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É verdade que não se pode dormir depois de bater a cabeça?

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Imagem: iStock

Felipe Cerqueira

Colaboração para o VivaBem

17/01/2020 04h00

"Como Vovó Já Dizia" é uma música de Raul Seixas e Paulo Coelho, de 1974, que cita famosos ditados brasileiros, cuja propagação é atribuída a idosos. Um conselho que não consta na canção, mas poderia facilmente estar, é: "Não durma após bater a cabeça, você pode não acordar". Apesar de bastante popular, os especialistas asseguram que não há substância em o que dizem as vovós.

"Isso surgiu em uma época em que os recursos eram escassos. Até profissionais que trabalham na medicina acreditam que o quadro da pessoa pode piorar se ela dormir. Não os médicos, é claro", explicou Wagner Malagó Tavares, médico da divisão de neurocirurgia do Hospital das Clínicas (SP).

É comum ver inclusive quem já sofreu uma pancada na cabeça reproduzir essa informação equivocada. Há, no entanto, uma explicação. Se a pessoa estiver dormindo durante as primeiras duas horas após o trauma, o acesso ao seu nível de consciência fica indisponível. Ou seja, não existe nenhum risco de o quadro piorar, mas o médico talvez não obtenha informações importantes para estabelecer a gravidade da lesão. Por outro lado, a sonolência excessiva já é um evidente indicativo de que o paciente não está nada bem.

Com crianças e idosos, o cuidado deve ser redobrado —são indivíduos que, na maioria das vezes, não conseguem tomar conta de si mesmos. Uma criança de até cinco anos pode ficar em observação em casa se não apresentar sinais de alerta, mas especialistas recomendam que os pais a acordem pelo menos duas vezes para observar seu estado de consciência. Outro grupo de médicos acredita que, quando há essa necessidade, o melhor é que ela fique em um hospital.

Quando procurar atendimento

Nem todo choque na cabeça é motivo de aflição. Traumas corriqueiros como uma batida leve no armário ou uma queda da própria altura geralmente requerem apenas uma cuidadosa observação doméstica. Se a pessoa apresentar apenas dor local, sem sangramento do couro cabeludo, não é necessário se dirigir até um pronto-socorro. Porém, a mínima suspeita de concussão (alteração no estado mental), contusão cerebral ou traumatismo cranioencefálico exige busca por atendimento médico.

Perguntas como "onde estamos?" e "o que você faria em seguida?" ajudam a identificar indícios de que há algo errado. A perda de consciência, o pensamento lento e a dificuldade para reconhecer parentes são sinais de que se deve chamar o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) pelo telefone 192.

Outros sintomas igualmente preocupantes são:

  • convulsão
  • tontura
  • vômitos
  • irritabilidade
  • visão turva
  • fraqueza nos braços ou nas pernas
  • fala arrastada
  • sonolência excessiva e anormal
  • irritabilidade
  • pupilas com tamanhos diferentes
  • palidez excessiva
  • mancha de sangue no olho
  • zumbido persistente
  • saída de sangue ou de líquido claro do nariz ou do ouvido

Não está entre os sinais mais alarmantes o aparecimento isolado de um "galo". Claro que aquele hematoma formado após o rompimento de vasos sanguíneos que estão debaixo do couro cabeludo assusta, mas não é tão alarmante quanto parece. O caroço tende a desaparecer após alguns dias, quando o sangue é reabsorvido. Uma compressa de gelo no local ajuda a desinchá-lo.

Para saber se uma concussão está associada a um trauma mais grave, é necessário um exame de tomografia computadorizada de crânio. Por meio de imagens do cérebro, é possível descobrir a ocorrência de hemorragias ou a necessidade de cirurgia emergencial.

Tipos de lesões causadas por choques na cabeça

Concussão
Alteração do estado mental. É provocada devido a um desequilíbrio químico pós-choque. Pode ser leve (15 minutos ou menos), moderada (mais de 15 minutos) ou grave (quando há perda de consciência). Algumas pessoas apresentam sintomas de pós-concussão (tontura, insônia e dificuldade de concentração nos dias seguintes).

Traumatismo craniano
Qualquer choque na camada externa da cabeça, independentemente da força. Os traumatismos leves não representam riscos. Nos graves, há grandes sangramentos na cabeça. Pode gerar consequências como perda de memória, incapacidades permanentes e até morte.

Traumatismo cranioencefálico
Trauma com ferimentos no cérebro. É uma causa comum de mortes e deficiências. De acordo com o SUS (Sistema Único de Saúde), quedas e acidentes de trânsito são os principais causadores deste tipo de lesão. Leva a uma perda de neurônios de forma progressiva, como as doenças de Alzheimer e Parkinson.

Contusão cerebral
Causa sangramento e inchaço ao redor da área afetada. Pode ocorrer ou não em conjunto com uma fratura do crânio. Geralmente, é causada por um impacto direto e violento na cabeça. Uma lesão mais grave provoca a deterioração do tecido cerebral e, consequentemente, um estado de coma.

Fratura do crânio
Ocorre um afundamento do crânio, mas não necessariamente com dano cerebral. Diagnosticada com a tomografia. A gravidade depende especialmente do local da lesão. A ocorrência de sangramento comumente forma um hematoma. Quando a pele é rompida, bactérias podem entrar no crânio e causar infecções graves.

Lesão axonal difusa
Ocorre quando há uma desaceleração súbita, ou seja, quando a cabeça em movimento se choca com um objeto fixo (um poste, por exemplo). Comum em quedas e acidentes de motocicletas. Esse choque causa o rompimento de fibras nervosas. É comum o paciente ter perda de consciência de pelo menos seis horas. O aumento da pressão no crânio pode levar ao coma.

Nos esportes

Kramer, meia da seleção alemã, bateu a cabeça na final da Copa de 2014 - Themba Hadebe/AP
Kramer, meia da seleção alemã, bateu a cabeça na final da Copa de 2014
Imagem: Themba Hadebe/AP

O jogador de futebol alemão Cristoph Kramer não se lembra de ter disputado o jogo mais importante de sua vida: a final da Copa do Mundo do Brasil 2014. Após chocar sua cabeça com o ombro do defensor argentino Ezequiel Garay, Kramer desabou, ficou desorientado e perguntou ao árbitro italiano Nicola Rizzoli se realmente estava em uma decisão do Mundial. Foi o suficiente para o juiz ordenar a substituição do meio-campista.

O esporte mais popular do mundo é um dos mais suscetíveis a lesões por pancadas na cabeça. Para diminuir os riscos, aumentou-se o rigor com atletas que levantam demais o cotovelo e foi estabelecido um protocolo de concussão. Antigamente, era o médico do próprio time quem decidia se o atleta continuaria ou não em campo. Hoje, um observador imparcial tem esse poder.

O CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças), agência do departamento de saúde dos EUA, estima que até 3,8 milhões de concussões acontecem por ano em decorrência da prática esportiva.

O boxe descobriu em 1928 a demência pugilística, chamada atualmente de encefalopatia traumática crônica. É uma doença degenerativa, semelhante ao mal de Alzheimer, provocada por repetidos golpes na cabeça durante um longo período.

Bellini participa de treino da seleção brasileira - Acervo UH/Folhapress
Bellini participa de treino da seleção brasileira
Imagem: Acervo UH/Folhapress

Acreditava-se que esta enfermidade atingia apenas boxeadores, mas o neuropatologista Bennet Omalu divulgou, em 2005, o primeiro caso de encefalopatia traumática crônica em um jogador de futebol americano, Mike Webster, do Pittsburgh Steelers. A NFL (Liga de Futebol Americano dos EUA) tentou desacreditar Omalu, mas ele se manteve firme e provocou uma mudança radical em uma das principais modalidades norte-americanas. A liga adotou medidas para minimizar os riscos de traumas cranianos.

Foram descobertos casos no MMA, rúgbi, hóquei sobre o gelo e futebol. Em 2014, o neurologista Ricardo Nitrini, professor titular de neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, anunciou que a causa da morte do ex-zagueiro Bellini, capitão da seleção brasileira no título mundial de 1958, havia sido a demência pugilística, não o Mal de Alzheimer.

Fontes: Renato Anghinah, especialista em trauma cranioencefálico pela North American Brian Injury Society, professor livre-docente pelo Departamento de Neurologia da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), chefe do Serviço de Reabilitação Cognitiva do Pós-TCE do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, coordenador do Núcleo de Neurologia do Hospital Samaritano de São Paulo; Wagner Malagó Tavares, doutor em ciências médicas pela USP e médico da divisão de neurocirurgia do Hospital das Clínicas (SP); Roger Schmidt Brock, neurocirurgião no Hospital Sírio-Libanês (SP); Gustavo Damásio Magliocca, coordenador médico da Sociedade Esportiva Palmeiras.

Referências: Concussão Cerebral - Mais Do Que Uma Simples Batida na Cabeça (Dr. Jorge Pagura e Dr. Renato Anghinah); Hospital Israelita Albert Einstein; Hospital Sírio-Libanês; Manual MSD Saúde; Soccer (Football Association) and chronic traumatic encephalopathy: A short review and recommendation (https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5674664/); Chronic Traumatic Encephalopathy in a National Football League Player.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente de como foi informado, o correto é mancha de sangue nos olhos. Já foi corrigido no texto.

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