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Como cientistas brasileiros descobriram vírus que causa febre hemorrágica

Arenavírus detectado em Serra Leoa, na África, aparentado do encontrado em Sorocaba (SP) - Bulletin of the World Health Organization
Arenavírus detectado em Serra Leoa, na África, aparentado do encontrado em Sorocaba (SP) Imagem: Bulletin of the World Health Organization

Fábio de Oliveira

Da Agência Einstein

21/01/2020 11h19

O Ministério da Saúde confirmou, na segunda-feira (20), a ocorrência de uma morte provocada por febre hemorrágica brasileira, causada por um novo vírus. A doença não era registrada no país desde 1999.

Causada pelo arenavírus, a enfermidade é considerada extremamente rara e de alta letalidade. A equipe médica levou cerca de duas semanas até confirmar a causa específica. O paciente apresentou os primeiros sintomas no dia 30 de dezembro do ano passado. Seus sintomas levavam a crer que era febre amarela: estava febril, com hemorragia e confusão mental, além de hepatite, que pode ocorrer como uma complicação da febre amarela, doença causada por um vírus transmitido por um mosquito.

Além disso, a época, virada do ano, corresponde ao período em que geralmente começam os surtos da enfermidade. Vindo do interior de São Paulo, o homem de 52 anos havia sido transferido para o Hospital das Clínicas de São Paulo. Tinha passado férias em Eldorado, no Vale do Ribeira, no sul do estado de São Paulo. Para chegar a um diagnóstico conclusivo, a equipe de médicos do HC enviou amostras de sangue para o laboratório do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.

As duas instituições e mais de uma dezena de centros de referência no país participam do projeto Estudo das características epidemiológicas e clínicas das hepatites virais agudas em serviços de saúde brasileiros, do Ministério da Saúde, por meio do programa PROADI-SUS.

No Einstein, todos os exames de sorologia e biologia molecular previstos pela iniciativa para pesquisas de agentes patogênicos envolvidos com o quadro foram empregados. Deram negativo. Então, resolveu-se utilizar um novo método desenvolvido pelo hospital paulistano que não está previsto inicialmente no projeto: o viroma/metagenômica. Isso porque os médicos do HC continuavam sem um diagnóstico conclusivo. Graças a este teste chegou-se a um diagnóstico inesperado: um novo vírus estava por trás de todos os sintomas experimentados pelo paciente.

A nova técnica diagnóstica funciona da seguinte forma: na primeira etapa do teste, chamada de bancada, pega-se a amostra e extrai-se todo o material genético. Ele é encaminhado para sequenciadores, que fazem sua identificação e a leitura de suas bases nitrogenadas, as letrinhas A (adenina), C (citosina), T (timina) e G (guanina). Daí, gera-se um arquivo com elas.

"Esse resultado vai para a etapa seguinte, a de bioinformática", informa o bioinformata Deyvid Amgarten, que participa da pesquisa. Pega-se essa sequência, que é como se fosse um código de barras para cada organismo, e busca-se um match nos bancos de dados, uma correspondência com o material genético depositado ali por outros pesquisadores do mundo todo.

Foi nessa fase que se identificou um arenavírus. O resultado surgiu na tela do computador de Amgarten no dia 14 de janeiro: Mammarenavirus, gênero dos vírus da família Arenaviridae. Assim que viu a informação, correu para avisar via WhatsApp o médico João Renato Rebello Pinho, coordenador do laboratório de técnicas especiais do Einstein, e sua colega, a biomédica Fernanda Malta, responsável por realizar as reações do viroma.

Rebello alertou de pronto o time do HC devido à importância do achado. O teste criado pelos pesquisadores é capaz de detectar vírus responsáveis por diversos males, como hepatites, sarampo, rubéola, dengue, chikungunya, febre amarela, caxumba e Aids. Não só vírus: bactérias e parasitas também. Isso porque analisa o RNA desses microrganismos.

Os arenavírus são conhecidos por infectar roedores e, ocasionalmente, seres humanos e outros animais. Seus sintomas variam, mas se manifestam de forma muito parecida com os da febre amarela. Podem ser transmitidos via contato com mucosas de pessoas infectadas e causam uma enfermidade de alto risco de morte. Por isso, ele é classificado como nível máximo de biossegurança pelas agências de vigilância sanitária. A principal precaução é não entrar em contato com urina e fezes de ratos e roedores.

O último microrganismo dessa, digamos, família viral, foi identificado no Brasil em 1994 no Jardim Sabiá, em Cotia, no interior de São Paulo. Daí a alcunha Sabiá arenavírus. Uma mulher morreu devido à infecção.

Como suspeita-se que o paciente do HC tenha sido contaminado por outro tipo do clã Mammarenavirus em Eldorado, a descoberta foi batizada de Eldorado arenavírus. Amostras dele serão encaminhadas para o CDC (Centers for Diseases Control and Prevention), nos Estados Unidos, um dos principais centros epidemiológicos do mundo e também um dos poucos a dispor de laboratório com nível de segurança 4, onde ficam armazenados amostras dos vírus potencialmente letais. Exemplares de Ebola, por exemplo, ficam lá.

O novo teste de diagnóstico, semelhante a outros já utilizados no exterior, promete mudar a rotina de identificação dos agentes infecciosos. "O raciocínio clínico atualmente é pesquisar um por vez", diz Rebello Pinho.

"Queremos tentar implementar esse novo teste como um substituto de vários outros." Dessa forma, rastreiam-se diversos microrganismos de uma vez só. "Sabemos que vírus e agentes patogênicos podem causar doenças muito parecidas. É muito difícil para um médico determiná-las." Sem falar na economia de custos. Ele continua: "Estamos propondo no Einstein em casos muito graves partir para esse teste mais amplo e, assim, identificar o microrganismo por trás da doença e indicar o tratamento rapidamente."

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