentem dificuldade em se desfazer das coisas —não chega a ser um acúmulo compulsivo, mas esse transtorno também pode advir.

Outros traços comuns: perfeccionismo, moralismo, teimosia, austeridade, meticulosidade, sarcasmo e preocupação excessiva com limpeza. Há bastante dificuldade de se dedicarem a atividades mais lúdicas ou simplesmente prazerosas. Embora seja bastante frequente a comorbidade entre o transtorno obsessivo-compulsivo e o transtorno de personalidade obsessivo-compulsiva, muitos pacientes se adaptam aos critérios diagnósticos de apenas uma dessas duas categorias. Porém, somente no primeiro estão as ideias e os comportamentos obsessivos.

Não se fala em cura, mas em controle

As pessoas com transtorno de personalidade são, de fato, diferentes e seu comportamento "salta aos olhos", pois há uma má adaptação ao contexto social em que vivem. Outra característica presente é a constância do quadro, ou seja, trata-se de um jeito de viver que o indivíduo construiu ao longo de suas experiências e vida. Carga genética, educação e contexto familiar conflituoso contribuem para a condição.

Como não se trata de uma doença mental, mas sim de um modo de ser e existir, os especialistas não usam o termo "cura", optando por encarar o transtorno como uma condição que acarreta um jeito de funcionamento diferente. Entretanto, há tratamentos que ajudam no controle dos sintomas e permitem que os pacientes evoluam de maneira saudável e com perspectivas de vida iguais às outras pessoas.

Em uma parcela significativa dos casos, o tratamento é multidisciplinar: médicos psiquiatras, psicólogos, acompanhantes terapêuticos, assistentes sociais e nutricionistas, entre outros, podem fazer parte do trabalho. Em geral, o objetivo é fazer com que o paciente perceba seu modo de funcionamento e ajudá-lo a transformá-lo de uma maneira saudável, sem perder sua individualidade.

Sessões de psicoterapia, em especial de terapia cognitivo-comportamental, são fundamentais, assim como a prescrição de medicamentos —psicofármacos como benzodiazepínicos, antidepressivos e antipsicóticos — para as crises agudas ou como apoio.

Exercícios físicos, meditação (principalmente a do tipo mindfulness) e participação em grupos de autoajuda específicos podem ajudar a driblar a ansiedade que permeia a maioria desses transtornos. O papel da família e dos amigos também é essencial, principalmente se o ponto de partida for a informação.

Há o risco de as ameaças de autoflagelo e suicídio se concretizarem.Conforme os especialistas, os transtornos de personalidade ainda são alvo de muito estigma, preconceito, isolamento e rejeição pessoal. Assim, as pessoas ao redor podem e devem encontrar ferramentas para tornar a vida desses pacientes mais suave, oferecendo apoio, escuta, companhia e, principalmente, alertando quanto à importância de acompanhamento médico, já que muitos abandonam o processo pelo caminho.

Fontes: Elie Cheniaux, psiquiatra, docente e orientador no programa de pós-graduação em Psiquiatria e Saúde Mental do IPUB/UFRJ (Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro); Gustavo Bezerra, psiquiatra e pesquisador do Ipq-HCFMUSP (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo); Laisa Pessoa Botton Prada, psiquiatra da BP (Hospital A Beneficência Portuguesa de São Paulo), e Luiz Scocca, psiquiatra pelo HCFMUSP e membro da APA (Associação Americana de Psiquiatria)

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